Daniela Matthes: "Várias em uma" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião19/06/2017 | 07h31

Daniela Matthes: "Várias em uma"

 

Não há nada de novo neste assunto, convenhamos, paciente leitor. Caso queira desistir, há tempo, aviso logo. Poderia falar da sutileza das capivaras pastando às margens do Itajaí-Açu, da falta de bancos numa cidade que não tem tempo para contemplação, dos postes enraizados no meio das calçadas. A verdade é que ainda (me) surpreende como Blumenau é capaz de ser várias numa só. Apenas algumas dessas cidades são vistas ou colocadas na vitrine das conveniências. Não é novidade, avisei. Parece que a cada dia as cisões vincam ainda mais. A paisagem colabora com parte de nossas desigualdades. Os morros próximos tratam de esconder o que não é oportuno (para quem?) mostrar.

Há algum tempo abri mão das vivências da reportagem, como já foi possível saber por aqui. Mais que o dia a dia na redação — jornalista adora estar entre semelhantes — é das oportunidades de ir até essas diversas cidades que sinto falta. Quando posso, volto às raízes de observar o lugar onde nasci com olhos estrangeiros. É o jeito de notar nossas nuances indigestas. Perceber o que gostaríamos que não existisse. Assim tratam de maquiar a loira.

É nessas cidades dentro da cidade que a vida acontece. Uma vida que não tem muito tempo para além do fundamental, talvez por isso o poder público venha conseguindo manter um transporte coletivo tão ruim por tanto tempo. Para essas cidades, tanto faz se a Rua XV fica aberta ou fechada aos domingos. Elas só chegam ao Centro quando precisam pagar alguma conta, ou nem isso. A vida no bairro é autossuficiente dentro da insuficiência de quem deveria garantir o básico. Para essas pessoas tanto faz agora multarem por câmera, se a velocidade na Beira-Rio mudou para mais ou menos, se a obra da Margem Esquerda ficou ou não pronta. Se a nova ponte no Centro sai ou não.

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Nessas outras cidades importa é se o médico olha no olho durante a consulta no posto de saúde e se dá valor à dor do paciente para além da virose. Se a vez na fila para a cirurgia vai chegar antes do próprio fim. Se vai poder fazer o exame de sangue em menos de três meses ou se a vaga na fisioterapia chega antes de o joelho ficar ajeitado sozinho. Para os moradores dessa Blumenau é indiferente se as árvores do Ramiro Ruediger ainda não fazem sombra. Mas importa que o parquinho das crianças num condomínio criado pela própria prefeitura esteja inutilizável por falta de manutenção e o campinho de futebol, única opção para os pequenos, seja de terra batida com traves caindo. Nessa Blumenau a única operação que chega é da polícia.

Não me acuse da repetição. Avisei que o assunto não é novo. Vem desde sempre, mas com alguns marcos, é verdade. O Itajaí-Açu foi testemunha da favela formada nos idos de 1940 pelos trabalhadores da estrada de ferro, que se ajeitaram onde puderam: ao lado da Ponte de Ferro, maculando a imagem tratada a água oxigenada. Essa população foi colocada atrás de um morro, onde hoje o IBGE classifica como aglomerado subnormal. Blumenau é várias em uma desde sempre e, ao que parece, não vai deixar de ser.

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