Daniela Matthes: "Segurar um bebê é ter a clichê oportunidade de acreditar, de novo, no futuro" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Crônica25/09/2017 | 14h17Atualizada em 25/09/2017 | 14h17

Daniela Matthes: "Segurar um bebê é ter a clichê oportunidade de acreditar, de novo, no futuro"

Confira a coluna desta segunda-feira

Nossos assuntos estão em desarmonia. Pudera, a diferença de idade é marcante. Enquanto ele segue para o quarto mês de vida, eu acumulo 377 vividos. Estamos só nós dois na sala. Bem que poderiam nascer com manual de instruções. A vida dos pais de um bebê recém-nascido é exaurida em adivinhações. Choro pode ser sinônimo de fome, cansaço, fralda suja, a descoberta da mão, a falta da mãe e mais um sem-número de possibilidades que, listadas, são maiores que os 50 centímetros de um bebê. 

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Ele não sabe da minha falta de traquejo com menores de três anos. No mesmo dia em que fui inquirida sobre se eu gostava ou não de crianças, entrei numa loja em que estavam um gato e um bebê estranhamente sozinhos. Fui até o gato para saber se estava tudo bem com ele. Logo, outro adulto mais habilitado que eu, acudiu o bebê, que passava bem em seu andador. Ao interlocutor que me perguntou sobre o gosto por crianças, respondi que sim, gosto delas. Para uma pessoa com pouca perícia infantil, as coisas ficam mais fáceis quando os pequenos podem se manifestar de alguma forma que não varie de grunhidos ao choro. Ainda não inventaram um aplicativo que traduza essas manifestações? Google perde rios de dinheiro.

Pais responsáveis não deixam seus filhos com qualquer pessoa aparentemente inabilitada para a função, mesmo que para um curto espaço de tempo,como era meu caso. Apeguei-me a esse raciocínio. Conheço o bebê há três meses e, bem, isto nos dá alguma intimidade. É uma pequena parte da minha vida, mas ele me conhece a vida inteira. Ainda assim, para velhos conhecidos que somos, o silêncio da sala vazia pode ser constrangedor. Não há manuais sobre o que conversar com um bebê de três meses. Comida, não dá. Se pudesse comer algo para além do leite materno, quem sabe discutiríamos a relação de amor e ódio pelo Kochkäse. Como pode uma delícia ter cheiro tão estranho? Assunto correlato poderia ser o preço das mensalidades da creche, que mais parecem boletos de universidade. Para uma vida que transcorre entre chorar, comer, dormir e sujar fraldas, os temas ainda são limitados.

Perguntei sobre o que ele queria conversar. Franziu a testa. Cheguei mais perto. Não foi preciso palavras para nos entendermos. Alguns grunhidos não passíveis de serem repetidos longe de um bebê e pronto: ele gargalhou. E tem conversa melhor? Ele sabe bem conquistar o interlocutor. A pele branca, olhos verdes, sorriso banguelo, bochecha gorda. Covinhas para arremate. Um bebê sem manual é a oportunidade para redescobrir o mundo. Não há limitação ao lembrar que tudo é novidade para ele. Normalidade não existe. Já no colo, observamos pela janela enquanto falávamos sobre pássaros, árvores, o sol e o mundo inteiro que ele ainda vai descobrir. Segurar um bebê é ter a clichê oportunidade de acreditar, de novo, no futuro, por mais que o presente tente minar as esperanças. Tudo fica em paz com um bebê no colo.

Começamos nosso encontro como pretendentes desajeitados e desconhecidos. Terminamos como amigos que queriam conversar mais, apesar do limitado vocabulário. De repente, um bico se formou e quis chorar. Era hora do almoço,meu estômago também roncava, nem por isso chorei, claro. A mãe chegou carregando o que ele queria. O cheiro, o afago e a comida que só ela tem. Anseio pela nossa próxima conversa.

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