Grupos de idosos driblam a idade para praticar esportes e manter rotina saudável - Esportes - Santa

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Especial29/07/2017 | 11h35Atualizada em 29/07/2017 | 11h38

Grupos de idosos driblam a idade para praticar esportes e manter rotina saudável

Patotas em Blumenau e Gaspar são exemplos de parceria e boas amizades unidas pelo esporte

Grupos de idosos driblam a idade para praticar esportes e manter rotina saudável Lucas Correia/Agência RBS
Dona Norma, aos 72 anos, não perde as partidas de bolão 23 Foto: Lucas Correia / Agência RBS

O Früstück é o ponto alto da tarde. Sobre a mesa são cuidadosamente colocados os bolos, pães chimiados, cucas e os garrafões térmicos de cinco litros onde estão o leite fresco e café recém-feito.

– Faltou a schnecke (docinho em forma de caracol) da Agnes! – fala aos risos dona Claudete Luebke, enquanto espera ansiosamente o aval de Norma Wagenknecht para poder atacar as iguarias.

Para quem chega atrasado no salão do Esporte Clube Água Verde, aquelas 12 senhoras dispostas ao redor da grande mesa retangular são integrantes de mais um grupo que se reúne apenas para comer e jogar conversa fora. Mas não. Muito embora as fofoquinhas sejam colocadas em dia e as gargalhadas prevaleçam em vários momentos, elas estão ali reunidas por motivo específico: o bolão 23.

É graças ao esporte, tradicional em países como Alemanha, Áustria e Suíça, que o Grupo 3 de Outubro, fundado em 1962, se reúne todas as quartas-feiras em Blumenau. Lá, prevalecem as mulheres ¿com mais experiência¿ – como elas mesmas gostam de chamar a atividade física da terceira idade – e, principalmente, a união pela prática esportiva, independentemente de quantas primaveras tenham se passado na cronologia da vida de cada uma.

– A gente espera a semana inteira para que a quarta-feira chegue logo – relata a capitã Norma, aos 72 anos, enquanto pega o caderninho para comunicar a todas qual será a dupla responsável pelo café na semana que virá a seguir.

Praticantes do bolão 23 predominantemente pela influência de seus maridos, as senhoras na idade, porém garotas de espírito, mantiveram a tradição de ir à cancha independentemente do passar dos anos. Muitas ali nunca praticaram qualquer outro esporte que não fosse o da bola de 10 quilos e ostentam, com orgulho, o fato de fazerem parte de uma patota.

– Ou venho aqui com as meninas, ou fico em casa sem fazer nada. Escolho a primeira opção – garante Carmen Passig, à beira dos 70 anos, e que mantém a tradição das quartas-feiras no Água Verde.

A rotina do grupo é objetiva: às 14h15min elas se cumprimentam, separam os times e começam a rolar as bolas. Ao fim do jogo, cada integrante do time perdedor tem que colocar R$ 1 (um realzinho, como diz Norma) para o caixa da equipe. Depois a capitã dá as deliberações vespertinas, rifa produtos trazidos pelas colegas e libera o café que é lentamente devorado até o fim. Às 16h, o feltro verde de duas mesinhas vira palco para mais competições, mas aí que envolvem canastra e cacheta. Momento para sentir dor depois de 24 jogadas rumo aos pinos? Nein, nein.

– Até tô com um pouco de dor nas minhas costas hoje, mas é de limpar a casa (risos). O bolão só me traz saúde, me mantém ativa – aponta Izolda Koepsel no momento em que a discussão é se o doce trazido era ou não um toucinho do céu. Ninguém soube responder.

Com mais de sete décadas em primaveras, Norma Wagenknecht está 10 anos à frente do grupo e é a mais experiente de todas as moças do Grupo de Bolão 3 de Outubro. Viu algumas irem embora e voltarem anos depois, viu outras chegando, mas não esconde o temor de que um dia a patota, por falta de praticantes, venha a acabar.

– Acho que ainda vamos por mais alguns anos, mas depois não sei o que vai ser. É difícil conseguir que outras mulheres participem e as mais novas não querem jogar. Não conseguimos renovar o grupo – lamenta dona Norma.

Seu Chico é a inspiração de patota em Gaspar

Foto: Lucas Correia / Agência RBS

Sextas-feiras são sagradas no Bela Vista Country Club, em Gaspar, onde uma patota com nome peculiar se reúne para jogar futebol: Sukata. Lá, entre uns mais novos, é verdade, os velhinhos predominam: são 22 acima de 60 anos entre os que batem aquela bolinha para abrir o fim de semana. Ingo Padaratz é um deles. Nascido no mesmo ano da terceira Copa do Mundo, seu Chico, como é chamado pelos companheiros, já jogava bola quando a Seleção Brasileira conquistou a primeira Jules Rimet.

São quase 79 anos de vida, sendo mais de 70 dedicados a jogar bola. Nem mesmo o avançar da vivência foi suficiente para fazer com que ele deixasse a pelada de sexta.

– Ainda hoje consigo jogar dois tempos de 40 minutos, sem problema algum. Eles (os companheiros de patota) não me deixam sair, embora tenham alguns que ficam pegando no meu pé só porque às vezes perco gols – diz o lateral- direito de origem e que desde o começo deste ano foi remanejado para o comando de ataque.

– Já fiz 11 gols desde janeiro, antes eu chegava a ficar meio ano sem marcar – conta o orgulhoso Chico.

Município também oferece grupos para quem tem interesse

Você que avançou na idade, não perdeu o espírito jovem e a habilidade para o esporte, mas não tem conhecidos em patotas ou tem interesse em outras modalidades, pode encontrá-las em Blumenau na Fundação Pró-Família. São 23 grupos que se encontram semanalmente, praticando desde câmbio (vôlei adaptado, onde se pode segurar firme a bola), ginástica e dança de salão. Muitos, porém, estão com as vagas esgotadas, mas há um alento: as matrículas para novos alunos serão abertas na segunda-feira, dia 31.

Para tentar garantir um lugar, é preciso ir pessoalmente à sede da fundação, que fica na Rua Itapiranga, 368, ao lado do Parque Ramiro Ruediger. Mais informações pelos telefones 3381-6972 e 3381-6973.

Esporte na terceira idade requer cuidados, alertam especialistas

Não é qualquer idoso que pode calçar uma chuteira e ir para o campo, ou então fazer sucessivos movimentos com uma bola maciça que pesa 10 quilos. Embora importante para uma vida saudável e essencial à qualidade do dia a dia de pessoas com mais idade, o esporte precisa ser muito bem dosado para não se tornar o vilão da história. Para o médico ortopedista Ricardo Correa, antes de mais nada é preciso fazer uma avaliação dos níveis de artrose e osteoporose, para ter conhecimento sobre o desgaste que a articulação e qualidade da massa óssea de cada um.

– São pessoas que podem facilmente ter uma lesão no tornozelo, joelho, quadril ou até sofrer uma fratura em caso de queda. Isso significa que a pessoa não deva ou não possa fazer atividade física? Não, muito pelo contrário. Hoje o tratamento dessas doenças é feito justamente com esporte, em treinos de bicicleta, força, pilates. São atividades que se moldam para o indivíduo.

Especialista em medicina esportiva, Tiago Beltrami Giacomini atenta para a necessidade de ir além da patota eventual. Praticar esporte, segundo ele, precisa fazer parte da rotina de pessoas com mais idade, como uma forma de manter a vida saudável e evitar problemas.

– O ideal é que se pratique pelo menos 150 minutos semanais de exercícios. É preciso otimizar a intensidade para melhorar benefícios e sempre fazer alongamentos depois das atividades para evitar dores musculares – comenta Giacomini.

O fisioterapeuta Anderson Tomelin alerta para a necessidade do aquecimento antes de qualquer exercício que gere impacto, como é o caso de seu Chico e de dona Norma. Além disso, o fortalecimento muscular também ajuda a prevenir lesões:

– Para se ter risco menor de lesão é preciso sempre preparar a musculatura antes. Isso pode ser feito com musculação, pilates e o aquecimento é sempre essencial, já que prepara as fibras musculares e o corpo para os estímulos que virão. Vale uma corridinha leve e também simular os movimentos da prática – explica.

 
Jornal de Santa Catarina
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