Catarinenses semeiam boas ações com empreendedorismo para fortalecer comunidades na África - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Solidariedade18/02/2018 | 09h39Atualizada em 18/02/2018 | 09h39

Catarinenses semeiam boas ações com empreendedorismo para fortalecer comunidades na África

Jovens assumem iniciativas para cumprir Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e causam impacto em populações empobrecidas

Ângela Bastos

Yuri Kuzniecow, 23 anos, nasceu em Imbituba. Pedro Casali, 23 anos, é de Joinville. Maira Cristina, 30 anos, nascida em São Miguel do Oeste, e moradora de Florianópolis. Neste domingo, os três se encontram nos altos das montanhas de Uganda, na África, articulando os próximos passos de um projeto social com o potencial de transformar a tribo Acholi, da região de Kitgum, norte daquele país.

Essa tribo foi uma das mais afetadas pela ação de Joseph Kony, líder de um exército rebelde que recrutava crianças para se tornarem soldados ou até escravos sexuais.

O plano dos catarinenses é trabalhar com empoderamento social para inspirar, treinar e engajar os moradores a construírem uma comunidade melhor e apagar, assim, as marcas deixadas por Kony e seu exército. Yuri, Pedro e Maira são jovens que abriram mão do conforto em família para direcionar energias em campanhas humanitárias pautadas nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

A ideia é estabelecer conexão entre desafios da humanidade – acabar com a fome e a pobreza em todos os lugares, disponibilizar água e saneamento a todos, promover sociedades pacíficas, entre outros – com ações simples que pessoas comuns consigam implementar.

Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia. Pedro Casali (segurando a bandeira do Brasil)Maira Cristina (com a bandeira de SC)
Yuri (segundo, da esquerda para a direita), Maira (ao centro) e Pedro (à direita) fazem parte de startup social que ajuda a resolver problemas de comunidades como a tribo Acholi, em UgandaFoto: Tucker Cocchiarella / Arquivo Pessoal

Para isso, os jovens criaram a startup social InSpark Lab. A iniciativa, já levada a Marrocos, Egito e Quênia, seguirá de Uganda para Congo, Tanzânia, Índia, Nepal, Butão, Vietnã e outros destinos ainda indefinidos. 

A InSpark tem uma equipe de cinco membros efetivos, contando com Tucker Cochicarella (americano, gestor de mídias e cofundador do projeto com Yuri) e Mwongera (nome africano de Kilian Bartsch, alemão que pesquisa novas tecnologias de inovação social).

Pedro e Maira integraram o grupo no início de fevereiro, assumindo as funções de estratégia/desenvolvimento de negócio e gestão de resultados, respectivamente. Para tornar os ODS realidade, os jovens procuram integrar um conjunto de soluções que ajudem a comunidade a partir das suas necessidades. 

Assim, os objetivos da ONU que parecem de complexa resolução se concretizam com medidas simples, como energias renováveis, reciclagem, agricultura compartilhada e permacultura para criar modelos de negócio social que sejam sustentáveis e se adequem às demandas e particularidades de cada comunidade.

 Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia
Aproximação do grupo com as comunidades permite ensiná-las a simplificar medidas para combater a fome e criar negócios sustentáveisFoto: . / Arquivo Pessoal

Soluções feitas pelos próprios moradores

O propósito da InSpark é facilitar o desenvolvimento de modelos de baixo custo com potencial de impacto social por meio dos próprios moradores das comunidades.

– A equipe trabalha com uma principal ferramenta: o empoderamento social. A função fundamental da organização é a de facilitar o desenvolvimento dessas iniciativas, mas os protagonistas vêm da própria comunidade – explica Yuri Kuzniecow, estudante de engenharia.

A criação e gestão das soluções geradas são feitas pelos próprios moradores, que usam conhecimentos, referências e técnicas trazidas pela equipe da InSpark como forma de acelerar o progresso. A startup funciona como laboratório de transformação social, experimentando diferentes maneiras de mudar o mundo de dentro para fora.

– Para a gente, não existem comunidades pobres, só comunidades que ainda não enxergaram o potencial dos recursos que possuem. O nosso trabalho se resume a abrir os olhos dessas comunidades e acelerar uma melhor gestão de recursos – afirma Yuri.

 Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia
Foco dos jovens está no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONUFoto: Tucker Cocchiarella / Arquivo Pessoal

As experiências passam por campos de refugiados, comunidades carentes, tribos, vilarejos e áreas de conflito. As iniciativas são tomadas com o intuito de encorajar a mudança e assegurar a transformação. Durante os últimos quatro meses, as aventuras passaram por etapas como o contato com um campo de refugiados clandestino no norte do Marrocos, a história de uma deficiente física na luta contra a desigualdade de gênero no mundo árabe ou até mesmo um experimento social de inversão de papéis, no qual eles se passaram por moradores de rua nas avenidas de Cairo, no Egito.

O mais recente e relevante dos projetos foi realizado na comunidade de Muchatha, na periferia de Nairobi, Quênia, com o objetivo de erradicar a fome de um estado inteiro nos próximos anos.

– É uma inversão da ideia de que populações da África subsaariana, por exemplo, precisam de dinheiro e que se faça algo por eles. Na verdade, o capital humano que eles têm na comunidade é suficiente para catalisar as transformações necessárias. Além do impacto presencial, a experiência é compartilhada nas redes sociais como forma de despertar em outras pessoas a vontade de fazer algo parecido.

 Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia
Foto: . / Arquivo Pessoal

Ajuda a próprio custo

O projeto propõe as primeiras viagens e missões até o final de 2018. No retorno ao Brasil, o objetivo é aplicar o aprendizado de transformação social em lugares onde houver demandas.

– Não temos vinculação político-partidária. Somos jovens empreendedores e estamos bancando as despesas do próprio bolso, por enquanto, pelo amor à camisa – defende Yuri Kuzniecow.

Ele está viajando o mundo por conta própria há mais de um ano, dando aulas de tênis, surf e trabalhando em hostels para levantar economias. Pedro Casali, que prepara o trabalho de conclusão de curso em Engenharia de Automação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), guardou economias de estágios e intercâmbio.

– É uma oportunidade incrível poder trabalhar com algumas das comunidades mais pobres do mundo e ajudar a erradicar a fome e a miséria. Mas meu objetivo principal é aprender para voltar ao Brasil e replicar essas soluções – projeta Pedro.

Maira Cristina atuou como engenheira eletricista por seis anos, guardou dinheiro, pediu demissão, quando decidiu se juntar ao projeto. Diferentemente de Yuri e Pedro, que já tinham trabalhado juntos no Movimento Empresa Júnior, Maira tomou a decisão quando viu o trabalho nas redes sociais:

– Queria viajar pelo mundo para aprender com experiências e fazer trabalhos sociais que impactassem positivamente a vida das pessoas à minha volta.

 Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia
Foto: . / Arquivo Pessoal

"Quero ser fagulhas de transformação"

Yuri Kuzniecow, cofundador do projeto, reconhece que sempre teve uma vida boa. Incentivado pelos pais, praticou esportes, viajou, conheceu pessoas, lugares, fez intercâmbio. Começou a se envolver com questões sociais por meio de um grupo filantrópico ainda adolescente. 

Entrou para Medicina, na Unisul, com vontade de ser médico de família. Desistiu quando, mais próximo da profissão, percebeu que a realidade era diferente do imaginado. Por influência do pai, engenheiro, cursou Produção Mecânica, na UFSC. Mais tarde, ficaria desmotivado. Mas atividades extracurriculares o colocariam no caminho do Movimento Empresa Júnior. Em 2016, em Florianópolis, foi um dos coordenadores da Conferência Mundial de Empresas Juniores. A troca de experiências o fez pensar:

– Depois do evento, fiz um PowerPoint para os meus pais e projetei na TV o meu sonho: uma viagem de volta ao mundo para crescer pessoalmente e descobrir novos horizontes. Não pedi permissão, mas bênção.

 Catarinenses na àfricaFotos de Tucker Cocchiarella/especial pra Ângela Bastos/Diario CatarinenseYuri Kuzniecow, de Imbituba, pegando uma carona no Quênia
Foto: . / Arquivo Pessoal

Entre dificuldades e compensações

Yuri estava na Costa Rica quando conheceu outro jovem, o estadunidense Tucker Cocchiarella. Descobriram que tinham o mesmo anseio de fazer algo pela humanidade e montaram o projeto originalmente batizado de Tales4Change, que evoluiu para a criação da InSpark.

– É audacioso fazer o que estamos tentando, que para mim significa lançar fagulhas que gerem transformação no mundo – diz Yuri.

O que é bonito também tem lá seu lado mais difícil. Foram quase presos: duas vezes no Marrocos, ao tentar entrar num campo de refugiados clandestinos (que seria bom para as pessoas, mas não para a imagem do governo perante a situação); e no 

Egito, na luta pela liberdade de expressão, onde jornalistas são torturados e desaparecem com relativa frequência.

– São os riscos da nossa operação. Reflexo de uma triste realidade em diferentes partes do mundo. Mas com compensações. Em Muchatha, por exemplo, que tem potencial de erradicar a fome, facilitaram o registro de uma cooperativa com o objetivo de transformar a vida de milhares de pessoas – reconhece Yuri.

O jovem afirma que os pais apoiam e sentem orgulho em vê-lo fazendo algo de positivo, mas também preocupados por saber que está morando em favelas, entre refugiados ou em lugares aonde o governo brasileiro às vezes aconselha a não ir.

– Fazemos contato permanente. Um dia, a mãe me ligou 17 vezes – conta, rindo. 

Yuri diz ver a viagem como uma jornada de peregrinação do bem, com o objetivo de provar a teoria de que as verdadeiras transformações só podem acontecer de dentro para fora, com o aprendizado como maior princípio.

– É lógico que fazemos a diferença por onde passamos, mas estamos aprendendo muito. Quando o projeto encerrar e voltarmos para nossas cidades, estaremos bem mais preparados para colocar em prática essas ações de empreendedorismo social.

Saiba mais:

Clique aqui e conheça mais sobre a InSpark Lab ou acompanhe o canal no Youtube 


 

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