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Economia18/01/2017 | 08h02

Tradicional sebo de Blumenau expande loja e mostra o valor dos itens usados

Entre livros, discos e histórias, Book Center consolida novo espaço no Centro

Tradicional sebo de Blumenau expande loja e mostra o valor dos itens usados Mariana Furlan/Agencia RBS
Nova loja fica a poucos metros da antiga, na Rua 7 de Setembro. Foto: Mariana Furlan / Agencia RBS

Um rapaz na casa dos 30 anos entra em busca de um disco bem específico: do cantor austríaco Falco, que fez algum sucesso nos anos 1980, com uma música que fez parte da sua infância. Um outro rapaz está no mesmo corredor recheado de discos de vinil o orienta: “acho que vi algo dele ali naquela prateleira”.

Em um outro disco, uma anotação feita à caneta na parte de dentro da capa indica que aquela obra era um presente de uma garota ao namorado em um aniversário em 1987. Na primeira página de um livro, a dedicatória meio apagada diz a outro cliente que aquela era uma lembrança da primavera de 1983. Talvez o casal terminou ou talvez aquele livro acabou emprestado a outra pessoa, mas as memórias contidas ali estão marcadas no tempo. Hoje todos eles estão no mesmo espaço, essa casa de memórias e histórias que é um sebo.

Difícil encontrar um blumenauense que não conheça o Book Center, mais famoso e, atualmente, único sebo da cidade. Fundado como uma loja na Rua 7 de Setembro e expandido para outras três na Rua XV de Novembro, é o grande acervo de livros, revistas, gibis, discos de vinil, CDs e DVDs de Blumenau há 30 anos. A histórica loja da Rua 7, com seus dois andares e corredores apertados de prateleiras lotadas, deu lugar a um novo espaço, maior, logo ao lado do antigo imóvel, inaugurado no dia 12 de dezembro.

Das lojas da Rua XV sobrou só uma, que em breve também será encerrada e terá o estoque unido à nova loja principal. Mas achou que as unidades fechando são uma notícia ruim? A ideia é justamente o contrário: um novo espaço maior e com todo o acervo centralizado e organizado, no coração da cidade e com uma fachada que chama a atenção de quem passa na rua.

Eu estava há 30 anos na loja aqui ao lado, é uma vida. Mas não dava mais para administrar tantas unidades, se eu ficasse atrofiado no espaço antigo eu ia me aposentar lá dentro. Eu tive coragem de fazer, quis mudar e expandir. Não fechei as outras unidades pela crise. Antes nós tínhamos oito metros de fachada, hoje temos 32 — conta o fundador do Book Center, Nilto José da Silva, apaixonado pelo negócio que comanda desde jovem e na adrenalina de quem passou por uma mudança drástica de espaço em um mês.

Aos 55 anos, Nilto ainda é o responsável pela movimentação do Book Center. Viaja com frequência a Curitiba e São Paulo em busca de produtos para vender em Blumenau. Na insistência e sempre atrás de mais itens para a loja, viu muitos sebos decaindo e fechando, enquanto o seu prosperava contra as expectativas de quem o viu começar:

— Começamos há 30 anos sem o crédito das pessoas. Ninguém achava que vender coisas usadas ia dar certo aqui. Pais entravam com crianças e não deixavam elas tocar em nada, achavam que iam pegar alguma doença. Hoje essas crianças são adultos que vêm aqui com os seus filhos. Nem o meu pai achava que ia dar certo no início, eu comecei colocando tudo que dava. Tudo que me davam em consignação eu botava pra vender, tinha vassoura, cinto, queijo, linguiça, roupa... — relembra.



CLIENTES QUE VIRAM AMIGOS

Nas primeiras semanas após inaugurar a nova loja, o clima é como se vários amigos se encontrassem para prestigiar algo que amam. Clientes de longa data entram e parabenizam Nilto pelo novo espaço, elogiam como tudo ficou mais limpo, organizado e espaçoso, e aproveitam para procurar algum livro.

— O que me deixou mais feliz com a inauguração foi a energia positiva dos clientes. A impressão que dá é de que a loja é deles, de tão felizes que ficaram. Não são mais clientes, são amigos mesmo — conta o proprietário.

Um desses casos de pessoas que se sentem em casa no Book Center é o de Jorge Holetz, cinéfilo que passa horas entre os corredores de filmes e livros em busca de novidades para a coleção. Filho de Herbert Holetz, o maior incentivador do cinema em Blumenau, Jorge tem cerca de 2 mil filmes em sua coleção, boa parte adquirida no sebo.

Já fui um cliente diário quando trabalhava perto, hoje venho aqui uma vez por semana. Por mais que eu procure, como tem muita rotatividade, sempre tem algo que não tenho ainda. É uma diversão, encontro filmes que já não estão mais em distribuidoras, coisas que eu sei que não se acha mais — conta o colecionador, equilibrando nas mãos alguns DVDs encontrados no garimpo pelo sebo.

Mais que compradores e amigos, quem frequenta o Book Center se torna parte dele, como o próprio dono reconhece. Clientes como Jorge ajudam a organizar a loja conforme vasculham pelas prateleiras. Conhecedores das obras, se encontram algo fora do lugar aproveitam para arrumar a estante ou fazer indicações a outros compradores em busca de alguma preciosidade.

Como no caso que abre esta matéria, o rapaz que indica a prateleira de discos de vinil a um comprador em busca de memórias é Anderson Loof, DJ e apaixonado por discos de vinil que tem passado boa parte do tempo conhecendo as novidades e raridades do novo sebo.

Natural de Maringá e em Blumenau há quatro anos, Loof vê no Book Center um ponto de referência da região e de uma economia de reciclagem que está em alta. Explorador dos bons sons, trouxe para o garimpo do dia no Book Center até uma vitrola portátil, que ligou em um canto abaixo das prateleiras para ouvir os discos que encontrava.

— Ficou bem melhor aqui agora, a loja antiga era apertada, nem dava para ficar muito tempo. Dá para achar bastante coisa boa aqui.

E é bem nos discos de vinil que mora um dos propulsores dos sebos atualmente. Em plena era dos serviços de streaming como Spotify e de mídias como CD praticamente enterradas, os bolachões voltaram a ser, percentualmente, o produto da música que mais cresce em vendas no mundo inteiro a cada ano. Além dos lançamentos, o mercado dos discos usados também está aquecido, em LPs que há alguns anos eram vendidos por mixarias e hoje custam, no mínimo, R$ 20.

— Sentimos muito a volta do vinil aqui. Hoje em dia é um dos carros-chefe da loja, tem gente que vem e sai com um carrinho cheio de discos — afirma Nilto.



PARCERIAS COM ESCOLAS E LIVROS
      QUE FICAM EM BLUMENAU


O Book Center é um fornecedor de livros para a rede de ensino de várias cidades, mas com a nova estrutura o objetivo do dono é levar ainda mais os estudantes para o ambiente do sebo. Nilto conta que o espaço já era parada de vários passeios de escola, mas a nova loja está melhor preparada para receber os grupos.

Para incentivar, ele está propondo uma parceria: quando uma escola trouxer uma turma ao sebo, uma porcentagem do que os alunos e professores comprarem na loja será revertido em doações de livros para a biblioteca da escola.

A proposta vai ao encontro de outro objetivo claro do fundador do Book Center: manter os livros em Blumenau. É assim que ele justifica o fato de negar qualquer pedido de vendas pela internet:

— Eu trago carretas de livros para Blumenau, se eu vender pela internet eu tiro eles daqui. Vendo lá para outro Estado e ele não volta. Eu quero deixar o melhor produto para o cliente aqui na minha porta.

 

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