Daniela Matthes: "Negar o debate sobre a diversidade é assentir com as consequências da intolerância" - Geral - Jornal de Santa Catarina

Versão mobile

Opinião30/10/2017 | 10h49Atualizada em 30/10/2017 | 10h49

Daniela Matthes: "Negar o debate sobre a diversidade é assentir com as consequências da intolerância"

Confira a coluna desta segunda-feira

Na última semana repercutiu a moção de repúdio aprovada pela Câmara de Vereadores de Blumenau contra o Festival de Cinema Elza Pacheco, que acontecerá em novembro na escola estadual no bairro Vila Nova. Estão previstos exibição de filmes e ciclo de palestras sobre diversidade de gênero, religiosa, cultural indígena, cultural no Oriente Médio e cultural afro-brasileira. Há tanto o que repudiar.

::: Leia outras colunas de Daniela Matthes

Merece repúdio a defesa da manutenção das coisas como estão. Negar o debate sobre a diversidade, seja de gênero, religiosa, étnica ou qualquer outra, é assentir com as consequências da intolerância – que podem ser facilmente medidas em números. Uma em cada três mulheres foram agredidas fisicamente em 2016 no Brasil. Em 61% dos casos, os agressores eram maridos, parentes ou conhecidos. Não é preciso ir longe para encontrar vítimas fatais da misoginia: há uma semana uma mulher morreu após ser queimada pelo, então, marido. O filho de 11 anos também foi alvo. A família e vizinhos relatam sucessivas agressões e a recusa do, agora, assassino, em relação ao divórcio requerido pela mulher. Foi o quarto caso de feminicídio em Blumenau neste ano. É deste tipo de família tradicional a que se referem os que temem pelo fim desta "instituição" para negar o debate sobre gênero no ambiente escolar? Pelo que é possível perceber, só há família onde há amor – independente do gênero.

Em 2016 aconteceram, no Brasil, 343 homicídios de pessoas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. No mesmo ano, mais que dobrou o saldo de denúncias por intolerância religiosa junto à Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça. Foram mais de 300 casos. Não é preciso citar aqui nenhum dado para reafirmar a violência sistêmica que a população negra está submetida há séculos.

Merece repúdio o fechamento de escolas. Há praticamente uma década, desde a tragédia de 2008, que a Pedro Krauss não tem escola dentro da comunidade. Na época, o prédio da unidade escolar foi condenado e um novo não foi construído. As crianças precisam se deslocar para longe de casa para estudar. Funcionando em outro local desde então, a Escola Básica Municipal Tiradentes vê a sua dissolução para dar espaço ao Colégio Militar. Escola é também ambiente de integração com a comunidade em que está inserida, criando laços para além da sala de aula. A falta da escola local é a negação de um direito básico. Capítulo semelhante enfrentou também a própria Elza Pacheco, que só não foi fechada em 2015 graças à mobilização de alunos, pais e professores, mas que ainda carece de sede própria.

Merece repúdio a posição de quem tem como atitude primária condenar a escola como espaço para amplo debate. Se o evento dos alunos da Escola Professora Elza Pacheco merece algo, sem dúvida, é apoio. Passou da hora de reconhecermos que conversas desse tipo no ambiente escolar são fundamentais para construirmos uma sociedade mais tolerante, com capacidade de reflexão e empatia pelo diverso para que se pare de ampliar os números que citei há pouco. Num gesto de revide às avessas, talvez os alunos possam convidar os vereadores para participar do evento. Como expectadores teriam a oportunidade de refletir, junto com os jovens, sobre respeito e tolerância – itens em falta na Câmara, como vimos na última semana.

Siga Santa no Twitter

  • santacombr

    santacombr

    SantaMinistério Público investiga morte em operação do Bope, em Piçarras https://t.co/glCVrM49pb #LeiaNoSantahá 40 minutosRetweet
  • santacombr

    santacombr

    Santa"O ônibus derrapou e acabou tombando", conta testemunha do acidente na BR-470, em Pouso Redondo https://t.co/ji0qVoz6C1 #LeiaNoSantahá 1 horaRetweet
Jornal de Santa Catarina
Busca