Daniela Matthes: "Estamos enxugando gelo no combate à violência contra a mulher" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião23/10/2017 | 12h59Atualizada em 23/10/2017 | 13h32

Daniela Matthes: "Estamos enxugando gelo no combate à violência contra a mulher"

Colunista repercute a violência doméstica e a ineficiência de punir sem educar

Estamos enxugando gelo. Não há outra expressão popular que melhor defina a situação das políticas públicas relacionadas à violência contra a mulher. Está claro que apenas punir não basta. Por mais que a legislação e as iniciativas do estado para categorizar — e punir com mais rigor — os crimes contra a mulher tenham avançado na última década, não é o bastante. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a Lei 11.340/2006, que leva o nome da brasileira Maria da Penha, como um dos três melhores códigos do mundo quando o tema é a proteção das mulheres. Ainda é muito pouco.

Passar os olhos pelos sites de notícias da região no fim de semana é garantia de se deparar com algum caso de violência doméstica. Ontem a manchete do santa.com.br era tão clara quanto triste: homem joga gasolina e ateia fogo na mulher e no filho em Blumenau. Mãe e filho estão com 80% de seus corpos queimados. O homem, que é marido e pai de suas vítimas, 75%. Uma lamentável história com um fim pior à espreita, infelizmente. Mais esse caso e tantos outros – só em Blumenau este ano foram três feminicídios e mais uma mulher que matou o marido após ter ameaçadas as vidas dela e do filho – revelam o que está óbvio: leis não bastam.

Não são poucos os que bradam por aí — principalmente no meio virtual — muitos subsidiados por teóricos de Facebook, que escola não é lugar para discutir gênero. Em Blumenau, a negativa da discussão foi tão incisiva que a palavra gênero foi completamente abolida do Plano Municipal de Educação. Primeiro precisamos entender, de fato, o que é discutir gênero. Nessa conversa, se há algum incentivo, sem dúvida o primordial deles é o respeito ao próximo. Vai muito além de falar sobre a sigla LGBTQ, mas também sobre as relações heterossexuais e todo o machismo (ainda) inerente em nossa sociedade. Conversa que deveria existir em diferentes âmbitos e espaços além das escolas, como universidades, associações diversas, igrejas. Se até agora a discussão de gênero está determinada exclusivamente ao âmbito familiar, notadamente essa estratégia não tem dado certo. Basta observar com mínima atenção os exaustivos números que mostram quanto somos todos — meninas e mulheres muito mais, claro, mas meninos e homens também — afetados pela cultura que se teima conservar.

Oferecer uma educação que questione atitudes preconizadas pelo machismo é criar adultos mais maduros, capazes de entender que não são proprietários (nem propriedades) de ninguém. Que não se trata de uma derrota à masculinidade (e o que é isso, afinal?) o fim de um relacionamento ou a negativa de envolvimento amoroso. Permitir o diálogo franco sobre sentimentos com meninos e meninas favorece que, mais tarde, eles saibam lidar melhor com a complexidade de suas emoções, sejam elas boas ou ruins. Acreditar que todos os homens autores de violência doméstica são psicopatas ou algo do tipo diminui a importância da educação porque associa a ideia de que eles seriam incapazes de ações diferentes. A verdade é que são pessoas comuns, como eu e você.

Punir é muito pouco e ineficiente para a prevenção de violência doméstica e feminicídio. Precisamos conversar. E urgente.

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