As discussões que precisam ser feitas no Dia da Mulher - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Especial08/03/2018 | 07h40Atualizada em 08/03/2018 | 09h13

As discussões que precisam ser feitas no Dia da Mulher

Com mais doenças do aparelho circulatório, discrepância salarial no comparativo com os homens no mercado de trabalho e o crescimento dos registros de violência, dia deve ser mais de reflexão do que celebração

As discussões que precisam ser feitas no Dia da Mulher Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Marli Wiscyocyk denunciou a violência que sofreu do marido Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

 As mensagens de carinho vistas hoje, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, representam a importância delas na sociedade. Mais do que celebrar, o dia de homenagens deve servir de reflexão para o que elas passam no dia a dia. Ao longo de décadas, os rostos femininos têm buscado um espaço justo nas mais diversas áreas. Em Santa Catarina, elas marcam presença em 45% dos postos de trabalho formais, mas ainda recebem menos que os homens. Na saúde, encaram problemas como acidente vascular cerebral e infarto mais do que o câncer de mama, tido popularmente como a principal patologia feminina. E pior: vivem assombradas por um inimigo íntimo chamado violência. No ano passado, 15 mulheres foram agredidas por dia, em média, no Vale do Itajaí.

O cenário demonstra o quanto ainda é preciso avançar na direção da igualdade. Para a professora e mestre em Gestão de Políticas Públicas, Queila Jaqueline Nunes Martins, houve avanços expressivos nos últimos anos, mas ainda é necessária uma mudança cultural para que haja equilíbrio nas relações entre homens e mulheres.

– As leis e as políticas públicas já existem para dar igualdade de condições. É preciso agora um trabalho cultural para que estas sejam efetivas. Não cabem mais na nossa sociedade essas diferenças – afirma Queila.

A integrante do movimento 8M em Blumenau, Luciane D’Avila, diz que a data não é para comemorar. Embora reconheça que houve alguns avanços recentes, ela defende que o momento é de debate sobre o que pode ser feito para mudar a realidade da mulher e impedir retrocessos. Um trabalho que, segundo Luciane, passa por promover uma discussão de gênero nas escolas, cobrar uma delegacia da mulher mais qualificada e incluir os homens nas discussões.

– Este dia deve servir para denunciar essa desigualdade e promover uma agenda única – reforça Luciane. 

Elas ainda ganham menos

 Em Santa Catarina, 45% dos postos formais de trabalho são ocupados por mulheres, mas elas recebem 20% a menos do que os homens. Os números são do Boletim Temático da Secretaria de Estado da Assistência Social, Trabalho e Habitação de 2017. Os dados do Sistema de Informações Gerenciais e de Apoio à Decisão da Furb corroboram a discrepância salarial entre os dois gêneros. Segundo o levantamento, em 2005 uma mulher com ensino superior recebia em média R$ 1.676,17 ao mês em Blumenau, enquanto um homem tinha o salário médio de R$ 2.719,03. Atualmente a diferença é menor, mas ainda expressiva, chegando a 46%. Isso porque em 2015 um homem com graduação recebia cerca de R$ 5.457,25 por mês e uma mulher R$ 3.737,51.

 Blumenau - SC - Brasil - 05032018 - Carolina Schmitt case sobre mulheres no mercado de trabalho.
Karolina Schmitt faz parte de um setor onde a presença feminina está crescendoFoto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Segundo o IBGE, elas são maioria em áreas como administração pública, educação e saúde em Blumenau, mas avançam cada vez mais em áreas predominantemente masculinas. É o caso da Karolina Ferreira dos Santos Schmitt. A jovem de 23 anos é a única mulher em uma sala repleta de homens. Um cenário que não a assusta. Formada em design de jogos, ela conta que desde a faculdade foi assim. Eram cerca de 40 alunos na turma e apenas cinco meninas, das quais apenas ela concluiu o curso no período regular.

Karolina faz parte de um setor onde a presença feminina está crescendo. Segundo levantamento da Furb, de 2005 para 2015, o avanço foi de 13,6%. Antes dela, o cargo que ocupa de game designer em uma empresa de Blumenau havia sido ocupado apenas por homens.

– Sempre tive interesse em trabalhar com coisas criativas e gosto bastante de jogos, então minha decisão foi pautada nesses fatores. A questão de ser uma área onde a maioria é homens nunca me preocupou.

O advogado trabalhista Paulo Eduardo Araújo Winkler avalia que avanços como de Karolina ainda são tímidos e passam por uma mudança cultural. Para ele, atualmente muitas empresas optam por contratar e dar cargos importantes a homens porque não precisam lidar com questões como, por exemplo, licença-maternidade. Com cerca de 20 anos atuando com sindicatos, Winkler aponta outros desafios enfrentados pelas mulheres:

– Elas sofrem muito com casos de assédio moral e sexual. Além disso, as recentes mudanças na legislação trabalhista tiraram delas direitos importantes como o intervalo de 15 minutos antes de iniciar hora extra e agora também permite que gestantes e lactantes trabalhem em ambiente insalubre de grau leve e médio. 

Reflexos na saúde

 Os reflexos da busca por igualdade se apresentam na saúde delas. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) demonstram que no ano passado a principal causa de internação feminina foi doenças do aparelho circulatório, como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto, chegando a 1.128 casos em 2017. Em 2007, os mesmos problemas lideraram a principal causa de internação feminina. Casos de câncer de mama e colo de útero, popularmente tidos como principais doenças a afetarem as mulheres, aparecem em terceiro lugar, com 1.031 internações no ano que passou.

 Blumenau - SC - Brasil - 06032018 - Kaetrin Larissa case do especial sobre mulheres.
Kaetrin Larissa se recupera de um AVC sofrido no fim do ano passadoFoto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

O neurologista Guilherme Mendonça explica que doenças como o AVC têm origem em fatores modificáveis e não modificáveis. Entre os modificáveis estão estresse, diabetes e hipertensão, problemas desenvolvidos por muitas mulheres quando ingressam em um mercado de trabalho desgastante. Essa foi a realidade que atingiu em cheio a supervisora de uma fábrica em Timbó. Kaetrin Larissa, 39 anos, teve um AVC no fim do ano passado. Segundo ela, reflexo de uma rotina de trabalho estressante, onde precisava diariamente comprovar a sua capacidade liderando uma equipe de 12 pessoas. As sequelas do AVC ainda são perceptíveis e exigem sessões semanais com a fonoaudióloga para recuperar a fala. A previsão de retornar ao trabalho é no próximo mês.

– Quando voltar tenho que ir com mais calma – diz Kaetrin, ciente de que precisa reduzir a intensidade da rotina.

Para a coordenadora de Política de Saúde da Mulher em Blumenau, Joslaine Rafaela Menegazzo, esse cenário é resultado do estilo de vida da mulher atualmente e o poder público trabalha para desmistificar o senso comum. Ela diz que cada vez mais as unidades de saúde estão voltando suas ações à promoção da qualidade de vida, com grupos de atividades físicas e orientação sobre como se cuidar adequadamente.

– As mulheres têm que cuidar dos filhos, da casa, do trabalho. Como consequência dessa jornada sobrecarregada, elas têm menos tempo para cuidar de si e acabam sofrendo com problemas como hipertensão, que está muito atrelado ao ACV – explica, na defesa da necessidade de reduzir fatores estressantes para reverter os índices de doenças do sistema circulatório. 

Ampliando a proteção

 Para Aretuza Larroyd, da coordenadoria Estadual da Mulher, um passo importante para combater violência contra a mulher é a criação dos conselhos municipais de Direitos da Mulher e de secretarias ou coordenadorias municipais voltadas ao público feminino. Conforme a coordenadora, apenas 32 cidades de Santa Catarina contam com conselhos e sete com secretarias ou coordenadorias municipais para mulher. No Vale do Itajaí, estruturas semelhantes existem apenas em Balneário Camboriú e Itajaí, segundo Aretuza.

Ela defende que esses mecanismos implantados nas cidades e plenamente ativos será possível combater a violência contra as mulheres. O Sistema Integrado de Segurança Pública de Santa Catarina apresenta dados alarmantes. No Vale do Itajaí, ao longo do último ano, foram registrados 5.663 casos de agressão contra mulheres. Uma média de 15 por dia. No mesmo período foram contabilizados 785 estupros e 24 feminicídios. Uma realidade que deixa marcas além do corpo das vítimas.

Aos 51 anos, só agora Marli Wiscyocyk Daver consegue falar sobre o que passou por anos na convivência com o ex-marido. Segundo ela, uma violência física e psicológica que não foi enfrentada e denunciada por inúmeros fatores, entre eles o medo de não conseguir criar os filhos. Um trauma que até hoje exige terapia.

– Ele me humilhava, me agredia, mas nunca contei para ninguém, por vergonha e porque sou de um tempo em que a gente foi criada sabendo que casamento era pra sempre, independente de qualquer coisa – relata emocionada, ao afirmar que essa é uma realidade inadmissível.

Para tornar as mulheres mais cientes de seus direitos, Aretuza conta que têm sido intensificadas as ações de orientação. Ao longo de 2017, 119 municípios de Santa Catarina participaram da campanha Viver Sem Violência. Um trabalho que, segundo a coordenadora, traz avanços no combate à violência e encoraja a denúncia.

– As mulheres são guerreiras, não devem se submeter à violência, pois nada justifica – diz Marli.

Em Blumenau, o programa Rede Catarina, da Polícia Militar, foi lançado em novembro do ano passado e até fevereiro já atendia cerca de 70 mulheres, com rondas periódicas para verificar se o agressor não está se aproximando da vítima ou se a mulher precisa de alguma assistência. Além disso, os sete Centros de Referência de Assistência Social da cidade oferecem acolhimento coletivo. Em alguns casos, conforme recomendação policial, as mulheres podem ser direcionadas para a Casa Abrigo Eliza.

 

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