Fabrício Cardoso: "Se você põe o ser humano em primeira perspectiva, basta para ser xingado de stalinista" - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Opinião31/10/2017 | 07h40Atualizada em 31/10/2017 | 07h40

Fabrício Cardoso: "Se você põe o ser humano em primeira perspectiva, basta para ser xingado de stalinista"

Confira a coluna desta terça-feira

O cara tem de ser muito reaça, desses que carregam o Bolsonaro nos ombros em saguão de aeroporto, para me classificar de "esquerdopata". Não caibo no adjetivo papagaiado por esta turma carente de vocabulário porque sou um amante do livre pensar. Defendo ideias que fariam petistas me arremessar casca de mortadela no rosto, porque o miolo do embutido, ah, este vai ser acomodado no meio do pãozinho a ser devorado antes do discurso do Lula.

O que me espanta na interpretação ideológica de um discurso meramente humano é que os reaças compraram o monopólio da virtude reclamado pela esquerda. Se você põe o ser humano em primeira perspectiva, relativizando o lucro, as divindades do mercado e até um pedaço das liberdades individuais, basta para ser xingado de stalinista. É um debate que se resume a enfiar as pessoas em gavetas. O próximo estágio é sairmos pastando.

Jamais me verão chamando de "franga" quem defende o desarmamento da população civil ou assinando petição para que genitálias sejam banidas dos museus. Não há certeza que valha um constrangimento medieval desta magnitude.

Mas sou, por exemplo, um defensor da privatização. O Estado só deve se ocupar de saúde, educação, segurança pública e parte da zeladoria urbana – o que der para conceder, que se conceda. Porque o sujeito que discursa em favor das estatais em mesa de bar, via de regra, está protegido delas na iniciativa privada.

Quem fica refém da paquidérmica burocracia são justamente os pobres. Se auditada com mão firme por agências reguladoras (o que infelizmente não rola), a privatização é uma forma de justiça social. Seria eu o primeiro "esquerdopata" a dizer esta blasfêmia em público?

Há cinco meses, por contingências familiares temporárias, passei a responder sozinho pela operação doméstica do nosso lar. Lá em casa, há dois banheiros: um para meu desfrute, outro para os meus dois meninos. De repente, começou uma peregrinação febril ao meu banheiro. Não valorizo a privacidade a ponto de considerar incômoda a presença dos meus filhos, mas havia algo estranho naquela movimentação repentina.

– Rapazes, por que vocês vêm aqui todas as manhãs? – perguntei.
– Ora, pai, acabou a pasta de dente.

Corri ao mercado e recompus o estoque de creme dental. Dois dias depois, a romaria matinal recomeça.

– O que houve agora?
– Acabou o sabonete líquido.
– !

Assim tenho me saído como gestor. Incapaz de antever cenários de escassez, transformo rotinas em urgência. Minha omissão é uma fábrica de emergências, enquanto meus filhos padecem sob risco de hospedar bactérias na boca e nas mãos.

Curioso é que, se eu fosse filiado a um partido, adulasse quem manda neste partido e este mesmo partido chegasse ao poder, poderia ser designado para o cargo de diretor de logística em alguma repartição qualquer. A privatização funciona para proteger a sociedade de gestores como eu.

Mas agora é tarde para dizer coisas assim. Depois do texto da semana passada, já virei a franga stalinista.

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