A volta por cima do judoca Rodrigo Lopes - Esportes - Santa

De olho em Tóquio 202003/09/2016 | 09h00Atualizada em 03/09/2016 | 09h01

A volta por cima do judoca Rodrigo Lopes

Obstinado, atleta da Sogipa superou fratura na coluna e um ano depois estava de volta: "Prefiro morrer no tatame a largá-lo para sempre"

ZH Esportes
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No final de 2014, quando uma grave lesão quase lhe tirou a vida durante um combate, a maior preocupação de Rodrigo Costa Carlos Lopes era permanecer no judô. Continua sendo. O acidente no tatame deixou como herança um parafuso de 10cm na coluna cervical. Poderia ter sido bem pior. Na cirurgia, o atleta correu o risco de ficar tetraplégico. Mesmo assim, é categórico quando fala sobre o esporte:

– Prefiro morrer no tatame a largá-lo para sempre.

As circunstâncias fizeram com que o atleta de 20 anos e 1m73cm se abstivesse de tentar uma vaga na Olimpíada do Rio, sua cidade natal. Pela TV, observou Mayra Aguiar, Rafael e Rafaela Silva subirem ao pódio, o que ele espera realizar em Tóquio 2020.

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A classificação para a próxima Olimpíada seria o ápice de uma paixão que surgiu logo aos sete anos. Rodrigo estava na sala de aula, no Rio de Janeiro, e um professor bateu na porta perguntando se alguém gostaria de fazer uma aula experimental de judô. O garoto aceitou o convite e seguiu despretensiosamente praticando o esporte. Mas o tempo passou, e o que era diversão virou profissão.

Hoje, Rodrigo é atleta da Equipe OI/Sogipa. O bigode em plena formação denuncia os seus 20 anos. Sente o desejo de compartilhar tudo o que tem e, antes de um treino numa fria manhã de inverno, oferecia uma barra de cereal para um de seus colegas.

O braço esquerdo tatuado do punho ao ombro é só uma das mudanças desde que veio do Rio para Porto Alegre. Rodrigo mora ao lado da Sogipa, vai a pé aos treinos e estampa no semblante um prazer característico de quem faz o que gosta. No passado, era muito mais difícil fazer o que ele gostava.

Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Aos 13 anos, a convite do sensei Mauro Ramos, Rodrigo saiu da academia em que treinava e foi para o Jequiá Iate Clube, na Ilha do Governador.

– O rapaz sempre foi um atleta. Na idade dele, era difícil levar o judô a sério como ele fazia – relatou o mestre.

A mãe, Renata, sugeriu a vinda do filho para a Sogipa

Como o clube ficava a 30 quilômetros da sua casa em Irajá, entrou em ação o padrasto. Fábio Gomes, 46 anos, largou o emprego para levar e trazer o guri todos os dias aos treinos. Toda essa dedicação de Fábio fez com que Rodrigo mudasse o rótulo. Era padrasto para quem via de fora, mas um verdadeiro pai na relação dos dois.

Já aos 14 anos, o judoca começou a figurar na seleção brasileira de judô graças ao título nacional conquistado no ano anterior. Seu destaque lhe rendeu uma bolsa de estudos em um colégio particular do Rio. Porém, as vitórias custavam caro. Rodrigo saía de casa todos os dias às 6h e voltava às 23h. Sua rotina consistia em estudar de manhã, em Bento Ribeiro. Fazer trabalho físico à tarde, no Parque Aquático Maria Lenk e treinar à noite, na Ilha do Governador. Uma logística que contabilizava, para ele e seu padrasto, mais de 100 quilômetros por dia dentro de um Ford Ka ano 2001. O carro era também restaurante e dormitório para Rodrigo, que se alimentava e aproveitava as viagens para uma soneca entre os trajetos.

Em 2014, sua vinda para o Rio Grande do Sul se deu em virtude de uma chuva torrencial que abateu a capital fluminense, estragando o carro que o transportava para o colégio e aos treinos. Rodrigo estava impossibilitado de treinar caso ficasse no Rio. Sabendo disso, Renata Costa,

39 anos, mãe de Rodrigo, propôs que o filho viesse para a Sogipa fazer testes. Deu certo.

Antes da seletiva para os Jogos do Rio, a grave lesão

Nos treinos, o judoca da categoria ligeiro (-60kg) se destacou e foi convidado pelo técnico do clube gaúcho Antonio Carlos Pereira, o Kiko. Treinou ao lado de uma das suas maiores inspirações no esporte: Felipe Kitadai, bronze nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

O Estado mudou, mas o desempenho até o pódio, não.

Em 2014, graças aos títulos no Campeonato Brasileiro Sub-21 e Sênior, classificou-se para a seletiva dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Porém, na Bahia, uma semana antes, na qualificatória para o Circuito Europeu Sub-21, Rodrigo aplicou um golpe em seu oponente e caiu de cabeça, desacordado. Cerca de 20 segundos depois, despertou sem o árbitro perceber nada.

Após o término da luta, Rodrigo avançou na competição. Queria continuar lutando no dia mesmo com dores no pescoço e contrariando a todos. Só foi compreender a sua incapacidade em competir quando teve o kimono puxado por seu técnico e desabou no chão. Rodrigo foi eliminado e diagnosticado com um simples torcicolo.

Mais tarde, Fábio notou os movimentos do filho cada vez mais limitados e o levou para fazer exames. Durantes três dias, seus pais ficaram ao seu lado dormindo ao relento do chão do quarto em que Rodrigo estava hospitalizado. Pior que o dormitório, apenas o resultado dos exames: o filho havia fraturado a segunda vértebra da coluna cervical (C2).

– O médico me perguntou: "Você acredita em Deus?". Respondi que sim. Então aconselhou que eu ajoelhasse e rezasse, porque por muito pouco meu filho não morreu no tatame ou no táxi vindo para cá – contou o padrasto.

Um longo período com um colar cervical circundando o pescoço de Rodrigo sucedeu esta informação. Podendo ficar tetraplégico, aceitou fazer uma operação de risco. Foi colocado na sua coluna um parafuso de aproximadamente 10cm.

– No estágio da lesão, tinha de imobilizar logo no momento do acidente, porque poderia comprometer o centro respiratório. A C2 é um osso pequeno, mas com a articulação delicada. Por baixo da mandíbula, foi feita a fixação desta fratura com um parafuso. O problema é semelhante ao de Laís Souza, a ginasta que se acidentou enquanto esquiava e acabou fraturando a C3, ficando tetraplégica. A ginasta teve uma lesão além da fratura do osso, rompeu o ligamento que provocou um trauma na medula.

Rodrigo deu sorte em não ter sofrido nada mais grave – explicou Luis Eduardo Carelli, médico especializado em coluna que operou o atleta.

Fisioterapia, reforço muscular, remédios dentre outros tratamentos se tornaram rotina. Rodrigo aguentou o esforço. Para a mãe – que vendia rifas no trabalho para arcar com as competições – o filho é muito mais do que um atleta.

– Além de ser querido, focado, agora virou um milagre – comemorou Renata.

Técnico Kiko faz elogios à persistência do atleta

Um ano depois, estava de volta aos tatames para lutar a qualificatória para o Circuito Europeu Sub-21, mesma competição na qual teve a grave lesão.

– Não acreditavam que eu iria lutar. Pensavam que eu estava apenas vendo o torneio – gabou-se Rodrigo, com um sorriso de quem surpreendeu os incrédulos com o segundo lugar.

Passados quase dois anos da grave lesão, Rodrigo mantém o empenho nos treinos. Pouco a pouco, retoma a confiança. Ainda não calcificado, o parafuso preocupa o atleta, mas seus 10cm são insuficientes para afastá-lo dos tatames. Esta persistência é elogiada por Kiko:

– Apesar das dificuldades, ele não pensa em desistir em nenhum momento. Característica dos atletas obstinados, de alto rendimento. É importante ter cuidado, mas a força interna tem de ser maior do que as externas – disse o atual treinador.

Agora, Rodrigo busca pontuar nos próximos campeonatos para se qualificar aos Jogos Olímpicos de Tóquio. E, quem sabe, fazer no país do judô, o que no quintal de sua casa no Rio de Janeiro, Mayra Aguiar, Rafael Silva, Rafaela Silva fizeram.

*ZHESPORTES


 

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