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Operação Carne Fraca21/03/2017 | 07h32

Começa a busca por evidências de irregularidades em empresa de Jaraguá do Sul

Auditoria na Peccin Agro Industrial vai examinar processo de produção de embutidos. Análise sai em até 20 dias

Começa a busca por evidências de irregularidades em empresa de Jaraguá do Sul Salmo Duarte/Agencia RBS
Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

Iniciou-se nesta segunda-feira a auditoria na empresa Peccin Agro Industrial, no bairro Santa Luzia, em Jaraguá do Sul. Pelo menos três auditores do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) compareceram ao local para verificar as possíveis irregularidades na fabricação de salsichas, presuntos e linguiças – produtos fabricados pela empresa no local.

De acordo com Jacir Massi, superintendente federal do Mapa em SC, a empresa foi interditada na sexta-feira, após denúncias recebidas pela Polícia Federal (PF). Conforme o superintendente, a suspeita é de que ingredientes indevidos estariam sendo misturados aos embutidos durante a fabricação. A auditoria do órgão busca apurar indícios que comprovem ou não as denúncias recebidas pela PF.

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– Vamos realizar uma auditoria dentro do estabelecimento com o objetivo de examinar o processo de produção dos embutidos. Desta forma, esperamos verificar se existem possíveis irregularidades na fabricação – comenta.

Ainda de acordo com o superintende do Mapa, a auditoria será feita por dois auditores fiscais federais e um técnico de fiscalização federal (agente de inspeção). Eles irão efetuar uma varredura no prédio durante dois dias. Será feita uma análise minuciosa dos documentos da empresa frigorífica e a coleta de materiais produzidos no local para análise. Essas amostras (desde matéria-prima, insumos e produto final) serão encaminhadas ao Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

– A auditoria do Mapa será efetuada desde a matéria-prima utilizada na fabricação destes produtos até o processo de embalagem e expedição do material. A finalidade é identificar se houve algum desvio no padrão de qualidade exigido pelo ministério – conta.

O resultado da análise deve ficar pronto num prazo de 15 a 20 dias.

– Há na denúncia à Polícia Federal um relato da utilização indevida de ácido ascórbico (utilizado como conservante alimentar) nos produtos, por exemplo. Somente com o diagnóstico dessas amostras é que poderemos confirmar se essa situação aconteceu neste estabelecimento – argumenta.

O superintendente ressalta que a empresa foi interditada de forma cautelar. Segundo ele, são várias irregularidades que constam na denúncia, mas ainda não há confirmação de que a Peccin tenha adulterado os seus produtos. Somente após o resultado da auditoria é que a investigação vai poder apontar se a empresa utilizou produtos de origem duvidosa na fabricação dos embutidos.

Durante a ação da Polícia Federal, o diretor da empresa frigorífica de Jaraguá do Sul, Normélio Peccin Filho, foi detido preventivamente e encaminhado ao Presídio Regional de Joinville. Conforme a assessoria do Departamento de Administração Prisional (Deap), ele será transferido à Superintendência Regional da PF, no Paraná, nos próximos dias. A reportagem tentou contato com a empresa, que informou que não irá se pronunciar.

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Empresa produz embutidos para várias marcas do mercado interno

Os portões fechados e a falta de movimento na Peccin não denotam que cerca de 80 profissionais trabalhem no local. Os funcionários se dividem entre os turnos da manhã, tarde e noite. A empresa, considerada pelo Mapa como de pequeno a médio porte, fabrica salsichas e presuntos que são termoprocessados e linguiças frescais – aquelas utilizadas em churrascos.

Uma funcionária da linha de empacotamento, que não quis ter seu nome revelado, conta que jamais imaginou que uma situação dessa gravidade pudesse acontecer dentro do seu ambiente de trabalho.

– Eu estou na fábrica há quase dois anos e nunca vi nada de anormal enquanto eu estava trabalhando. As carnes sempre vinham congeladas para o empacotamento e não pareciam ter qualquer alteração. Na sexta-feira (durante a ação da PF), nós continuamos a trabalhar normalmente com os policiais averiguavam cada passo nosso – conta.

A colaboradora relembra que os colegas do seu setor ainda brincaram no dia, quando viram a Polícia Federal entrar na seção. A surpresa entre a equipe de empacotadores era generalizada, segundo ela.

– Quando a polícia chegou, meus colegas ainda caçoaram: “Alguém esqueceu de pagar a pensão dos seus filhos?”. Nós nunca iríamos supor que se tratava de uma denúncia de adulteração dos produtos que nós ajudamos a fabricar – lamenta.
 
Ainda abalada com a situação, os olhos marejados da mulher mostravam uma mistura de desânimo e frustração. A empresa ainda não havia se pronunciado oficialmente perante os colaboradores. Mas a pior situação que ela imagina é perder este emprego que ajuda a manter as três filhas e uma neta.

– Eu vou defender o meu local de trabalho até o momento que essa investigação esteja concluída e a empresa seja declarada culpada, mas até isso acontecer eu acredito que essas acusações não são verdadeiras – conclui ela.

Um funcionário da linha de produção, que não quis se identificar, também espera que o frigorífico resolva logo a situação. Ele soube sobre o ocorrido pelos jornais. Conforme ele, a empresa ainda não explicou nada para os trabalhadores. Ele é morador do bairro Santa Luzia e ressalta que são poucos os locais para trabalhar na região.

– Essa região sobrevive mais da agricultura. Fábrica para trabalhar é a Peccin. Eu espero que ela não feche, porque eu preciso deste emprego – conclui.

Ainda de acordo com o superintendente do Mapa, Jair Massi, o Frigorífico Peccin recebe matéria-prima para a produção dos seus produtos de outros frigoríficos e abatedouros. Como e de quem compra este material é um processo interno e elaborado pela própria indústria. A empresa fabrica embutidos para várias marcas do mercado interno. Dados fornecidos por Massi revelam que em dois meses foram processados mais de 22 mil toneladas de alimentos na indústria. Aproximadamente 11 mil toneladas por mês.

– Eles produzem para algumas marcas que não têm planta processadora. Essas empresas terceirizam com a Peccin a fabricação dos alimentos – completa Massi.

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Surpresa para os moradores

Os moradores da rua Erminio Nicolini, onde está situada a empresa, ainda estão surpresos com a movimentação da Polícia Federal ocorrida na sexta-feira. Uma vizinha, que não quis se identificar, esclarece que desde que a empresa começou a funcionar, há cerca de dois anos, gerou muitos empregos na região.

Segundo ela, algumas pessoas que trabalham no local vieram de outras partes do Estado e até do Paraná. Essa situação acaba movimentando a economia local, conforme a moradora. Ela também conta que nunca suspeitou que no local pudesse ser adulterado algum produto e não consegue acreditar que isso possa ter acontecido tão próximo ao seu quintal.

– Eu e meu marido ficamos admirados com a notícia. Sempre tem muito movimento de caminhões saindo com os produtos do frigorífico, mas desde a sexta-feira que não vemos mais os veículos saindo do lugar – comenta.

Uma moradora da rua Rosa Lorrenzzetti, que fica atrás do galpão da empresa, conta que tem muitos colegas que trabalham no local. Ela também comenta que há cerca de dois meses os moradores começaram a sentir um cheiro de carne podre vindo do frigorífico. Conforme a moradora, este odor aconteceu depois que a empresa mexeu em uma lagoa onde são colocados os dejetos da produção. Mas, para ela, este problema não tem nenhuma relação com a investigação da PF, até porque o problema já foi solucionado.




O QUE É A PECCIN

Nota publicada no site da empresa no dia 18 de março:

A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. vem a público comunicar, em razão da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, realizada ontem, dia 17 de março, sua grande surpresa, consternação e forte repúdio às falsas alegações que culminaram com a prisão preventiva de seus diretores, esclarecendo o seguinte:

1. A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. tem amplo interesse em contribuir com as investigações, em busca da verdade, estando inteiramente à disposição das autoridades policiais para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários;

2. A PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. declara que está confiante de que os órgãos competentes saberão discernir a efetiva veracidade dos fatos que ora se alegam. Ainda, conclama pela paciência e serenidade da sociedade para o esclarecimento dos fatos verdadeiros;

3. Por isso a PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. lamenta a divulgação precipitada de inverdades sobre o seu sistema de produção, sendo que as informações repassadas ao grande público foram no afã de justificar os motivos da Operação Carne Fraca, modificando os fatos e comprometendo a verdade.

4. Por fim, a PECCIN AGRO INDUSTRIAL LTDA. esclarece que que não tem qualquer vínculo comercial ou societário com a Peccin S/A, indústria gaúcha de doces e chocolates.


O QUE É A OPERAÇÃO

A Operação Carne Fraca, deflagrada na sexta-feira em Santa Catarina
e mais seis Estados do País, busca desmantelar uma organização criminosa que receberia propinas pagas por executivos ou diretores de empresas do agronegócio para aliviar a fiscalização sanitária dos produtos. Isso resultava em produtos alimentícios adulterados, impróprios para o consumo humano, circulando nos mercados interno e externo. A organização seria liderada por fiscais que ocupam cargos de chefia e administração da superintendência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) no Paraná.

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