Daniela Matthes: Igualdade na cobrança de entradas e a normalidade das coisas - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião09/07/2017 | 20h09Atualizada em 09/07/2017 | 20h09

Daniela Matthes: Igualdade na cobrança de entradas e a normalidade das coisas

"A verdade é que a tal mão invisível do mercado quer mesmo é encher a casa com mulheres para que mais homens entrem e gastem"

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Dentro da normalidade das coisas, tudo vai bem. Na superfície da vida, não há o que precise mudar. Quando chegamos as coisas já estavam assim, e, desta forma, devem continuar. Por que mexer no que está satisfatório? O problema é quando alguém tem a audácia de apontar que o normal não deveria ser tão normal assim. Aí é discussão na certa. Mexer na normalidade dá trabalho, é chato, exige reflexão, que alguém abra mão de algum privilégio – mesmo que seja só de aparências.

A mais recente bagunça no coreto quem fez foi uma juíza do Distrito Federal. Trago refresco à memória: um cliente sentiu-se lesado e moveu processo contra uma produtora de eventos por vender meia-entrada masculina a R$ 220 e feminina a R$ 170 para uma festa em Brasília. Ele pediu que a diferença de preços fosse suspensa por meio de liminar. A magistrada negou a urgência, mas entendeu que a distinção por gênero em casas noturnas coloca as mulheres na condição de isca. O caso foi encaminhado para que o Ministério Público apure se o fato fere o Código de Defesa do Consumidor e que, se for o caso, entre com ação coletiva. Na semana passada o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgou nota técnica determinando a proibição da prática.

A verdade submersa no cotidiano é desagradável, incomoda. Para ajeitar as coisas, é preciso bagunçar e fazer pensar. A proibição de preços diferentes de ingressos gerou rebuliço, especialmente entre os que defendem a liberdade do mercado, condenam a intromissão do Estado na iniciativa privada. Mas a iniciativa privada (parte dela, ao menos) não tem vergonha de pôr a mão no Estado em benefício próprio – Odebrecht, JBS e tantas outras (e ainda não reveladas) provam a teoria. Há quem defenda que o ingresso diferente seja para cobrir despesas extras femininas.

A verdade é que a tal mão invisível do mercado quer mesmo é encher a casa com mulheres para que mais homens entrem e gastem. Eles ainda têm, culturalmente, a obrigação (será mesmo que todos querem?) de consumir mais. Não, as casas noturnas que cobram menor valor às mulheres não estão preocupadas com as diferenças que recaem sobre elas. Desconsideram que as mulheres recebem, em média, 30% menos para exercer as mesmas funções que homens. Tampouco que produtos iguais custem muito mais apenas por serem voltados ao público feminino. É o imposto rosa. Muito menos que nos exigem corpo depilado, cabelos amaciados em custosos salões de beleza, roupas novas e maquiagem cara para estarmos no padrão-balada.

Há quem argumente que se nos colocaram nessa condição, foi com a nossa anuência. E, sim, permitimos. Mas por quê? Porque é normal. Os clássicos do pensamento mediano que querem injetar o ¿sempre foi assim¿ ou ¿já estava assim quando cheguei¿. Tudo nos empurra para que julguemos como normal o anormal. Pouco a pouco vamos levantando a ponta do lençol e vendo que abaixo da superfície as coisas são bastante anormais.

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