Copa do Mundo fomenta tímido retorno ao futebol no leste de uma Ucrânia em guerra - Esportes - Santa

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Donetsk07/07/2018 | 18h28

Copa do Mundo fomenta tímido retorno ao futebol no leste de uma Ucrânia em guerra

AFP
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As façanhas da seleção russa, que neste sábado enfrentou a Croácia pelas quartas de final da Copa do Mundo, despertou uma torcida inesperada, não apenas na Rússia, mas também no leste de uma Ucrânia em guerra, onde as autoridades separatistas restituem a vida do luxuoso estádio de sua "capital".

Três semanas depois do início da Copa da Rússia, os rebeldes pró-russos em Donetsk finalmente mantiveram a sua promessa de abrir uma área de torcedores em uma cafeteria localizada na Donbass Arena, que foi o orgulho dos habitantes, mas ficou abandonada desde a explosão do conflito com o Exército ucraniano em 2014, que já deixou mais 10 mil mortos.

Hoje, este recinto ultramoderno inaugurado em 2009 nesta grande cidade industrial do leste e frequentado por estrelas do futebol há alguns anos, abriga um museu, um café para acompanhar as partidas, e organiza visitas guiadas.

Decorado com as cores do clube local, o Shakhtar, que teve que deixar Donetsk no início da guerra, o estádio é equipado com várias telas que transmitem as partidas pela televisão russa e pela Internet, constatou um jornalista da AFP.

- Toque de recolher -

O toque de recolher imposto pelos separatistas devido aos combates e que começa às 23h00 locais e dura toda a noite, foi adiado até 01h00, permitindo que os fãs de futebol se reúnam para ver as partidas noturnas pela televisão.

As autoridades separatistas justificaram a decisão mediante a "estabilização da situação" no front, onde há um cessar-fogo precário desde a assinatura dos acordos de paz em 2015.

"Todas as mesas estão reservadas para Rússia-Croácia esta noite, e o toque de recolher permitirá que as pessoas passem um momento bom juntas", disse Youlia, gerente de 27 anos do café Donbass Arena.

"Acho que é normal ver as pessoas apoiando a seleção da Rússia. Nos acostumaram mal, já estão nas quartas de final. Esperamos que se classifiquem para as semifinais", declara Sergei Serdiouk, visitante do estádio, satisfeito com o relativo retorno à normalidade do local que uma vez foi motivo de orgulho esportivo em Donetsk.

- 'Sonho' -

"É como um sonho: tínhamos algo do passado e voltamos a ver isso, estou com uma sensação de 'déjà vu'", brinca. A Donetsk Donbass Arena foi sede das partidas da Eurocopa 2012, organizada conjuntamente pela Ucrânia, e lá puderam ver grandes estrelas como Cristiano Ronaldo, Andrés Iniesta e Xavi Hernández.

Danificado durante a batalha que sacudiu essa grande cidade industrial, o estádio teve que fechar e viu seus jogadores irem para Kiev.

Após a partida dos jogadores, o presidente do clube Shakhtar, o oligarca ucraniano Rinat Akhmetov, primeiro tentou manter o controle do estádio e se esforçou para organizar a distribuição de ajuda humanitária aos moradores da cidade, atingidos por fortes bombardeios e privações.

O senhor Akhmetov gastou 350 milhões de euros para construir a Donbass Arena e contratou os arquitetos que trabalharam nos projetos do estádio Allianz Arena do Bayern de Munique e do enorme Estádio Nacional de Pequim.

O estádio e outras propriedades do oligarca foram tomadas pelos separatistas, acusados por Kiev e pelos ocidentais de serem militarmente apoiados pela Rússia, o que Moscou nega.

A tímida iniciativa da Copa pode não durar e o estádio, com a grama parcialmente amarelada e a iluminação que não funciona, passaria a se tornar em mais uma marca da ruína causada pelo conflito ucraniano.

* AFP

 
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