Pesquisa aponta como os jovens catarinenses enxergam o aprendizado formal - Geral - Jornal de Santa Catarina

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O ensino que eles querem04/01/2018 | 09h06Atualizada em 04/01/2018 | 09h06

Pesquisa aponta como os jovens catarinenses enxergam o aprendizado formal

Mais de 3 mil jovens foram ouvidos. Eles também falaram sobre as necessidades de adequação aos novos tempos

Pesquisa aponta como os jovens catarinenses enxergam o aprendizado formal Leo Munhoz/Diário Catarinense
Nelson Matheus da Conceição, 19 anos, aluno do IFSC Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Nelson Matheus da Conceição, 19 anos, não sabe o que é tempo ocioso. Cursa o 3º semestre de Engenharia Elétrica no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e, apesar da pouca idade, já soma no currículo 14 cursos profissionalizantes, de eletricista predial de baixa tensão à Excel Descomplicado, quase todos feitos no Senai. É interessado, estudioso e ambicioso.

– Quero chegar aonde ninguém com uma história como a minha já chegou. Vou fazer doutorado, pós-doutorado e o que mais houver pela frente – diz, com a determinação de quem sabe que a educação faz toda a diferença na vida de alguém. Na dele, foi determinante.

Dos 13 aos 17 anos, Nelson morou na Casa-Lar Pai Herói, em São José, uma instituição que abriga menores que, por diferentes situações, não moram com a família. Em um turno, ele frequentava a escola regular, em escola pública. No outro, aos 14, passou a fazer também os cursos profissionalizantes, quase todos no Senai. Quando começou a trabalhar como menor aprendiz, mal sobrava tempo para dormir, mas ele não desistiu de seu plano de crescer por meio da educação.

Tanto esforço tem valido a pena. Hoje, Nelson é um dos 32 jovens embaixadores do Movimento Santa Catarina pela Educação, capitaneado pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) em conjunto com várias outras entidades públicas e privadas. O objetivo do movimento, criado em 2012, é mobilizar, articular e influenciar os setores econômicos e o poder público para melhorar a educação quanto a escolaridade, qualificação profissional e qualidade do ensino.

Os jovens embaixadores têm a responsabilidade de mobilizar os estudantes da sua região para a causa da melhoria da educação. Nelson é um dos embaixadores da Grande Florianópolis. Em setembro deste ano, eles fizeram sua principal ação até agora: o Workshop Conexão Jovem, com a participação de mais de 3,7 mil pessoas. O evento ocorreu simultaneamente em 16 cidades catarinenses. Os participantes, de todos os níveis de ensino, debateram propostas para tornar a educação mais atrativa, acompanharam discussões sobre o futuro e puderam opinar sobre o tema.

Para o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, os jovens, os principais interessados na educação, são pouco ouvidos, mas são muito conscientes da responsabilidade que têm pela melhoria da qualidade do ensino e terão papel importante para transformar o Brasil quando assumirem postos de gestão.

As conclusões do workshop foram elencadas em um documento intitulado O olhar dos jovens sobre a educação catarinense, lançado em meados de outubro e que está sendo disponibilizado para instituições responsáveis pela definição de políticas públicas na área da educação em Santa Catarina.

FAMÍLIAS DISTANTES E ESCOLAS SUCATEADAS

Aproximar a família da escola e conscientizá-la da importância de acompanhar a vida escolar dos filhos é uma das reivindicações dos jovens. Ou seja, eles sentem falta de uma participação mais ativa dos pais no dia a dia escolar. Nelson, o jovem estudioso, sentia muito essa carência no tempo em que vivia na Casa-lar. Os verbos estão escritos no pretérito porque isso também mudou na vida dele. Foi na escola que Nelson conheceu o professor de filosofia Adão de Souza e logo nasceu uma empatia muito grande entre eles. Adão e o seu companheiro queriam muito ter um filho. Não tardou para se encantarem com o garoto, tranquilo, dedicado e focado. Depois de um tempo de convivência, adotaram o garoto legalmente. E ele pôde, enfim, realizar outros sonhos que acalentava, como ter uma família.

A participação dos pais na vida escolar do filho é fundamental, na opinião de Nelson.

– Se ele não encontra respaldo em casa, se a família não está interessada em seu desempenho, ele não vai ficar motivado – conclui.

Gabriel Lemke, 18 anos, cursa o 1 semestre de Direito na Universidade Católica, em Jaraguá do Sul, e é um dos jovens embaixadores da Educação no Vale do Itapocu, no Norte do Estado. Ele sempre estudou em escola particular, e com o ensino médio cursou Mecatrônica no Senai. Acredita que a educação depende mais do próprio aluno do que dos professores e da escola. Quanto aos professores, Gabriel acredita que eles vivem hoje um período de transição entre o passado e o futuro.

- É preciso preparar e capacitar os professores para os novos tempos, para usar as novas tecnologias que hoje estão à disposição da educação. Também é preciso equipar melhor as escolas, especialmente as públicas, que estão muito defasadas. Quando a aula é monótona, o aluno não presta muita atenção, mas quando é boa, dinâmica, interessante, ele guarda para sempre na memória o que aprendeu - explica.

EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA

Os jovens querem uma educação moderna e que faça sentido. É isso o que pensa Luana Laurentino, 22, que mora em Lages e está na 8 fase do curso de Engenharia Civil da Uniplac. Ela ingressou em 2015 no Movimento Todos Pela Educação, tornando-se jovem embaixadora pela região da Associação dos Municípios da Região Serrana (Amures). Estudou em escolas municipais, estaduais e depois foi bolsista no Senai. Em 2011 ficou em 1 lugar, a nível nacional, em um prêmio onde estudantes de todo o Brasil debateram sobre meio ambiente. No ano seguinte, recebeu honra ao mérito, no mesmo concurso, ao debater sobre educação e liderança.

– O que o jovem quer da educação? Que ela seja transformadora. A forma de transmitir os conteúdos, na maioria das escolas, ainda é do século 19, enquanto os alunos são do século 21. Isto só pode mesmo gerar conflito. Não dá mais para termos metodologias engessadas, com alunos da era digital. O aluno quer ter conteúdos que tenham a ver com a sua vida, a educação tem que ter significado, tem que estar ligada à pratica do dia a dia – diz, com convicção.

Natalia Pruner, por sua vez, acaba de completar 17 anos e está terminando o 2 ano do Ensino Médio, em um colégio particular de Brusque. Ela acredita que um dos maiores problemas na educação hoje é a falta de investimento, tanto em estrutura quanto em capacitação.

- Na escola particular a situação é um pouco melhor, mas nas escolas públicas os problemas são muitos. Não dá para entender o porquê quando tem que cortar investimentos, eles cortam justamente na educação, que é a base de tudo, a mais importante - questiona Natália, também embaixadora do Movimento pela Educação.

ESCOLA SEM MUROS

De acordo com diagnóstico realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os resultados insuficientes dos estudantes, a baixa qualidade da formação dos professores, currículos extensos e que não oferecem atividades práticas, poucos cursos com aprofundamento da formação da educação infantil e no ciclo da alfabetização, estágios curriculares sem planejamento e sem vinculação clara com as escolas são alguns dos fatores que afetam a qualidade do professor.

A formação adequada do docente também é um desafio no Brasil. Apenas 50% dos professores de matemática, por exemplo, têm formação adequada para lecionar nos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. Em língua portuguesa, pouco mais de 47%. O Ministério da Educação está revendo a política nacional de formação de professores, e uma das metas é ampliar, por meio do programa Universidade Aberta, a oferta de vagas em cursos de licenciatura (são 250 mil vagas em 2017 e 2018).

Muitas vezes, porém, a criatividade do professor em sala de aula e a vontade de atrair a atenção dos alunos é mais importante do que equipamentos e formação. Foi  o que ocorreu, por exemplo, nas aulas da professora Josiane Mendes Bezerra, da EEB Maria Rita Flor, de Bombinhas. Seu projeto foi tão bom que ela é uma das finalistas do Prêmio Professores do Brasil, cujo resultado será divulgado agora em dezembro.

Josiane desenvolveu o projeto Fazendo e acontecendo: pesca artesanal da tainha. Com o formato de escola viva, os alunos aprenderam sobre o tema por meio dos saberes da tradição local. Na primeira etapa, visitaram ranchos de pesca artesanal e interagiram com os pescadores. Na segunda etapa, de pesquisa técnico-científica, compuseram 12 pôsteres, e em cada um foi contada a história da pesca da tainha e suas tradições. Depois, os pescadores foram homenageados com uma releitura do curta-metragem Antes do Inferno, dedicado à pesca da tainha.

- O aprendizado dos alunos deu-se a partir dos laços que eles desenvolveram com a comunidade local. O meu aprendizado foi a escola sem muros, que permite a interação do conhecimento entre a comunidade e os alunos - destaca a professora.

10 PROPOSIÇÕES DOS JOVENS DE SC PARA A EDUCAÇÃO

Do total de participantes do Workshop Conexão Jovem, do  Movimento Santa Catarina pela Educação, 2.628 jovens (69,5%) participaram da pesquisa, sendo que 87% estudam ou estudaram em escolas da rede pública de ensino na maior parte da vida escolar. 

1. Aproximar a família da escola e conscientizá-la da importância de acompanhar a vida escolar dos filhos

2. Repensar a forma como as aulas são dadas, preparar melhor os professores e atribuir sentido ao que está sendo aprendido

3. Valorizar a atuação dos professores, principalmente pelo uso de técnicas e ferramentas que facilitam o entendimento do conteúdo, além de criar um clima favorável ao aprendizado

4. Realizar práticas pedagógicas que estimulem a participação dos alunos e assegurar adequada infraestrutura são condições para um aprendizado eficaz

5. Priorizar as práticas pedagógicas que trabalhem por meio de projetos com foco na resolução de problemas; fazer uso de tecnologias e metodologias inovadoras; promover a interação entre alunos e comunidade, tendo o professor como mediador

6. Inserir no processo de ensino e aprendizagem estratégias e práticas para o desenvolvimento das competências socioemocionais requeridas pelo mundo do trabalho e necessárias ao desenvolvimento pessoal para a formação de bons profissionais e bons cidadãos

7. Incluir na matriz curricular temas que desenvolvam a criatividade e a capacidade de inovar visando estimular o raciocínio

8. Orientar os jovens sobre a importância da educação profissional técnica de nível médio em relação à preparação para o mundo do trabalho

9. Possibilitar aos jovens, no ambiente escolar, orientação para perceber os diversos percursos educacionais e profissionais para melhor preparação ao mundo do trabalho e construção de projeto de vida

10. Oferecer aos jovens oportunidade de aprender sobre empreendedorismo, gestão, liderança, bem-estar e qualidade de vida, profissões do futuro, processos criativos e educação financeira

Acompanhe as publicações de Viviane Bevilacqua no NSC Total

 

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