Fabrício Cardoso: A lógica do próprio umbigo - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião12/06/2017 | 19h40Atualizada em 12/06/2017 | 19h40

Fabrício Cardoso: A lógica do próprio umbigo

"Nunca estivemos tão entretidos com o próprio umbigo"

A gravidade na Terra é de 9,8 metros por segundo ao quadrado, mas, a partir de experiências epidérmicas, deduzo haver lugares onde o sol amplifica esta força. Isto porque os raios mais inclementes exercem pressão sobre a pele. Falta-me a sagacidade de um Isaac Newton para comprovar a tese. Recorro tão somente à confiança injustificada de todos para afirmar: o calor pesa.

Não falo do bafo úmido emanado da Mata Atlântica em nossos janeiros. Aquilo é uma inocente oscilação térmica comparada ao clima fumegante de outros recantos Brasil afora.

Estava em Palmas, no Tocantins, cidade em que o sol exerce opressão existencial semelhante ao da neve nos países frios. As pessoas só saem para a rua quando muito necessário, sempre se deslocando rapidamente até o próximo refúgio climatizado.Caminhava a passos largos, fugindo da insolência solar, mas não tão rápido que me impedisse de captar frases soltas no ambiente incandescente. Até porque, se acelerasse o ritmo, correria o risco de desfalecer sobre as empoeiradas avenidas da mais jovem capital do País, sendo encontrado cozido uns 30 minutos depois.

Bem, a frase vinha de um grupo de operários, de macacão e capacete, cujos corpos cansados estavam arriados sobre um gramado amarelado e crocante. Quando a chuva desaparece por mais de cem dias, o mundo vira um lugar bem estranho. Dizia um deles:

— Já são 13h e o engenheiro não vem...

Não havia indignação, estava quente demais para exaltações maiores. O calor gera prostração. A lamúria expressava apenas certa resignação com o papel confiado aos trabalhadores de menor qualificação, sempre submetidos a decisões oriundas de gabinetes confortáveis, protegidos das esquizofrenias climáticas de uma terra tropical.

Arrastei-me pelos quarteirões restantes com uma raiva fermentando contra o engenheiro que não conheço e certamente jamais conhecerei. Talvez seja aquele componente psicanalítico, que nos faz odiar no outro aquilo que não toleramos em nós mesmos. Quantas vezes, por dispersão pequeno-burguesa, atrasei o jornal e obriguei o entregador a esticar jornadas madrugada adentro, desnecessariamente? Se resolver meter este dado numa estatística, certamente mergulharei em depressão.

O engenheiro pouco afeito à pontualidade no Tocantins é a metonímia do nosso tempo. Nunca estivemos tão entretidos com o próprio umbigo. Julgamos, de forma sumária, o outro a partir da nossa experiência, não importa quanto singular e irreproduzível ela possa ser.

A reforma da Previdência, por exemplo. Lembro do texto cretino parido por um jornalista, estranhando por que as pessoas estavam tão preocupadas com a aposentadoria. Porque, na órbita fétida ao redor do buraco de sua barriga, trabalhar até os 80 anos é um exercício de prazer, que empresta sentido à vida.

Tive ímpeto de apresentá-lo ao bravo homem que, em três dias, cavou o buraco da minha piscina ali na Itoupava Norte. Tenho severas dúvidas se o escavador tem disposição e tônus muscular para trabalhar até a velhice, indiferente à aposentadoria.

Há uma fauna orientada pelo umbigo que dá até medo. É o branco de bairro de classe média defendendo truculência policial. É o crente usando argumentos celestiais para negar direito terreno aos gays. É o sujeito que teve escola particular e cursinho de inglês bancado pelo papai criticando cotas e acendendo uma vela para a meritocracia. Somos um mundo colonizado por engenheiros tocantinenses.

O outro, o outro, o outro. Seremos cruéis enquanto não o percebermos.

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