Daniela Matthes: Cuca - parte 3  - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião04/09/2017 | 08h22Atualizada em 04/09/2017 | 08h22

Daniela Matthes: Cuca - parte 3 

Confira a coluna desta segunda-feira  

Espero, paciente leitor, que ainda reste alguma fome por este tema (com o perdão pelo irresistível trocadilho). A verdade é que poderia escrever muito mais a respeito da cuca, mas, por aqui, o assunto termina nesta terceira e última coluna sobre o assunto. Já vimos que a cuca chegou ao Vale do Itajaí quando Blumenau ainda era colônia, com os imigrantes teutos. As dificuldades relacionadas ao clima e a falta de estrutura determinaram uma série de adaptações aos colonos, que aprenderam muito com os sertanejos, índios e imigrantes que já moravam aqui. Estes ajustes impactaram a alimentação e, claro, no jeito de fazer a cuca por consequência. O que se repetiu em outros lugares.

:: Daniela Matthes: As heranças alemãs mais genuínas da cuca no Vale do Itajaí

Ao pesquisar sobre esse nosso doce tão regional me deparei com uma novidade, ao menos para mim, claro. A cuca não é uma exclusividade nossa. Claro, ela permanece na Alemanha, como já comentei na semana passada. Sabemos também que há cuca em toda a região Sul do Brasil, onde desembarcou o maior número de imigrantes teutos entre os séculos 19 e 20. Ainda que em cada local a cuca tenha passado por alguma adaptação, todas conservam a essência da receita: massa, alguma cobertura e farofa por cima. Ainda que não tenha pesquisado com profundidade sobre, acredito que exista cuca também em outras regiões onde aconteceu a migração secundária de alemães e descendentes. Muitos, depois que desembarcaram em Santa Catarina, Paraná ou Rio Grande do Sul seguiram para países como Argentina e Chile, ou mesmo outros estados do Brasil, como Mato Grosso do Sul e Rondônia. Este não é um fenômeno isolado.


::: Leia mais: Como a cuca ajuda a contar a história de Blumenau e do Vale do Itajaí

Conflitos, guerras, pobreza, a impossibilidade da posse de terra são alguns fatores que motivaram os movimentos migratórios no mundo no século 18, 19 e 20. Ironicamente, se pensarmos no contexto atual, há cerca de 250 anos muita gente saiu da Europa em busca de vida melhor. No caso dos alemães, milhões saíram em direção aos Estados Unidos, Brasil, Austrália, regiões da África etc. Não é de se estranhar, portanto, que exista cuca nesses lugares, como no Vale do Itajaí.

Nos Estados Unidos, por exemplo, há no estado da Pensilvânia a Shoofly Pie. É uma variação de Streuselkuchen. A explicação para o curioso nome, que numa tradução livre ficaria "sai, mosca", seria o excesso de moscas atraídas pelo melaço usado na fabricação da Shoofly Pie. Lá, o doce é de massa fina e crocante, que lembra a base de tortas. Nos Estados Unidos também há a New York Crumb Cake, outra versão da Streuselkuchen, usualmente consumida no estado da Carolina do Norte.

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Há cuca também na Austrália. No sul do país, na região vinícola de Barossa Valley, é comum Streuselkuchen com damascos ou uvas frescas do tipo sultana. Mais conhecida como German Cake, a receita continua tradicional à mesa de imigrantes que chegaram naquela região após o fim da Segunda Guerra Mundial e seus descendentes.

Por meio da cuca é possível compreender nossa identidade enquanto população, que não necessariamente é aquela que tentam nos convencer. Entre a mesa rústica dos imigrantes até hoje muita coisa aconteceu, de uma colônia que não deu certo ao massacre indígena que os livros escolares não nos contam. Essa pesquisa não é para a "Alemanha sem passaporte". É para Blumenau com todas as suas chagas, superações e sem maquiagem. Uma cidade que é muito mais diversa e controversa do que as campanhas publicitárias mostram.

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