Daniela Matthes: "Basta um olhar mais atento para notar que a cidade não é um direito de todos" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião19/09/2016 | 16h01

Daniela Matthes: "Basta um olhar mais atento para notar que a cidade não é um direito de todos"

 

Não lembro ao certo a idade que tinha, só que ela me causava alguma angústia, destas que só longos abraços são capazes de amenizar. Não tinha a ver com seu aspecto físico, mas com as amarguras que carregava. Eventualmente ia até a casa dela para brincarmos junto de outra vizinha mais próxima. Casa de madeira, quarto simples, cheio de cor-de-rosa pipocando em todos os cantos. A mãe era gentil, mesmo que carregasse no olhar certa melancolia. No chão, brincávamos um pouco. Do quê, já não sei mais. O quarto era o mundo daquela menina que não existia dos joelhos para baixo.

As dificuldades que lhe foram impostas por uma doença precoce pareciam ter mais a ver com o mundo ao redor do que algo dentro dela. O riso fácil e o longo cabelo louro brilhante tratavam de esconder o quão duro era para uma menina de família pobre fazer qualquer atividade trivial morando numa rua sem calçamento, com dois morros de soslaio e uma cadeira de rodas precária. Não raro dava para ver o pai emprestando as próprias pernas, numa longa carona nas costas, para que a pequena pudesse ir à escola em dia de chuva. Fico imaginando que talvez a angústia que carregava pudesse ser, mesmo que momentaneamente, reduzida se visse os Jogos Paralímpicos.

Ver atletas com diferentes tipos de deficiência física ou mesmo intelectual superando recordes e a tudo que o senso comum estabelece é de dar esperança. Almejar um futuro em que todos tenham condições para serem o que bem entender pode parecer utópico. Mas estes atletas estariam no alto do pódio sem sonhos aparentemente inalcançáveis? Além de servir de alimento às aspirações de gente que ainda só conhece o mundo – aquele que começa na soleira da porta de casa – pela televisão, a Paralimpíada teve outra missão, entre as tantas: mostrar que somos todos normais, cada um ao seu jeito. Altos, baixos, com ou sem os dois braços; visão perfeita, baixa ou nenhuma; com ou sem mãos; duas pernas, um ou dois cotos. Capacidade motora reduzida, intelecto aquém do que se quer entender por padrão. Todo deficiente tem o direito a uma vida normal. Ninguém munido de pré-conceito deveria ser barreira. Nem a cidade que se constrói falsamente inclusiva.

Basta um olhar mais atento (ou nem tanto) para notar que a cidade não é um direito de todos. Passear numa quadra em qualquer lugar é perceber que alguém com condição diferente de locomoção colecionaria percalços e muros. Ônibus altos demais, a maioria sem preparo para quem não pode subir escadas; calçadas com piso tátil colocado para decoração; falta de sinalização sonora ou em braile. Raros ombros gentis que ajudem a chegar ao outro lado da rua. A própria universidade de Blumenau, que, como o nome sugere, deveria oferecer livre acesso a todos, conserva ilhas onde só chega quem não tem nas escadas um exército de inimigos.

A Paralímpiada mostrou mais que esportes pouco conhecidos, histórias de superação e o belo trabalho que o Brasil é capaz de fazer ao sediar eventos desse porte. Contou que somos normais e iguais, cada com seu próprio jeito.

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