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Vale da Fé16/12/2017 | 08h00

Com novas atrações, turismo religioso cresce no Vale do Itajaí

Cidades como Laurentino, Brusque e Nova Trento trazem fiéis à região e estimulam a economia com novo nicho de visitantes

Com novas atrações, turismo religioso cresce no Vale do Itajaí Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Genésio e Vonei se encantam com a beleze e a grandiosidade da santa de mais de 20 metros de altura em Laurentino Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Laurentino está diferente. Desde o final de novembro, quando foi inaugurada uma imagem de mais de 20 metros de altura de Nossa Senhora das Graças, a comunidade do Alto Vale do Itajaí renovou o orgulho e a vocação religiosa. A imagem da santa envolta em vestes azuis e brancas integra a paisagem da cidade. Nos sábados e domingos, o espaço é tomado por moradores de cidades vizinhas que vão até lá para fazer fotos, orar e admirar a vista do município de pouco mais de 6 mil moradores.

Nesta semana, o empresário Vonei Pinto, 44 anos, dono de uma empresa de grãos, percorreu de novo os 3,5 quilômetros entre o Centro e a santa para mostrá-la ao amigo Genésio Koenig, de Agronômica. Da empresa, Vonei enxerga a escultura e acredita que ela ajudará a cidade a ser mais visitada e conhecida. Genésio foi só elogios:

– Muito bonita, coisa de cinema.

O escultor da imagem da santa, Vilmar Lopes de Medeiros, 46, que mora lá desde 2013, também comemora:

– A cidade se renovou com essa obra. As pessoas conversam com alegria, o espírito mudou, eles estão mais devotos.

A imagem de Nossa Senhora das Graças traz a expectativa de que Laurentino possa ser mais um destino para o crescente turismo religioso do Vale do Itajaí. O principal trunfo da região ainda é a proximidade de Nova Trento e o Santuário Santa Paulina, que desde 2006 leva cerca de 80 mil devotos por mês à cidade. Mas há outros atrativos para fiéis no Vale, como o recém-criado Caminho de Santa Paulina – de Camboriú até Nova Trento, refazendo um trajeto percorrido pela santa catarinense –, e o Seminário e Complexo Azambuja, em Brusque.

Com outras atrações como catedrais com arquitetura imponente, retiro franciscano em Rodeio e eventos como o Congresso dos Gideões de Camboriú, a região se torna destino de seguidores de diferentes crenças, e tem o movimento elevado na temporada de verão.

A imagem tem 24,9 metros de altura. A construção da base levou cerca de dois anos, e da figura da santa, nove meses. Vilmar Lopes já havia assinado outras esculturas sacras locais, mas encarou o mais recente trabalho como um desafio e tem colhido elogios.

A obra é a maior das três esculturas de Nossa Senhora das Graças do país, segundo levantamento dos responsáveis pela construção, e estende a bênção sobre a cidade a partir de um oratório, construído por um agricultor como pagamento de uma promessa no alto de um morro com vista para todo o município, em 1947. Outra imagem, esta de Nossa Senhora de Lurdes, está em construção na cidade vizinha de Ituporanga.

investimento em Escultura de santa passa de R$ 500 mil

O investimento, conforme o coordenador do Oratório Nossa Senhora das Graças, Lúcio Klock, foi de pelo menos R$ 500 mil – R$ 350 mil arrecadados com a comunidade em doações e festas, e o restante em projeto executivo e materiais cedidos por apoiadores. A imagem tem concreto injetado no interior e pesa mais de 450 toneladas.

Embora já receba visitantes, para ficar melhor, o destino requer mais estrutura nos arredores. Até o fim do ano, a coordenação do oratório pretende contar com um restaurante terceirizado no galpão que existe ao lado da imagem. Ambulantes, por exemplo, já descobriram o movimento de pessoas.

– Se em um fim de semana tínhamos 30 pessoas visitando o oratório, durante a construção esse número passou para 300 e, no primeiro fim de semana depois da inauguração, foram mais de mil pessoas – conta Klock.

O movimento nos fins de semana anima até o prefeito Gilberto Marchi (PSDB). Ele acredita que a imagem da santa possa ajudar Laurentino a receber mais visitantes e evoluir economicamente. Para isso, se compromete a investir na reforma de acessos, trevos e jardinagem.

– A gente sempre recebe a visita na sala, e acredito que a sala de uma cidade são os acessos, por isso estamos dando essa atenção especial, apostando que o movimento só aumente – projeta o prefeito de Laurentino.

Complexo em Brusque tem museu e seminário para atrair fiéis

A vocação religiosa movimenta o turismo também nas cidades do Médio Vale. Um dos principais exemplos é Brusque. O Santuário de Nossa Senhora de Azambuja tem tradição desde 1905 e é o mais antigo do Estado. A construção tem arquitetura e vitrais que costumam impressionar e é bastante visitada, tanto nos dias de semana à noite quanto aos domingos, quando há missas em quatro horários. Como está ao lado de um tradicional seminário, que desde 1927 contribui com a formação de padres, o santuário se destaca por sempre ter padres disponíveis e ser um local com tradição de receber confissões de fiéis.

A estimativa é que 3 mil pessoas visitem o santuário em Brusque a cada final de semana. É o segundo lugar mais procurado da cidade, atrás apenas dos centros comerciais de vestuário.

Várias opções para milhares de visitantes

Ao redor do santuário há ainda um complexo com um hospital e um lar para idosos que representam um braço social do complexo. Além disso, há uma gruta usada por fiéis como fonte de água benta e o Morro do Rosário, em que as pessoas sobem fazendo orações do terço até uma capela onde está representada a coroação de Nossa Senhora do Rosário.

No terceiro domingo de agosto, a Festa de Nossa Senhora de Azambuja chega a levar mais de 80 mil pessoas ao santuário. Por fim, o Museu Arquidiocesano Dom Joaquim, maior de arte sacra do Sul do Brasil, com acervo de 4 mil peças religiosas antigas, fecha as atrações do complexo, conhecido também como Vale de Graças Azambuja.

– Recebemos muitos visitantes de todo o país e até de fora do Brasil. Nossa região é bastante rica nessa área de turismo religioso, mas geralmente há um intercâmbio maior com Nova Trento (são 30 quilômetros de distância). Pessoas que vão à Santa Paulina pela manhã aproveitam a proximidade para visitar nosso santuário à tarde e à noite ou o contrário – conta o padre Iseldo Scherer, pároco e reitor do Santuário de Nossa Senhora do Azambuja.

Caminho para lembrar e louvar Santa Paulina

Caminho de Santa Paulina, percorrido por ruas do interior de Camboriú, São João Batista, Canelinha e Nova Trento, até o Santuário de Santa Paulina. Case: João Batista Campos e esposa, que percorreram o caminho.
João Batista e a esposa integraram primeiro grupo de peregrinosFoto: Divulgação / Divulgação

Um trajeto de 65 quilômetros por estradas do interior, que Madre Paulina percorreu em 1899 para ir de Nova Trento à inauguração de uma igreja em Camboriú. Esse é o chamado Caminho de Santa Paulina, lançado em maio deste ano, com potencial para alavancar o turismo religioso na região. O roteiro passa ainda por São João Batista, Canelinha e Tijucas, e é visto como possível trecho de peregrinação para fiéis e para lazer de apreciadores do turismo rural. O espaço conta com construções históricas, como igrejas, e paisagens de interior.

– Dos caminhos que existem, é o único que Santa Paulina de fato andou, com banda e caravana. É 100% rural, 50% dele em mata atlântica, com belas paisagens, mas precisa ser finalizado, com orientações para turistas – explica o historiador e articulador do caminho, Isaque de Borba Corrêa.

De maio até agora foram feitos só cerca de 10 passeios guiados. O caminho ainda precisa de placas de sinalização, que estão sendo solicitadas à prefeitura de Nova Trento, e mais divulgação. Com isso, mais moradores e agricultores se interessariam em receber visitantes e peregrinos.

Hoje existem nove pousadas e alguns restaurantes ao longo do trajeto, que pode ser percorrido entre dois e três dias. No entanto, a expectativa é que até 70 moradores possam ser incluídos no Caminho de Santa Paulina, com oferta de hospedagem, alimentação e lazer, melhorando a distribuição dessa estrutura.

O otimismo dá o tom do discurso de quem comanda o trabalho de consolidação do Caminho de Santa Paulina, que chega a compará-lo às tradicionais rotas de Santiago de Compostela, na Espanha.

– Cerca de 1 milhão de pessoas por ano visitam o santuário em Nova Trento. Quando o caminho for bem trabalhado e divulgado, a tendência é que se torne uma forte rota de peregrinação – projeta Marco Vilarinho, o Badeco, agente de turismo que coordena passeios pelo caminho. 

Satisfação de quem gostou de seguir os passos da religiosa

Durante uma visita a Balneário Camboriú, o engenheiro agrônomo paranaense João Batista Campos, 59 anos, ficou sabendo do lançamento do Caminho de Santa Paulina e integrou com a esposa o primeiro grupo que percorreu o trajeto. Foram cerca de 20 integrantes que saíram em uma sexta-feira de maio e chegaram no domingo ao Santuário de Santa Paulina. Campos diz ter ficado satisfeito com a estrutura de hospedagem e encantado com a natureza. No início de dezembro, esteve em Compostela, na Espanha, mas retornou ainda com palavras elogiosas para o trecho de peregrinação catarinense:

– As coisas que mais me tocaram foram paisagens, com riachos cristalinos, e as pessoas amáveis que estavam no grupo. Devemos fazer mais esse tipo de passeio. É maravilhoso e não deixa nada a desejar para caminhos tradicionais europeus.

Santuário em Nova Trento recebe 80 mil pessoas por mês

Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento
Estrutura foi erguida em 2006 e recebe milhares de visitantes e fiéis por anoFoto: Divulgação / Divulgação

O Santuário de Santa Paulina, em Nova Trento, é o destino final de caminhos de peregrinação como o criado este ano em Camboriú, e uma referência no turismo da fé no Estado. É o segundo destino religioso mais visitado do país, atrás de Aparecida (SP). Neste ano o local deve terminar com alta de 4% a 6% no número de visitantes. São em média 80 mil pessoas por mês que vão para orar, pagar promessas ou conhecer a construção de 2006.

Na chamada alta temporada, da metade de dezembro até o Carnaval, o número de visitantes dobra, muito em função de turistas que visitam o litoral de Santa Catarina e aproveitam o espaço em dias de folga para conhecer o complexo. O santuário emprega hoje 90 funcionários e tem 10 irmãs, dois padres e seis voluntários.

– Temos por princípio não pararmos nunca para, caso o turista volte um ano depois, encontre coisas novas. Este ano inauguramos um novo centro comercial, com 64 lojas, e um novo espaço de visitação com a réplica do Santuário de Nossa Senhora do Bom Socorro, no Morro da Cruz. Nova Trento é a única cidade do país com dois santuários, e nossa intenção é divulgar mais isso – explica o membro da diretoria e coordenador de sustentabilidade do santuário, Marcos Jaboski.

Com aliados como a gastronomia e a cultura italianas, o clima de interior e as vinícolas, Nova Trento arrebata cada vez mais fiéis e visitantes. O local é apontado até como responsável pelo aumento da população do município, que passou de 9,8 mil para 12,9 mil habitantes entre os Censos de 2000 e 2010 – década em que a então Madre Paulina foi canonizada e quando surgiu o santuário. A alta é de 23,7%, três vezes mais do que o aumento da década anterior. Em 2017, a estimativa do IBGE é de 14.099 habitantes.

Embora existam caminhos como a Rota das Graças, que envolve Barra Velha, Itajaí e Nova Trento, a direção do santuário é entusiasta da criação do Caminho de Santa Paulina. Acredita que a novidade pode incentivar ainda mais o turismo. Um camping para o público que viaja de motorhome também é um projeto em andamento. Problemas como a falta de um segundo acesso asfaltado também foram levados ao governo do Estado.

– O turismo religioso é uma tendência, quanto maior a crise, mais as pessoas se apegam à fé.  É o carro-chefe da cidade – avalia Jaboski.

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