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Entrevista28/11/2015 | 14h01

"Muitas pessoas não sabem sequer como nasceram", critica psiquiatra Eleanor Luzes

Em Blumenau para palestrar a alunos da Furb, médica critica modelos atuais de educação e saúde e defende mais proximidade entre pais e filhos

"Muitas pessoas não sabem sequer como nasceram", critica psiquiatra Eleanor Luzes Leticia Felippin/Divulgação
Eleanor ficará em Blumenau até domingo para participar de encontros com alunos do curso de Medicina da Furb Foto: Leticia Felippin / Divulgação

Quantas vezes você já parou para pensar nas suas necessidades, carências, pontos fortes e projetos de vida? É sustentada no desenvolvimento do autoconhecimento humano que a psiquiatra Eleanor Luzes lança uma nova visão sobre vida cotidiana. Em Blumenau até domingo para participar de encontros com alunos do curso de Medicina da Furb, a médica e doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro falou com exclusividade ao Santa na sexta-feira.

Em conversa por telefone que durou cerca de 50 minutos, a médica explicou sobre a necessidade de se conhecer e desenvolver consciência sobre os acontecimentos da própria vida, como os meses que antecederam o nosso nascimento. Eleanor defende mais proximidade entre pais e filhos nos primeiros três anos de vida das crianças e critica o modelo de educação e medicina atuais.

Sua teoria diz que é possível mudar a informação que trazemos registrada da nossa criação para corrigir problemas e evoluir na criação das novas gerações. Como isso é possível?

É necessário estudar a própria biografia. É inacreditável, mas muitas pessoas não sabem sequer como nasceram, se foi através de parto normal ou cesárea, nem sequer se foram aleitadas. Tudo aquilo que eu não sei que vivi, volta a acontecer no meu filho. Em segundo lugar, é preciso trabalhar o Renascimento (técnica terapêutica), que permite que você saiba de sua história desde dentro do útero. As pessoas só mudam no momento em que elas descobrem a raiz de alguns padrões.

Você faz uma relação entre o momento do parto e o início da sociedade de consumo. Como isso funciona?

Tão logo nasce, o mamífero humano precisa ficar grudadinho no corpo da mãe, pois ele só conhece aquele mundo. Mas quando a sociedade inventa de separar a criança da mãe, e colocá-la no bercinho de acrílico, dar para ela um monte de coisas, o que ela registra: no futuro, quando eu não tiver afeto, vou entrar no shopping e detonar o cartão de crédito pois aprendi que na falta de afeto eu posso ter coisas.

Qual a importância da proximidade entre mãe e filho nos primeiros anos da criança?

O humano é filhote por três anos. No primeiro ano de vida, a criança vai aprender a lidar com a gravidade. No segundo, vai desenvolver palavras e no terceiro é que vai aprender a pensar. Só no fim do terceiro ano é que desenvolve memória contínua. Veja o trauma que é para a criança ser deixada em uma creche.

Então há uma forte relação com a formação do ser humano?

Sim. Economistas alemães descobriram que os jovens que tiveram mãe (a presença física dela) até os três anos, tinham uma vida numa boa, trabalhavam, se casavam. E aqueles que não tinham, é como se não tivessem crescido. A primeira geração de creches do Brasil é a geração do pessoal que não constituiu família, que não conseguiu terminar a faculdade e nunca está satisfeito com trabalho, nem com o relacionamento.

A necessidade de colocar as crianças em creches hoje é uma realidade. Qual seria a alternativa sugerida para contornar isso?

Uma opção é fazer uma caderneta de poupança antes de ter um filho. Em algumas sociedades, cria-se um banco que garante um tempo de salário à mulher. Outra maneira é que o governo crie uma licença-maternidade durante a gravidez e depois, durante 450 dias, como é na Suécia. Isso pode ser considerado um investimento na vida pois as pessoas adoecem menos, então irão usar menos a Previdência.

Qual sua opinião sobre as crianças que foram abusadas, separadas judicialmente da família e hoje vivem em abrigos? Como corrigir isso?

A medicina tradicional vem dizendo pra todo mundo que nada tem conserto. É mentira. Tudo é regenerável. Um dos recordes mundiais do Brasil é o de abuso sexual na infância. No entanto, ninguém fala nada, apesar de as estatísticas serem as mesmas há 200 anos. O ideal é tratar com o Renascimento, já no segundo grau. A partir daí, a pessoa pode constituir relacionamentos mais saudáveis. Também é preciso ter a noção de que maternidade e paternidade só pode ser feito conscientemente.

Por que a senhora defende a Ciência do Início da Vida como matéria curricular?

A ideia é as pessoas aprenderem sobre maternidade, paternidade. Não só informações, mas também auto-conhecimento. Algumas práticas que cito, como o Renascimento, podem acontecer dentro da escola. Durante um trabalho voluntário na favela do Rio, conseguimos mudar a violência dentro da escola em poucas semanas pois os alunos começaram a se interessar por saber da vida. Gastamos tantas horas para enfiar coisas inúteis na cabeça dos alunos e é lógico que as crianças se desinteressam. A educação foi criada para que as pessoas não tivessem consciência e virassem escravos felizes. A construção da sala de aula era uma reprodução do tipo de arquitetura da fábrica.

 

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