Fabrício Cardoso: Meu ensaio sobre a cegueira - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião03/07/2017 | 14h30Atualizada em 03/07/2017 | 14h30

Fabrício Cardoso: Meu ensaio sobre a cegueira

"Só acho que a gente se detém demais nos fracassos miúdos e deixa de aproveitar a grandeza do belo que nos cerca"

O gole redentor de água com gás descia arrefecendo o esôfago quando ouço um leve sussurrar.

—  Senhor, aqui não pode comer nem beber.

Em que pese a delicadeza da abordagem, a guarda da exposição acabara de me dar um esporro. Segui pelas galerias do centro cultural imerso em constrangimento, feito criança flagrada em travessura.

Por isto não sei decifrar ao certo a tremedeira que me assaltou quando dei de cara com exemplares da primeira edição de três clássicos de Machado de Assis: Memórias Posthumas de Braz Cubas, grafada assim mesmo, com este agá que hoje nos machuca a retina, Dom Casmurro e Poesias Completas. Fiquei ali, mirando cada fragmento da tinta da impressão, contendo em mim a histeria de um adolescente diante de artistas descartáveis.

Recobrado o controle emocional, me detive numa história por demais conhecida pelos bibliófilos, meio secreta para os mortais, que me pôs a pensar sobre como o tempo coa os grandes estragos provocados pelos pequenos erros.Raridade garimpada a peso de uma refeição em restaurante de chef de reality show, a primeira edição de Poesias Completas veio ao mundo em 1901, pela Livraria Garnier. Nesta época, os livros lançados pela editora eram impressos na França. Antes de cruzar o oceano, porém, os originais passavam pelo crivo de um exército de revisores. Ocorre que o tipógrafo francês não tinha mesma proficiência em língua portuguesa para verter a obra sem erros.

Foi por um desencontro idiomático que, na página 20 do prefácio, um erro gravíssimo foi ao prelo. Machado escreveu assim, fazendo uso do acento previsto na ortografia de então:
— (...) cegára o juízo (...)

O operário da gráfica parisiense imprimiu assim:

-  (...) cagára o juízo (...) 

O infortúnio só foi percebido quando a edição já estava atracada no porto do Rio de Janeiro. Para abrandar o mal-estar, para não dizer mau cheiro, um empregado da livraria se meteu numa missão artesanal: raspar com a letra A com a cerimônia de um neurocirurgião e escrever a letra E com tinta nanquim. Mais tarde, a Garnier providenciou a reimpressão do prefácio, corrigindo o erro e acoplando a página, também com desvelo cirúrgico, aos exemplares em estoque.

Em virtude da trapalhada francesa (neste caso escrevo virtude por convicção), pairam em estantes e sebos três tipos da primeira edição de Poesias Completas: com a cagada na íntegra, sem correção e raríssimo, o manuscrito e o da folha reimpressa. Todos são cobiçados doentiamente por este pessoal que gasta fortunas pela volúpia de possuir uma primeira edição. As décadas se encarregaram de transformar o grande estrago oriundo do pequeno erro em valor.

Então eu, incapaz de manter a etiqueta bebendo água com gás numa exposição, convoco todos a cometer pequenos erros para faturar no futuro? Um comunista não faria isto.

Só acho que a gente se detém demais nos fracassos miúdos e deixa de aproveitar a grandeza do belo que nos cerca. Vale para o amor, vale para o trabalho, vale para a família, vale para tudo.

De vez em quando, convém ficarmos cegos às cagadas, com o perdão do latim.


 
 

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