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Discussão sobre gênero28/10/2017 | 13h40Atualizada em 28/10/2017 | 13h40

Estado vai avaliar evento sobre diversidade em escola de Blumenau

Reunião na ADR de Blumenau discutiu detalhes do plano de trabalho do ciclo de palestas promovido pelo colégio Escola Elza Pacheco

Estado vai avaliar evento sobre diversidade em escola de Blumenau Lucas Correia/Jornal de Santa Catarina
Protestos na sessão de quinta-feira da Câmara de Blumenau deixaram grupos em lados opostos e tiveram acompanhamento da PM Foto: Lucas Correia / Jornal de Santa Catarina

A polêmica sobre o festival de cinema e o ciclo de palestras sobre diversidade programados pela Escola Professora Elza Pacheco, de Blumenau, chegou ao governo do Estado. Na tarde de sexta-feira, a Agência Regional de Desenvolvimento (ADR) fez uma reunião com a direção da instituição de ensino e solicitou documentos como o plano de trabalho para o evento. O secretário Emerson Antunes promete buscar um entendimento que ultrapasse as paixões, mas afirma que a ADR e a Secretaria de Estado da Educação, em Florianópolis, somente devem tomar uma posição após avaliarem os argumentos dos defensores e críticos ao evento – “como em um processo judicial”, comparou.

Na escola, os pais teriam informado à direção que preferiam não se manifestar sobre o tema e há uma proteção sobre os alunos para evitar possíveis perseguições em razão de opiniões dos estudantes. A diretora Tânia Elaine Wuaden informa que o evento está mantido e que o tema diversidade já é discutido desde o início do ano. Ela ressalta que a escola é de ensino médio, com cerca de 500 adolescentes com idade entre 15 e 18 anos – e não crianças como mencionado por alguns vereadores – e diz que todos têm consciência de que não estão fazendo nada de errado.

– A gente não está fugindo do tema que está previsto na proposta curricular do Estado, ela incentiva que isso (discussão sobre diversidade) faça parte do ambiente escolar. A pessoa que abriu a discussão não conhece uma escola de ensino médio – frisa.

Membro do coletivo LBGT Liberdade e um dos palestrantes que vai participar da roda de conversa no Elza Pacheco, Lenilso Silva afirma que as conversas com os adolescentes se limitam a abrir espaço para a diversidade e falar sobre tolerância, valorização de todas as vidas e das diferentes formas de família. Ele critica a intolerância às diferenças e afirma que os debates na escola abordam também o machismo, a morte de mulheres e a divisão social do trabalho entre homens e mulheres.

– Devemos discutir que mulheres e homens são iguais e ambos merecem respeito e direito à vida. O problema é que a cegueira do fundamentalismo acha que vamos abordar só questões LGBT, e questões de gênero não são só LGBT, envolvem mulheres e diversidade como um todo dentro do ambiente escolar – sustenta.

Lenilso vai assumir uma cadeira no Legislativo no início de novembro e já promete apresentar um pedido de audiência pública sobre o tema discussão de diversidade nas escolas. Presente no protesto de ontem, a travesti Luísa do Prado Souto, que também está entre as palestrantes, já havia frisado que as palestras se limitam às experiências pessoais e à defesa da inclusão da população trans no ambiente escolar, já que hoje boa parte desse grupo acaba abandonando a escola.


Argumentos contrários citam plano municipal

Na sessão da Câmara de quinta-feira, os vereadores contrários a qualquer discussão sobre gênero nas escolas citaram argumentos como uma possível influência dos conteúdos sobre crianças que frequentam as escolas e o fato de o Plano Municipal de Educação vetar o tema em sala de aula. Presente no protesto contra a discussão, o coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) em Blumenau citou que as palestras no evento da Elza Pacheco teriam apenas um viés ideológico, com palestrantes que seriam “conhecidos doutrinadores esquerdistas” e que o papel de qualquer tipo de educação sexual cabe primeiramente à família.



Outro curso alvo de repúdio é para maiores de idade

Quando aprovaram a moção de repúdio às palestras da Elza Pacheco, os vereadores também ensaiaram repetir a medida com um curso sobre diversidade de gênero oferecido pela GDE Educacional, o famoso Pontinho Estudantil. A formação, no entanto, é voltada para maiores de 18 anos, professores ou profissionais de educação e, segundo o diretor da instituição João Carlos Bezerra, busca justamente ajudar na resolução de conflitos em sala de aula que tenham questões de gênero como origem. Ontem, após conversa entre o diretor e o presidente da Câmara, Marcos da Rosa (DEM), a moção foi retirada da pauta e uma reunião deve ser marcada.

– Quero acreditar que houve um equívoco porque nosso curso não está inserido em nenhuma grade curricular de educação básica, é um curso de formação continuada para professores, demais funcionários de escola e pais que queiram fazê-lo, desde que tenham 18 anos. O principal de tudo é que o foco do curso não aborda nenhum tipo de ideologia. Apenas fornece subsídios para que a pessoa tenha condições melhores de atuar caso haja conflitos por causa do tema – pontua.

Um dos principais argumentos dos contrários ao evento da Elza Pacheco e à discussão sobre diversidade e gênero é o fato de que o Plano Municipal de Educação, aprovado em 2015, vetou os conteúdos de gênero nas escolas. No entanto, a Procuradoria-Geral da República ajuizou este ano uma ação que questiona a não inclusão do assunto no plano – o mesmo procedimento foi adotado contra as diretrizes de Cascavel e Paranaguá, no Paraná, também por terem excluído o tema da regulamentação municipal sobre ensino. O caso está no Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria do ministro Edson Fachin e teve o último andamento em agosto, quando o processo, com cópias de documentos solicitados ao município, foi encaminhado ao relator.



Alunos estão indignados com a situação, alega estudante

Uma aluna do primeiro ano da Elza Pacheco conta que os estudantes estão indignados com a situação e estariam inclusive sendo ofendidos nas ruas e nas redes sociais. Ela considera necessário falar sobre diversidade e diz que na escola nada é imposto aos alunos.

– Acho a discussão muito importante para a formação do indivíduo. Todos precisamos aprender a respeitar a todos, ensinar isso na escola é básico. Em muitas casas a relação dos filhos com os pais não é boa, muitos pais simplesmente ignoram esse tema e quando o filho vê alguém diferente pessoalmente estranha, acha errado... A formação do indivíduo depende sim da escola e do respeito que recebe em todos os lugares – diz.

Andréia Lourenço tem uma filha de 16 anos no primeiro ano e não vê problemas nas palestras sobre diversidade. Ela diz ter uma relação bastante aberta com a filha, mas lembra que nem todas as famílias oferecem a mesma liberdade e que essas discussões no ambiente escolar podem ajudar os jovens a ser mais tolerantes:

– Minha filha tem amigos gays. No mundo que a gente vive, a gente vê pessoas gays na rua e você vai fazer o quê, agredir, como muitos fazem? Não, é uma realidade e é preciso respeitar, discutir isso.

A qualidade do ensino na Escola Elza Pacheco já foi consagrada em Blumenau em algumas ocasiões. Em 2012, 2013 e 2014 a unidade foi a melhor escola pública da cidade no ranking do Enem, chegando a alcançar o sexto lugar em SC.

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