Família questiona atendimento a vítima de febre amarela em Gaspar - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Saúde25/01/2018 | 10h04

Família questiona atendimento a vítima de febre amarela em Gaspar

Filho e marido de mulher que foi primeira vítima da doença em SC contaram como foram os últimos dias da moradora de Gaspar

Família questiona atendimento a vítima de febre amarela em Gaspar Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Ela começou o ano cheia de planos. Filomena Soares de Campos Silva, 57 anos, havia saído de um quadro de depressão, estava de emprego novo e pensava em abrir um ateliê com a ajuda da nora. O primeiro neto menino estava para chegar em março. Mas a mesma viagem que revigorou as energias da moradora do bairro Poço Grande, em Gaspar, acabou contribuindo com a morte prematura no último dia 17.

No fim de dezembro, Filomena embarcou para Mairiporã, cidade na região metropolitana de São Paulo que tem um dos maiores surtos de febre amarela do país. Ela não tinha tomado a vacina contra a doença. Três dias após retornar, no início de janeiro, começou com sintomas como febre e enjoo, que evoluíram durante uma semana em que ela ficou entre idas e vindas até a internação no hospital. No último dia 17, já intubada, com olhos amarelos e fígado e pâncreas totalmente comprometidos, Filomena morreu na UTI do Hospital Santa Isabel, em Blumenau.

Parte da dor da família pela perda de Filomena é ocupada pela indignação. Isso porque familiares questionam o atendimento que ela recebeu no Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Gaspar, onde passou quase todo o período de internação antes de morrer. Em coletiva na manhã de ontem, o filho da vítima, Frederico Campos da Silva, a esposa dele, Priscila Baptista Simas da Silva, e o marido de Filomena, José Carlos Pereira da Silva, questionaram pontos como o fato de a mulher ter sido medicada e liberada dois dias seguidos no pronto-socorro do hospital, mesmo informando os sintomas e a viagem feita dias antes a Mairiporã, que já lhes trazia uma suspeita de febre amarela.

Coletiva da família de Filomena Soares de Campos Silva, que morreu vítima de febre amarela em Gaspar
Foto: Jean Laurindo / Jornal de Santa Catarina

Somente no sábado, quatro dias após procurar pela primeira vez o local, é que ela acabou sendo internada. Durante o período de internação a família também se queixa de demora em exames, períodos sem médico no setor e principalmente por não ter sido informada que poderia se tratar de febre amarela – na maior parte do tempo o caso foi tratado como pancreatite e hepatite. Foi esta inclusive a causa que teria sido colocada no atestado de óbito. No dia 16, três dias depois, já com o quadro bastante grave, acabou sendo transferida para o Hospital Santa Isabel, em Blumenau, onde morreu no dia seguinte. Na última terça-feira, uma semana depois, a Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive-SC) divulgou o resultado do exame que confirmou o caso como a primeira morte por febre amarela no Estado. Como a doença foi contraída em São Paulo, o caso é considerado importado.

– A primeira indignação é pelo período em que ela ficou sem tratamento, sem o diagnóstico rápido, mesmo a gente informando que ela esteve em uma área de risco. Mas tem também a falha na triagem, a falta de médico na internação durante alguns períodos. Sinto que tiraram a chance que minha mãe tinha de lutar contra a doença – lamenta o filho.

A família ainda não decidiu se vai ou não mover alguma ação contra a instituição hospitalar, mas ao fim da entrevista fez um apelo por melhorias no atendimento do hospital e na rede de saúde para possíveis novos casos da doença que possam atingir moradores da região.

Prefeitura pretende verificar detalhes do atendimento

Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Gaspar, onde foi atendida a vítima de febre amarela em Gaspar
Foto: José Carlos Rocha / Arquivo pessoal

Desde maio de 2014, o hospital está sob intervenção da prefeitura. A secretária de Saúde de Gaspar, Maria Bernardete Tomazini, disse que o município foi informado apenas na terça-feira, dia 16, sobre a suspeita de febre amarela da paciente. No mesmo dia, foi feito o exame que nesta semana confirmou o caso como morte por febre amarela. Questionada se não houve demora para o hospital informar o caso, já que a paciente estava internada desde o sábado e havia procurado atendimento uma semana antes, a secretária informou que “não teria condições técnicas de avaliar” porque seria uma decisão do quadro de médicos do hospital. Ela afirmou que nos próximos 15 dias pretende verificar junto ao corpo clínico da unidade o que aconteceu nos dias que antecederam a notificação da suspeita de febre amarela em um procedimento administrativo.

A reportagem do Santa procurou o infectologista Ricardo Freitas, que é diretor-técnico do hospital, mas não obteve retorno até o fechamento da edição. Pela manhã, em entrevista à NSC TV, ele afirmou que os exames da paciente já eram muito ruins.

– Ela necessitava de cuidado mais intenso, foi transferida para o Hospital Santa Isabel, mas infelizmente não tinha condição clínica de fazer um transplante – afirmou.


Blumenau já aplicou mais de 2,2 mil doses contra febre amarela 

O caso de morte por febre amarela de Filomena, que morreu em um hospital de Blumenau, aumentou a corrida por vacinas contra a doença nas unidades blumenauenses. A imunização, vale lembrar, é indicada apenas para quem vai viajar para áreas de risco, como os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e um grupo de 162 cidades catarinenses – confira no site da Dive-SC (www.dive.sc.gov.br/febre-amarela). Até ontem, a cidade havia aplicado 2.246 doses. Muito além do número registrado em janeiro do ano passado, quando foram feitas apenas 36 imunizações. Em todo 2017, foram 7.482 doses aplicadas. Somente de segunda para terça-feira foram aplicadas 340 doses.

Para a gerente da Vigilância Epidemiológica, Rosana Benvenutti, esse número é fruto de muitas pessoas que não vão para as áreas de risco, mas mesmo assim procuram a vacina.

– A procura está sendo muito grande, mas não há necessidade dessa vacinação em massa. Acredito que a desinformação e o óbito na cidade vizinha, apesar de ser um caso importado, sempre geram medo, mas não há essa necessidade, a indicação de vacina é só para quem realmente vai viajar para essas regiões. Caso contrário é correr um risco desnecessário – conscientiza a gerente.

Em Blumenau, as vacinas são aplicadas nos sete ambulatórios gerais, somente até as 13h. Em Gaspar, ontem a prefeitura possuía apenas oito doses de vacinas contra febre amarela. Até ontem a cidade tinha feito 310 imunizações, mais que o dobro do registrado em todo o mês de janeiro do ano passado: 131. A imunização foi concentrada apenas na policlínica municipal, e um novo lote foi solicitado ao governo do Estado. 

Em SC, mais um caso, em Lajeado Grande, evoluiu para óbito e está sob investigação. O paciente também tinha histórico de viagem para São Paulo e é considerado um caso importado. Outros cinco casos suspeitos seguem em análise, nas cidades de Joinville, São José, Lages, Criciúma e Timbó. Nos últimos 10 anos, 204 casos suspeitos de febre amarela foram investigados, mas todos acabaram sendo descartados. 

Vigilância epidemiológica reforça alerta de que vacinação só é recomendada para quem vai viajar para áreas com risco da doença e para bebês de nove meses em todo o Estado.


Linha do tempo 

Dia 5, sexta-feira
A costureira Filomena Soares de Campos Silva, 57 anos, retornou da viagem que fez para visitar a família em Mairiporã, região metropolitana de São Paulo, e que este mês decretou estado de calamidade por causa do surto de febre amarela. Ela não tinha tomado a vacina e ficou no município desde 29 de dezembro.

Filomena Soares de Campos Silva, que morreu vítima de febre amarela em Gaspar
Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Dia 9, terça-feira
Após começar a sentir sintomas como dor de cabeça e enjoo, Filomena procurou o pronto-atendimento do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Gaspar. Segundo a família, o hospital foi informado já neste dia que ela esteve em uma cidade com epidemia de febre amarela. Ainda assim, ela recebeu apenas soro e medicação para os sintomas como a dor de cabeça. Não teria sido feito nem exame de sangue e ela foi liberada para ir para casa.

Dia 10, quarta
Ela continuou com os sintomas e procurou novamente o pronto-socorro do mesmo hospital. Ainda segundo a família, recebeu o mesmo atendimento e foi novamente liberada.

Dia 11, quinta
O marido de Filomena, José Carlos Pereira da Silva, levou a esposa para uma consulta particular com uma médica da cidade. Ela teria aconselhado que a família fizesse um exame de sangue para saber como estava o funcionamento do fígado e do pâncreas. Segundo a família, o exame foi feito no dia seguinte, sexta-feira, na policlínica de Gaspar, e constatou um resultado 25 vezes maior que o normal da função hepática.

Dia 13, sábado
Após pegarem o resultado do exame, a família alega ter procurado novamente o hospital de Gaspar por volta do meio-dia do sábado. Segundo eles, Filomena só conseguiu ser internada por volta das 17h. Durante o período de interação, a família se queixa ainda de alguns problemas como falta de médico na área de internação em alguns horários e demora para executar exames como o ultrassom, que só foi feito na segunda-feira.

Dia 16, terça
A prefeitura alega ter sido notificada pelo hospital e fez o exame para descobrir se o caso tratava-se de febre amarela. O estado da paciente passou de estável para gravíssimo e ela foi transferida no início da noite para o Hospital Santa Isabel, em Blumenau, onde morreu no dia seguinte, após 12 horas de internação.

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