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Comportamento19/02/2018 | 06h09Atualizada em 19/02/2018 | 06h09

Mulheres representam 11,8% dos trabalhadores na construção em Joinville

Setor da construção civil, tradicionalmente dominado por homens, ganha o olhar e o toque femininos na cidade, onde elas representam 11,8% da força de trabalho

Mulheres representam 11,8% dos trabalhadores na construção em Joinville Salmo Duarte/A Notícia
Talita (D) e Nicole são exemplos de mulheres no gerenciamento de obras em Joinville Foto: Salmo Duarte / A Notícia

O ramo da construção civil, tradicionalmente marcado pela dominância do universo masculino, vivencia um novo momento em Santa Catarina com a consolidação e o aumento da participação feminina nos cargos de liderança e nos canteiros de obra. Essa realidade é comprovada pelos números e se expande ano a ano no Estado, em especial em Joinville, onde a presença da mulher no setor supera a média estadual.

Na cidade, elas representam 11,8% do total de empregados na construção civil, acima dos 9,7% de representação que as mulheres têm em território catarinense – como aponta o último dado da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), de 2016. Os dois percentuais apontam ganho de espaço feminino na profissão quando comparados ao início da década, em 2011, quando a média de participação na área era de 10% no município e 8% no Estado.

Mesmo com o avanço proporcional delas entre os profissionais atuando no setor, houve redução no quadro de empregados na construção civil, situação advinda entre 2015 e 2016 em decorrência da instabilidade econômica. Ainda em baixa no saldo total de empregos em 2017, entre as mulheres o saldo no ano foi positivo. 


Foram 1.130 postos de trabalho fechados para homens, contra 204 novas vagas abertas para mulheres nos 295 municípios catarinenses. Já das vagas joinvilenses em regime de CLT, a área teve queda de 46 ocupações masculinas e ganho de 27 vagas femininas no período, conforme a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).

Para a vice-presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil (Sinduscon) de Joinville, Ana Rita Vieira – que também atua no setor –, essa evolução demonstra que não existe uma diferença do que o homem pode fazer e o que uma mulher pode fazer dentro de um canteiro de obras. A máxima é que a profissão não é seletiva e tem espaço para todos, independentemente de gênero e, conforme ela, o que ocorre é uma ampliação da participação feminina em cargos antes não explorados.

— Muitas obras em Joinville são lideradas por mulheres; temos engenheiras à frente das obras e na operação. Há ainda muitas nos cargos ligados ao acabamento, o que é muito positivo, porque a mulher é detalhista e isso melhora muito a qualidade final dos produtos da construção — aponta.

Ela considera também que a consolidação da presença feminina na construção civil é um movimento gradativo, que acontece paralelamente a outros fatores. São listados como influenciadores, por exemplo, a desmistificação da ideia de que hoje a função ainda exige força para ser exercida.

— Atualmente, existem várias tecnologias e equipamentos e nem todo serviço dentro de uma obra requer tanta força. Esses equipamentos já auxiliam muito, por exemplo, a assentar cerâmica, em que a massa de assentamento era batida na mão e agora há uma espécie de batedeira elétrica. Outros benefícios são a qualidade de vida nos canteiros de obra, que melhoraram muito, além da existência de vestiários exclusivos nesses locais. Então, condições como essas ajudam a tornar o ambiente mais propício as mulheres — destaca.

Salário médio das mulheres é maior

O último levantamento do Observatório da Indústria Catarinense, da Fiesc, sobre a participação das mulheres na construção civil, mostra que, em Joinville, o salário médio das profissionais da área é maior do que o pago aos homens: R$ 2.161, ante R$ 1.948. Um dos principais fatores que corroboram para a diferença é a escolaridade dos trabalhadores, também proporcionalmente maior entre as contratadas: 79,4% delas possuem ensino básico completo no município, e eles, 54,9%. 

De acordo com a Fiesc, a diferença do nível de escolaridade é ainda maior quando considerada a participação das escolarizadas que têm nível superior incompleto ou completo, compreendendo 31,3% das trabalhadoras do setor em Joinville e apenas 5,34% dos homens. 

 JOINVILLE,SC,BRASIL,14-02-2018.Mulheres na construção civil em Joinville.Renata Baggio,diretora comercial.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)
Renata Baggio, 31 anos, negocia os empreendimentos lançadosFoto: Salmo Duarte / A Notícia

Quem são as mulheres que atuam no setor

Desde pequena, a joinvilense Talita Ketly Marcelino sabia a carreira que iria seguir quando adulta. Seguindo os passos do pai Adenilson Marcelino, a jovem de 24 anos realizou no ano passado a conquista de se formar na mesma profissão que ele, a de engenheira civil. Hoje, menos de um ano depois de formada, já tem nas mãos o desafio de comandar a execução de duas obras e liderar mais de 30 pessoas.

Ela é um dos inúmeros exemplos de que na construção civil não existe sexo frágil. Mesmo sem deixar a vaidade de lado, no dia a dia ela coloca os sapatos de segurança, capacete e segue para a função de por em pé dois empreendimentos no bairro América. Ambos saem do papel a partir da gestão in loco da gerente de obras. 

Para crescer no setor, onde começou como estagiária há dois anos, a jovem aponta que as qualidades pessoais e profissionais fizeram a diferença e que as questões de gênero são deixadas de lado.

— Acredito que o que pode dar certo na carreira de uma pessoa não é a atividade que terá que exercer, se é predominantemente masculina, mas é ela conhecer as suas qualidades. A engenheira civil, na construção de obras precisa ter liderança  — aponta.

Em Joinville, o mercado está consolidado

Colega de Talita, a engenheira Nicole Maisa Diedrich Froelich lidera outras cerca de 35 pessoas em uma obra de alto padrão prevista para ser entregue em julho deste ano. Vinda de Rio Negrinho, onde começou a carreira há quase quatro anos, ela afirma que é perceptível a evolução da participação feminina no mercado.

— Até nas universidades a participação das mulheres está quase maior do que a proporção de homens, então elas estão em crescimento constante no mercado da construção civil. Quando eu comecei, em Rio Negrinho, fui uma das primeiras estagiárias naquela empresa e o pessoal até estranhava, mas ajudava. Isso fez com que eu aprendesse mais e quando mudei para Joinville, percebi que na cidade a situação da mulher na construção civil é bem diferente, o mercado já está mais consolidado.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,16-02-2018.mulheres na construção civil,Marina Zanini,engenheira civil.(Foto:Rogga/Divugação)
Marina Zanini, 27 anos, já liderou equipes de até 150 funcionáriosFoto: Rogga / A Notícia

Liderança não apenas nos canteiros de obra

A liderança da mulher não se resume só aos canteiros de obra, mas também nos escritórios das empreiteiras. A administradora Renata Baggio, 31 anos, se envolveu com o ramo da construção há cerca de sete anos e aos 27 conseguiu chegar ao cargo de diretora comercial na Incorposul, empresa com atuação no ramo da construção civil em Joinville. É dela a missão de negociar os empreendimentos lançados pela empresa, além de participar da concepção dos projetos junto aos engenheiros dos projetos.

— Apesar do cargo administrativo, é necessário ter conhecimento na área e conhecer a obra. Tenho que acompanhar a concepção do projeto junto aos arquitetos para poder chegar ao cliente e negociar os imóveis. Então, a gente (do comercial) é que orienta o que está vendendo, qual é a tendência de mercado, a procura dos clientes e com isso ajuda a fazer os apontamentos que o projeto deve ter — revela.

Na Rôgga Empreendimentos, outra construtora da região, os cargos de liderança em grandes obras também passam pela atuação feminina. Uma das referências é a joinvilense Marina Zanini, que aos 27 anos chefiou a obra do Bali Beach Home Club, considerado o maior empreendimento imobiliário de Balneário Piçarras. A obra, foi a terceira em que a profissional participou como engenheira-chefe na empresa. Ao todo, ela foi responsável por coordenar o trabalho que teve picos de até 150 operários.

Em outras duas empresas com atuação na cidade, o quadro de mulheres também tem reflexo importante. Na GBF Construtora, que mantém em Joinville dois dos seus nove empreendimentos em construção, três engenheiras (metade do total) são responsáveis pelas obras. Na Construtora e Incorporadora Correia, outras 28 mulheres estão empregadas em diversas funções do ramo.

Nas faculdades, média é a mesma na última década

As universidades joinvilenses que oferecem os cursos de engenharia civil destacam que, atualmente, a proporção de alunas varia de 40% a 50% do total de alunos nos cursos superiores do município. A média é a mesma do início da década. Na Universidade da Região de Joinville (Univille), o curso especializado na área foi aberto em 2013 com 45 vagas, 18 delas preenchidas por mulheres. 

Essa tendência se manteve e, em 2017, dos 151 alunos matriculados no curso, 58 vagas eram compostas por pessoas do gênero feminino, número considerado expressivo pela universidade. Na Católica de Santa Catarina, a metade dos alunos que entram no curso são mulheres.

De acordo com a coordenadora da engenharia civil da Católica, Helena Ravache Samy Pereira, a avaliação é de que o mercado está considerando a competência e a formação dos profissionais. Em contrapartida, segundo ela, o que tem ajudado as mulheres a ganharem espaço no setor é a oportunidade que elas estão tendo de se desenvolverem profissionalmente dentro das construtoras.

— Quando me formei há 20 anos era uma realidade diferente porque não havia chance de mostrar competência. O que percebo é que muitas alunas conseguem se destacar rápido ao iniciarem como estagiárias e logo são chamadas para atuarem como mestres de obras.

Em busca desse caminho estão Larissa Avancini, de 18 anos, que faz o curso de engenharia civil na Católica, e Mariana Braga, de 23 anos, recém-formada em engenharia de infraestrutura na UFSC.

As duas ingressaram recentemente como estagiária e auxiliar de engenharia na construção de um edifício, em que o tíquete médio de venda é de R$ 750 mil. Segundo elas, o começo a carreira já em uma grande obra reflete a abertura de horizontes para as mulheres no ramo da construção deve se traduzir em novas e constantes oportunidades.

— É gratificante ingressar nesse momento porque tiramos as ideias do papel, exercemos a liderança e começamos a concretizar os objetivos que traçamos — diz Mariana.

 

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