"A sociedade desperdiça uma potência enorme que é o jovem", diz especialista em educação - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Educação31/08/2017 | 09h41Atualizada em 31/08/2017 | 10h37

"A sociedade desperdiça uma potência enorme que é o jovem", diz especialista em educação

Helena Singer, consultora em projetos de educação, palestra no Congresso Educasul nesta sexta-feira

"A sociedade desperdiça uma potência enorme que é o jovem", diz especialista em educação MEC/Divulgação
Foto: MEC / Divulgação
Cristian Edel Weiss
Cristian Edel Weiss

cristian.weiss@diario.com.br

Autora de livros e artigos publicados no Brasil e no exterior sobre educação e direitos humanos, Helena Singer é um dos nomes de destaque que ministrarão palestra entre hoje e sábado no Congresso Educasul, no Centrosul, em Florianópolis. Ela irá falar sobre Caminhos para Transformação do Ensino Médio. A ex-assessora especial no MEC presidiu a iniciativa por Inovação e Criatividade na Educação Básica em 2015. 

Em entrevista por telefone, ela falou sobre os principais desafios hoje das escolas, principalmente em relação a atrair o público jovem para o espaço. A especialista questiona o modelo de ensino integral para jovens e defende que muito mais providencial que isso é inserir o contexto social do jovem e comunidade que ele vive dentro do ambiente escolar, tornando-o executor de projetos que possam contribuir com o desenvolvimento. Confira:

O Ideb das escolas de SC se destaca nacionalmente tanto nos anos iniciais quanto nos finais, mas no ensino médio o Estado não consegue acompanhar estes índices. De um modo geral, que caminhos a gente pode seguir para mais engajamento dos jovens nessa faixa?

Bom, em primeiro lugar eu acho que o ensino médio está ruim no país todo. Acho que até tem uma questão mundial. O mundo está em busca de uma nova proposta para a educação, especialmente dos adolescentes, porque a escola do jeito que está não atende os desafios do século 21 tanto para a formação deles quanto para o que o mundo precisa. É necessário pensar com a cabeça do século atual, reconhecendo que os jovens têm acesso às informações mais instrumentais facilmente. 

Eles produzem conhecimento hoje, têm acesso aos meios para produzir filmes, livros, blogs, sites, discussões, debates com pessoas de perto e de longe. Então é um contexto muito diferente e a gente tem que pensar no que seria necessário em uma escola agora. A partir disso, acho que as várias propostas, o ensino técnico, o ensino com 16 disciplinas, vão ser sempre insuficientes, mas tem algumas propostas gerais comuns, como por exemplo dar a eles condições de escolher diferentes caminhos pois os jovens são diversos, o mundo é diverso. 

Acho que a questão da conexão da escola com o contexto social em que ela está também é importante, dando possibilidade do jovem se envolver e refletir sobre o lugar em que ele mora, enviar projetos de intervenção e transformar o espaço. A escola também precisa se conectar com os ambientes de trabalho porque é um caminho que ele pode já trilhar mesmo que vá para a universidade.

E por fim, a escola pode fazer conexões com lugares de produção de conhecimento da cidade, dos territórios. Isso é uma experiência que existe em outros lugares. Existe até no Brasil. É quando a escola se conecta com um centro poliesportivo assim como cria um itinerário mais voltado para o jovem que gosta de esporte, por exemplo, ou se conecta com um centro de produção científica e forma itinerários pra jovens que gostam mais dessa área.

Os gestores de educação do Estado mencionam ter sentido certa dificuldade de aceitação das famílias acerca do ensino médio integral porque há uma tradição de trabalho na juventude que é muito forte nas famílias ainda. Como as escolas e os gestores podem trabalhar com isso?

Isso é uma realidade no país. Muitos jovens a partir dos 15 ou 16 anos vão trabalhar. Precisam muitas vezes ajudar a família. Eu acho que o foco da escola deveria ser que se os jovens por acaso já estiverem ingressados no mundo do trabalho, não seja um trabalho embrutecedor, que ele tenha escolha. Então as escolas poderiam fazer conexões com o ambiente de trabalho, escolhas de trabalho significativos do ponto de vista da formação do jovem. É importante apoiar uma mudança cultural entre as famílias brasileiras, de que o jovem está sim em formação. 

Pode até ser que ele vá trabalhar, porque queira, não necessariamente que a família precise e tal, mas é um trabalho na perspectiva da sua formação, não um trabalho para trazer dinheiro pra casa e prejudicar os estudos. Agora a política pública, o Brasil tem que apoiar essa família pra que ele possa apoiar o jovem. Não adianta jogar nas costas da família uma conta que ela não tem como pagar. Mas a escola de tempo integral para adolescentes é questionável. 

Será que é isso que ele precisa em termos da riqueza, das experiências, dos contatos, dos itinerários que ele precisa cumprir? Passar o dia dentro da escola?

A senhora comentou a respeito da importância da escola para a comunidade. As cidades estão preparadas para essa concepção de territórios educativos?

Não. A escola tem uma potência incrível para isso, pois é um equipamento público que tem uma equipe multidisciplinar de professores de várias áreas e no caso do ensino médio tem, às vezes, centenas, milhares de jovens que são pessoas extremamente potentes. Se pensar a potência humana, é um desperdício o que a gente faz com o jovem, ele já tem uma capacidade mental, emocional, afetiva e física de contribuir muito com a sociedade. A sociedade desperdiça uma potência enorme que é o jovem. 

Porque o jovem tem uma capacidade muito grande do ponto de vista intelectual, afetivo, ele poderia se engajar muito mais no próprio processo de desenvolvimento, de aprendizagem, se ele visse suas ideias se transformando em projetos, e os projetos transformando a vida das pessoas teriam uma satisfação muito maior.


12º Congresso Educasul

O Congresso, voltado a pesquisadores, professores, educadores e profissionais, é dedicado a buscar soluções para o alto índice de evasão escolar, em especial no ensino médio.

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