Fabrício Cardoso: Sobre o estar sem estar - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião19/06/2017 | 19h28Atualizada em 19/06/2017 | 19h28

Fabrício Cardoso: Sobre o estar sem estar

"A anestesia geral talvez seja a metáfora mais acabada desta lógica que desgraçadamente aprendemos a aceitar"

Acho que vou ali fechar a cortina. Enquanto dedilho este texto, um reflexo na tela do computador revela uma imagem incômoda de mim mesmo. Um corte de oito centímetros cicatriza com bravura no lado esquerdo do pescoço, numa linha delirante, sem qualquer simetria. Alimento a vaidade tentando enxergar no talho alguma inspiração no surrealismo da Catalunha, mas, a rigor, carregarei na pele elementos para a má fama dos ortopedistas como cirurgiões.

Prometo não me jogar em delongas sobre doenças, porque todos, sem exceção, temos parentes dispostos a monólogos em forma de boletim médico. Trata-se de um assunto muito eficaz para aliviar carências, daí a incidência deste tipo humano nas melhores famílias. Basta dizer que, se não tivesse oferecido o pescoço para que o cirurgião arredasse o esôfago e colocasse próteses na terceira vértebra, corria risco de parar na cadeira de rodas.

Estancada a enfermidade que me conduzia lentamente ao imobilismo, sobrou-me tempo para reflexões sempre negligenciadas nas pressas da vida. Foi aí, metido nestes pensamentos, que me assustei com a força da ausência. A anestesia geral talvez seja a metáfora mais acabada desta lógica que desgraçadamente aprendemos a aceitar: o estar sem estar.

Passei as quatro horas mais delicadas dos meus 43 anos imerso num torpor farmacológico. Lembro-me do anestesista me advertindo, enquanto aproximava um tubo do meu rosto.

— Você vai sentir sono.

Que sono, senhores! Não dormia assim desde a primavera de 1973, depois de me recompor da experiência traumática de ser despejado do útero materno. Ocorre que o confortável breu ofertado pela medicina, se me poupou da dor lancinante a que eram submetidos os pacientes da Idade Média, não interrompeu meus afetos. Não houve hiatos de preocupações para quem se importa comigo. Pelo contrário, a aflição fermentou das 13h às 17h30min do dia 14 de junho de 2017. Se eu não estava tecnicamente ali, todos que me amam estavam.

Certamente, não disponho de coragem para dispensar a anestesia em solidariedade aos demais. Mas não deixo de pensar nas vezes em que, quando o peso dos dias parecia insuportável, me autoconcedi ausências. Já trabalhei demais sem precisar, já bebi demais, já priorizei coisas secundárias em detrimento do essencial, sempre em movimentos de fuga. Em resumo, já estive sem estar. Não há ausência mais dolorosa do que esta, porque se instala alheia à geografia.

— Fabrício, acorda — me disse o enfermeiro, delicadamente, tanto que dispensei o ponto de exclamação.

Em seguida, percebi a maca deslizando até o quarto. Experimentei um frio na barriga. Sabia que ela estaria lá. Acomodado na cama reclinável, passei a intercalar frases desconexas com breves cochilos. Cruzei a madrugada inteira neste delírio pacificador.

Então senti, num desses momentos que justificam o acaso de termos nascido, o toque macio de lábios na minha mão direita. Ergui as pálpebras com esforço e a vi, sentada ao lado da cama, numa cadeira de plástico. Sorria.

— Que bom que você voltou.

 É a presença, e não a ausência, que dá sentido a tudo.

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