Desafio e série alertam para a prevenção de suicídios em SC - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Comportamento20/04/2017 | 10h44Atualizada em 20/04/2017 | 12h52

Desafio e série alertam para a prevenção de suicídios em SC

Em Santa Catarina, foram registradas 39 mortes por suicídio de jovens entre 10 e 19 anos em 2016, 14% a mais do que no ano anterior

Desafio e série alertam para a prevenção de suicídios em SC Marco Favero/Agencia RBS
Foto: Marco Favero / Agencia RBS

A partir do início de abril, voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV) começaram a notar um crescimento acentuado na quantidade de contatos com pedidos de informação e ajuda. Os e-mails diários mais do que quintuplicaram, passando de uma média de 55 para 300. Os acessos ao site saltaram de 2,5 mil ao dia para 6,7 mil. Os telefones tocaram sem parar, muitos deles acionados por adolescentes às voltas com sintomas depressivos e pensamentos suicidas. 

Dois fenômenos recentes relacionados ao tema suicídio reacenderam discussões sobre o tema e puseram pais e profissionais de saúde em alerta. Um deles é a série 13 Reasons Why, que estreou em 31 de março na Netflix e, segundo o CVV foi citada por vários jovens como gatilho para as recentes ligações. O outro é o Jogo da Baleia Azul, que está se espraiando mundo afora pelas redes sociais. Especula-se que mais de uma centena de suicídios na Rússia e até alguns casos no Brasil tenham ligação com a brincadeira macabra, uma espécie de gincana com tarefas a serem cumpridas ao longo de 50 dias, que termina quando o desafio é atentar contra a própria vida.

Foto: Beth Dubber / Netflix,Divulgação

Em apenas duas semanas, o espinhoso assunto virou pauta de conversa nos consultórios, na escola, no café, na sala de jantar, nas redes sociais. Por um lado, essa repercussão teve um efeito que especialistas consideram positivo: chamou a atenção para um problema extremamente sério e que com frequência passa despercebido, abrindo caminho para que as pessoas estejam atentas a sinais de risco e que busquem auxílio. Por outro lado, causa preocupação a forma como a temática tem chegado a um público tão vulnerável como crianças e adolescentes.

A polícia ainda não prendeu ninguém relacionado ao jogo e tampouco pode associar com certeza os últimos registros de casos com algum dos dois episódios. O certo é que o tema preocupa autoridades públicas antes mesmo da discussão voltar à tona.

90% dos casos estão ligados a transtornos psicológicos

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) tirar a própria vida é a segunda principal causa da morte em todo mundo para pessoas de 15 a 29 anos de idade. Segundo dados divulgados pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive-SC), 39 crianças e adolescentes com idades entre 10 e 19 anos se suicidaram no Estado em 2016, um aumento de 14% comparado com 2015. Outros 501 tentaram, quase 20% a mais do que no ano anterior. 

Assim como nas demais faixas etárias, nove entre 10 suicídios podem ser evitados pois estão relacionados a transtornos psicológicos. O que evidencia a importância de estar atento aos sinais e procurar ajuda profissional a tempo para aumentar as chances de recuperação.

De acordo com o psiquiatra Ricardo Nogueira, a prevalência da depressão e do suicídio está relacionada a adolescentes cada vez mais desprotegidos e vulneráveis, em grande parte devido à falta de estrutura familiar:

— Outro dia, atendemos um menino de oito anos que estava tentando se matar porque ninguém dava atenção pra ele, ninguém conversava com ele. Os adolescentes são vítimas de perda, de abandono e de rejeição. Eles estão atirados. Os pais ignoram, não veem, não falam com os filhos. Isso acontece na classe média, na classe média alta. Se esses jovens não têm pai e não têm mãe, quem é que eles procuram? Eles vão para a internet, e lá encontram sites de suicídio, anorexia, bulimia. Temos de parar e questionar: por que as crianças estão se matando? Os casos que chegam às clínicas costumam repetir certos padrões.

Especialistas criticam forma como assunto é tratado na obra de ficção

Psiquiatras e especialistas no tema dizem que a série e o jogo trazem o tema à tona de formas diferentes. Em 13 Reasons Why, a personagem principal Hannah Baker, uma estudante de ensino médio, tira a própria vida, mas antes deixa um conjunto de gravações em fitas cassete nas quais aponta as motivações que a teriam levado ao suicídio: bullying, violação da privacidade, assédio, incompreensão, estupro. 

A série da Netflix é vista de forma negativa e pouco construtiva por especialistas. O enredo mobilizou psiquiatras e psicólogos, muitos dos quais atiraram-se a maratonas madrugada adentro para terminar os 13 episódios e avaliar que tipo de impacto a peça de ficção poderia ter sobre os pacientes. Embora vejam o aumento da procura por ajuda a partir da série como ponto positivo, criticam a forma como o assunto é abordado no seriado e temem que isso possa encorajar comportamentos parecidos.

— Estou acompanhando as repercussões com certa apreensão, mas, ao mesmo tempo, com uma expectativa positiva. Temos aconselhado aos pais que assistam também, que conversem, que deixem os filhos à vontade para falar sobre aquilo que a série desperta neles. Esse é a boa expectativa, a oportunidade de conversarmos sobre isso — afirma o psiquiatra Neury José Botega, professor da Unicamp e autor de livros como Crise Suicida: Avaliação e Manejo e Comportamento Suicida.

— Por outro lado, sou crítico a características do seriado. Está em todos os manuais de prevenção não transformar a pessoa que se mata em herói e não mostrar detalhes do método. São princípios não cumpridos pela série.

Recomendação é que pais monitorem os filhos

Para a psiquiatra Lilian Lucas, presidente da Associação Catarinense de Psiquiatria, 13 Reasons Why  é um exemplo recente da abordagem inadequada da temática, com a romantização do ato suicida. Ela recomenda que, caso os pais percebam que seus filhos já tenham sintomas de depressão, não permitam que assistam à série, já que isso pode afetar a saúde mental.

— Têm aparecido diariamente nos consultórios pais preocupados ou jovens, já em situação de risco, que pioraram. A recomendação é que os pais observem em que sites os filhos entram, monitorem suas atividades, isso é um dever dos pais.

Diante da polêmica, o Netflix afirmou ter tratado o assunto com o máximo cuidado, recorrendo à consultoria de especialistas durante a produção. Também ressaltou que, ao final do último episódio, há um documentário de 30 minutos sobre o tema. Nele, o desenvolvedor do programa, Brian Yorkey, afirma que se trabalhou duro para que as imagens da morte de Hannah não fossem gratuitas: "Queríamos que fosse difícil de ver, para ficar claro que não há nada que valha a pena (no suicídio)".

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