Fabrício Cardoso: "Banho de cachoeira ativa o mecanismo de recompensa do cérebro" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Crônica18/04/2017 | 07h01

Fabrício Cardoso: "Banho de cachoeira ativa o mecanismo de recompensa do cérebro"

 

Há uma queda d’água nos confins de Goiás cuja literalidade do nome só vim a perceber depois de passar por uma experiência pessoal dramática. Chama-se Cachoeira do Desengano. Fica a 60 quilômetros por estrada de terra do povoado mais próximo. Quem gosta mais do carro do que de si não deve jamais ir lá.

Nesta tal cachoeira, estive desenganado por eternos 20 minutos, agora, na Sexta-Feira Santa. Neste dia de reflexão para os cristãos, tive consciência do meu desequilíbrio físico e emocional. Delgado como a cintura do editor desta página, o Pedro Machado, o rio da Cachoeira do Desengano corre numa região levemente acidentada, ladeado pela mata sobrevivente no Cerrado. A margem pedregosa parece uma escadaria feita por algum arquiteto com dislexia. É por ali que se acessa a refrescante queda d’água.

O último degrau natural pedra abaixo fica mais ou menos na altura do queixo para um sujeito de 1,80 metro. Nem a Ana Hickmann dispõe de perna o suficiente para firmar o passo derradeiro antes do rio. É preciso saltar.

Copiei a técnica da Mônica e dos meninos, que se iam à frente: sentei à beira do último degrau, dei um leve impulso com as palmas das mãos e amorteci a queda com os pés. Banho de cachoeira ativa o mecanismo de recompensa do cérebro, feito um narcótico. Até porque o sujeito passa tanto trabalho no trajeto que fica praticamente obrigado a conferir propriedades quase transcendentais ao mergulho gelado. Assim foi conosco, num transe que durou perto de duas horas.

Quando a temperatura fora da água se assemelhou à de Vênus, entramos num dilema familiar: murchar imerso, arder sob o sol inclemente do Centro-Oeste ou ir embora. Optamos pela terceira alternativa.

O problema é que o primeiro obstáculo pedregoso da volta, se vocês estão lembrados, fica na altura do queixo de um sujeito de 1,80 metro. Leves, a Mônica e os meninos certamente teriam impulsão para escalar por si mesmos. Mas como sou homem paternal e de pretensões cavalheirescas, ofereci-me para erguê-los. Cumprida a tarefa, me vi sozinho na garganta da cachoeira.

Tentei um pulinho. Não deu. Tentei mais cinco. Fracassei. Inspecionei reentrâncias na rocha. Nada. Não havia dúvida: eu estava entalado na boca da cachoeira.

Tendo a família como plateia do meu desespero, sai andando pela margem do rio. O terreno era tão irregular que senti tendões, cartilagens e músculos compenetrados no equilíbrio, depois de uma inércia de 43 anos. A lágrima prestes a despencar não me impediu de avistar uma árvore com raiz opulenta, onde me agarrei com a sofreguidão de um náufrago a uma boia. Fui-me arrastando pedra acima, em movimentos miseravelmente sabotados pelo musgo. Uma sinfonia de gemidos depois, o que restou de mim chegara finalmente ao nível onde já estavam a Mônica e os meninos.

Na trilha da mata até eles, uma constatação terminou de arruinar minha reputação. Havia dezenas de latas de cerveja jogadas na vegetação. Bêbados fazem, bebericando, o que eu acabara de fazer na iminência de uma convulsão nervosa.

Por que se bebe num lugar ermo cuja beleza embriaga é tema para outra conversa. O que me aturde é saber que sou integralmente mais desequilibrado do que os porcalhões da Cachoeira do Desengano.

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