Pancho: Estamos preparados para deslizamentos como os de 2008? - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Tragédias climáticas26/11/2016 | 07h09Atualizada em 26/11/2016 | 07h09

Pancho: Estamos preparados para deslizamentos como os de 2008?

Oito anos depois da tragédia no Médio Vale do Itajaí, secretário de Defesa do Cidadão responde como enfrentaríamos situação semelhante agora

Pancho: Estamos preparados para deslizamentos como os de 2008? Gilmar de Souza/Agencia RBS
Entrevista: Marcelo Schrubbe é secretário municipal de Defesa do Cidadão Foto: Gilmar de Souza / Agencia RBS
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Já se passaram oito anos, mas quem estava em Blumenau, Gaspar ou Ilhota naquele 22 de novembro de 2008 certamente se recorda de onde e com quem estava quando se deu conta de que algo diferente e terrível ocorria na região. A chuva trouxe, além da costumeira e conhecida enchente, um convidado desconhecido e indesejado: o deslizamento. Clareiras se abriram nos morros enfraquecidos pelo homem e levaram vidas em quantidade que uma enchente não costuma levar. Estamos preparados para lidar com situação semelhante? O secretário municipal de Defesa do Cidadão, Marcelo Schrubbe – que trabalhou na época como bombeiro voluntário –, responde.

O que mais marcou durante o trabalho de resgate e salvamento em 2008?

Me lembro bem de duas situações. Estava em casa na manhã daquele sábado quando liguei para o capitão Neto, hoje tenente-coronel. Ele me disse: ¿cara, coloca a farda e vem para cá¿. Me apresentei às 14h e às 16h já fomos para a uma ocorrência na Água Verde. Uma família tinha saído de casa devido ao risco e um rapaz de 16 anos voltou para pegar algumas coisas quando a casa deslizou. Ainda conseguimos escutálo. Todos ajudavam retirando a lama com a mão ou com pás. Às 21h não o ouvíamos mais. Provavelmente já havia falecido. E à meia-noite ocorreu outro deslizamento ao lado de onde estávamos. Por muito pouco cerca de 30 bombeiros e voluntários não foram soterrados. Naquele momento suspendemos as operações de resgate e voltamos para o quartel para mapear e entender o que ocorria. Com o depoimento de todos os que estavam na rua percebemos o tamanho do fenômeno. Foi aí que eu tive a noção do estrago na nossa cidade.

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Outra situação marcante foi o que chamamos de resgate do Sesi. Estávamos voltando de uma missão de entrega de alimentos e recebemos a informação de que devíamos ir ao Morro do Baú para um resgate. Pousamos num campo de futebol e as pessoas saiam do meio do mato correndo, tentando entrar na aeronave. Todos horando, enlameados, há dois dias sem comer, trancados em um deslizamento com perigo de novo soterramento que poderia atingir mais de 150 pessoas. Nós conseguimos com oito aeronaves resgatar todos. Foi marcante chegar no Sesi e eles se darem conta de que estavam seguros, que havia comida, água e que poderiam se abraçar, chorar e comemorar que estavam vivos. Esse resgate vai ficar na minha memória para sempre.

O que tem sido feito pelos governos para evitar aquele tipo de situação que ocorreu em 2008?

A gente não consegue evitar as catástrofes naturais. A gente consegue diminuir os efeitos delas, preparar a população ou algo de infraestrutura. O governo do Estado, em parceria com a União, elevou as barragens de Taió e Ituporanga. A obra está pronta e vai reter 30% a mais de água. Isso pode diminuir em até um metro o nível do rio em Blumenau durante uma enchente. Outras sete barragens estão previstas, cinco delas em construção e devem ajudar bastante as cidades menores que não contavam com proteção. Melhoramos nossos diques. Também houve macrodrenagem, como a do ribeirão da Fortaleza. Ou seja, muita coisa tem sido feita para diminuir o impacto de um evento como aquele. Mas é claro, a gente prepara a população para que ela consiga lidar com esses efeitos. Isso é muito melhor que a surpresa que foi em 2008, quando nem a população e nem os órgãos de resgate estavam preparados.

O que foi feito para conscientizar a população e tentar prevenir esse tipo de ocorrência?

Nós temos preparado a população principalmente nas áreas mais suscetíveis. Na Rua Araranguá a gente fez um simulado grande e temos outros três núcleos já preparados. Colocamos os projetos Defesa Civil na Escola e Agente Mirim nessas áreas, o que muda a consciência das crianças e o ambiente onde elas vivem. Se cada criança conscientizar os pais para colocar calha, cobrir com vegetação o barranco atrás de casa, vai melhorar muito as condições dessas áreas de risco. E está melhorando. As pessoas hoje conhecem os sinais que surgem num possível deslizamento e sabem quando sair. Na tragédia do Japão (terremoto, 2011), de cada 10 pessoas que sobreviveram, oito haviam passado por treinamento. As outras duas foram ajudadas por quem foi treinado. O segredo em catástrofes rápidas, como os deslizamentos, é ser treinado. A população está mais atenta.

De que maneira a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) tem contribuído para esse trabalho de prevenção?

Nesse fato específico eles ajudam não só Blumenau, mas o Brasil inteiro. Não há no país uma classificação de risco uniforme. Então a Jica pegou  Blumenau, Petrópolis (RJ) e Nova Friburgo (RJ), cidades mais suscetíveis, para adaptar a sistema deles de avaliação e classificação de risco. No final do ano esse trabalho deve ser concluído. Alguma coisa já está sendo aplicada aqui na questão do mapeamento de classificação de risco. Pra que isso? Para que no Brasil inteiro a gente tenha os mesmos critérios e até seja mais fácil para o governo federal conseguir direcionar os recursos. Hoje, sem metodologia, em Blumenau classificamos algo com risco médio. Aí outra região classifica, equivocadamente, com risco alto e o dinheiro vai para onde não precisa.

É possível imaginar que Blumenau possa passar por uma situação semelhante a de 2008?

Sim, é possível. As pesquisas mostram que as ocorrências climáticas extremas estão cada vez mais intensas e frequentes. A geografia de Blumenau é suscetível a deslizamentos e enchentes. Por mais que o homem faça intervenção para tentar controlar a natureza, ela pode se mostrar mais forte e pode acontecer tudo de ovo. A diferença é que se o fenômeno de 2008 se repetir com a mesma intensidade, hoje estamos muito mais preparados e sofreremos muito menos. O que pode acontecer é um evento maior do que em 2008 e sofrermos mais. É possível? Sim, é possível. É provável? Não, não é provável que tenhamos no nosso tempo de vida algo maior que em 2008. O que aconteceu em 2008, estatisticamente, deveria acontecer em cem anos, mas pode acontecer ano que vem.


 
 

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