Daniela Matthes: "Mais amor, por favor" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião06/02/2017 | 08h02

Daniela Matthes: "Mais amor, por favor"

 

Quinta-feira, dois de fevereiro de dois mil e dezessete, o dia em que, espero, alcançamos o fundo do poço. Diante dos recentes episódios da vida real — nem o roteirista mais criativo seria capaz de imaginar tal trama — nutro medo pelo futuro. De toda forma, prefiro, polianamente, crer que chegamos ao grau máximo da nossa podridão coletiva.

A crise mais grave enfrentada não é financeira. Tampouco política. Para estas parece haver saída. Os comentários sarcásticos e comemorativos sobre o então estado grave e irreversível de Dona Marisa federam como nossas próprias vísceras colocadas sobre a mesa. O mau cheiro piorou e seguiu pelo fim de semana. Resta saber se para estes casos de deterioração aguda da alma há remédio. As duas primeiras crises têm solução mais fácil. É possível devolver humanidade a um humano? O vírus que tem espalhado ódio e paixão política em quantidades equivalentes, cegou aos milhares (milhões?), espalhou-se como erva daninha. Tocamos na água do poço: perdemos a capacidade de empatia.

Desejar a morte de alguém — independente de quem seja— ou mesmo comemorá-la nos torna menos humanos. A habilidade de imaginar-se no lugar do outro e senso de comunidade nos conecta. Estaríamos regredindo, dispensando o córtex e usando o dedo opositor da pior forma possível? Escondidos atrás da tela de um computador ou celular, deixam rastros de irracionais os que comemoram a morte de Dona Marisa Letícia. Esquecem que ela também foi humana, esposa, avó, mãe, filha, amiga. Ignoram o fim comum. Sentem-se superiores ao esquecer que a morte está sempre à espreita de quem está vivo. Está aqui ao meu lado enquanto escrevo. E ao seu, que agora lê.

O historiador Leandro Karnal bem resume: "A divergência política e o contraditório são excelentes para a democracia. Todo choque tem algumas barreiras. Uma é a ética: divergir não implica atacar. Outra, muito importante, é a morte. Nada existe além dela. Extinguem-se as animosidades. Termina o ódio no túmulo. Atacar ou ter felicidade pela morte de um ser humano é uma prova absoluta de que a dor e o ressentimento podem enlouquecer alguém. Se você sente felicidade pela morte de um inimigo, guarde para si. Trazer à tona torna pública sua fraqueza, sua desumanidade.
Acima de tudo, mostra que este inimigo tinha razão ao dizer que você era desequilibrado. Contestem, debatam, critiquem: mas enderecem tudo isto a quem possa revidar. Por enquanto temos apenas um homem que perdeu sua companheira, filhos órfãos e netos sem a avó. Entre os vivos, surgem divergências e debates. Diante da morte, impõe-se silêncio e respeito. Nunca deixem de ser, ou ao menos, tentar parecer, um ser humano. Quando você não tiver uma palavra de conforto para quem perdeu a mãe ou a esposa, simplesmente, cale a boca.
"

Divergências, incluindo as políticas, não devem gerar inimigos. A foto do abraço fraterno entre Fernando Henrique Cardoso e Lula prova isso. É preciso repetir o clichê à exaustão: mais amor, por favor. É possível devolver humanidade a um humano? O vírus que tem espalhado ódio e paixão política em quantidades equivalentes, cegou aos milhares (milhões?), espalhou-se como erva daninha.

JORNAL DE SANTA CATARINA - Blumenau

 
 

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