Daniela Matthes: "aceitar que uma cidade com quase 350 mil habitantes tenha apenas dois parques é contentar-se com migalhas" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião18/09/2017 | 08h51Atualizada em 18/09/2017 | 08h51

Daniela Matthes: "aceitar que uma cidade com quase 350 mil habitantes tenha apenas dois parques é contentar-se com migalhas"

 Ao que parece, por aqui a lógica da vida sempre esteve entre as obrigações do trabalho e com a igreja. O lazer não tem muito espaço, é (ou foi?) considerado secundário. Existe, claro, mas com lugar bem delimitado. Antigamente, nas datas comemorativas – quando as famílias ainda trocavam visitas –, nas atividades nos clubes de caça e tiro, nas festas de igreja. A impressão é de que o lazer hoje tem menos datas marcadas. Diluído no dia a dia, parece mais fácil, mas mais frágil também. Numa realidade em que as relações estão cada vez mais mediadas pela troca de mensagens online, a armadilha da eterna rotina casa-trabalho-casa está sempre à espreita quando o estresse e o cansaço estão no nosso calcanhar. Com muito mais pessoas morando em áreas urbanas e empilhadas em prédios, passamos o dia enjaulados, longe do sol – e da vitamina D.

Blumenau não é diferente. Um (ainda que breve) suspiro no meio urbano é o Parque Ramiro Ruediger. Há todo tipo de gente por lá. Basta olhar os pés: tênis caríssimos e apressados, outros mais em conta e andando no seu próprio ritmo, pés que recém aprenderam a tocar o chão, rodinhas sob a prancha do skate ou em linha, nos patins. Com frequência há mãos no chão de algum grupo dançando hip-hop. Gente com os pés na areia, na quadra de tênis ou saltando para acertar a cesta de basquete. Deitados, namorando na grama. Arrisco que o Ramiro seja o lugar mais democrático de Blumenau. Não é preciso pagar entrada, todos são bem-vindos: dos dançarinos de zumba, esportistas até leitores. A verdade é que o parque já foi inaugurado subdimensionado. Talvez nem o próprio blumenauense sabia que precisava tanto de um espaço assim. A lotação é rotina.

A dificuldade de estacionar nas ruas do entorno durante a semana – aos fins de semana costuma beirar ao caos – confirma que muita gente atravessa bairros e vai à região central em busca de espaço aberto para lazer e atividade física. Nos bairros está cada vez mais comum ver gente caminhando no fim da tarde nos acostamentos e calçadas, famílias andando de bicicleta – tendo ou não ciclofaixa. As poucas praças espalhadas fora da região central estão sempre cheias de quem precisa de um pouco de ar livre na rotina de uma vida urbana encaixotada.

Não é animador perceber como as políticas públicas tratam a questão – o que não é exclusividade local. Ouvimos muito falar em novas pontes, duplicação de rodovia, novos terminais urbanos. Raras vezes de espaços públicos de lazer. Quando ouvimos, é mais comum que sejam aproveitamentos de rebarbas urbanas, como no meio de rotatórias ou entre ruas, do que algo pensado, de fato, para o bem-estar da população. As obras praticamente paradas do Parque das Itoupavas, um belíssimo projeto que será um suspiro na rotina de quem mora na região Norte da cidade, dão noção de como a questão é tratada de forma geral.

Aceitar que uma cidade com quase 350 mil habitantes tenha apenas dois parques mais robustos é contentar-se com migalhas. Lembram do médico que receitou sexo como um dos remédios para combater a depressão? A prescrição que gerou polêmica não é à toa: Blumenau já foi famosa nacionalmente pelas grandes quantidades de fluoxetina ingerida pela população. Se ele pudesse prescrever à prefeitura um meio para ajudar no combate e prevenção à depressão de forma coletiva, tenho certeza que receitaria: mais parques. 

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