Daniela Matthes: "A indústria tratou de crescer criando necessidades e soluções para a nossa vida escassa de tempo (será mesmo?)" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião20/03/2017 | 07h56

Daniela Matthes: "A indústria tratou de crescer criando necessidades e soluções para a nossa vida escassa de tempo (será mesmo?)"

 
A Polícia Federal alardeou o que muita gente já vinha tentando dizer: quando abrimos um pacote, nós não sabemos o que vamos comer. Por mais que a embalagem diga que se trata de carne, a verdade é que ali há bem mais do que isso. Ou menos, no caso de produtos analisados em que a proteína animal sequer foi encontrada.

A verdade é que tudo acontece com a nossa anuência. Nos acostumamos a consumir sem questionar. A indústria tratou de crescer criando necessidades e respectivas soluções para a nossa vida escassa de tempo (será mesmo?). Aceitamos bovinamente. O questionamento, quando muito, é sobre o preço e a quantidade de calorias. Isso vale para quase tudo o que vem embalado e pré-pronto.

Xarope de glicose, cereais (42%) [flocos de cereais (farinhas de arroz, milho, trigo rica com ferro e ácido fólico, cevada e aveia, açúcar, extrato de malte, polidextrose, sal, antiumectante carbonato de cálcio ins170i e estabilizante fosfato dissódico ins339ii) e aveia], mel (3%), açúcar mascavo, gordura de palma, açúcar invertido, polpa de banana, óleo de milho, antioxidante lecitina de soja ins322, corantes caramelo ins150d e betacaroteno ins160ai e aromatizante. Isso é o que provavelmente muitas crianças comem durante o lanche na escola. Está numa embalagem bonita, em que consta: barra de cereais de aveia, banana e mel. O primeiro ingrediente listado é sempre o que está presente em maior quantidade. A barra de cereal está cheia de xarope de glicose, um tipo de adoçante proveniente do milho associado à obesidade e diabetes. Um alimento vendido como saudável é, na verdade, o inverso disso. Pensar na comida olhando apenas o produto final é válido, mas não suficiente.

No caso específico da carne, trata-se de uma cadeia multimilionária com players globais. Com investimento pesado na última década no setor, o Brasil alcançou o topo de ranking dos exportadores de frango. Em produção, só perde para os Estados Unidos. A operação da PF coloca em xeque boa parte da carne consumida em todo o mundo. O Paraná, local de concentração da operação Carne Fraca, é o maior criador de frango do país. Agora está claro que parte dessa indústria não é honesta também com o consumidor.

Os integrados – produtores de porte reduzido que criam o frango com contrato de venda para as indústrias – já sabem disso há pelo menos 40 anos. Eles são a ponta fraca do negócio e têm de aceitar as condições variáveis das empresas. Os animais são criados aos milhares, com poucos centímetros para viver, em plantéis com ciclos de vida de 40 dias em que nunca viram chuva ou sol. Tanto na apanha (quando os animais são colocados nos caminhões) quanto nos frigoríficos pipocam denúncias do Ministério Público do Trabalho por condições precárias e até trabalho análogo à escravidão. As indústrias garantem atender critérios internacionais de bem-estar animal e de abate humanitário, bem como as recomendações sobre as condições de seus funcionários. Só no ano passado é que os integrados ganharam uma lei que rege o sistema de integração, que inclui tópicos óbvios – ainda que necessários – como o contrato de prestação de serviço ser claro. Nós, consumidores, precisamos observar além do que indica a balança antes de comprar. O que esconde o peso da carne? A faca também está na nossa mão.

JORNAL DE SANTA CATARINA - Blumenau

 
 

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