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Paralisação26/05/2018 | 03h00Atualizada em 26/05/2018 | 14h19

Entenda o que motiva os manifestos dos caminhoneiros no Vale de Itajaí

Bandeiras como diesel mais barato, vale-pedágio e pontos de parada unem categoria que conseguiu parar o país esta semana

Entenda o que motiva os manifestos dos caminhoneiros no Vale de Itajaí Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Com mais de 550 caminhões, bloqueio no KM 68 da BR-470, em Indaial, é um dos maiores registrados na região Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

O caminhoneiro Claudiomir Peres Wessling nem conseguiu descansar da viagem que fez a São Paulo. Na segunda-feira de manhã, entregou a carga de papel que trouxe da capital paulista em uma indústria e voltou para a casa, em Indaial. Os planos de ficar com a família mudaram quando viu nos grupos de WhatsApp dos amigos de estrada as primeiras fotos de paralisações pelo país. Antes do meio-dia, recebeu uma ligação de um colega convidando para se juntar a um protesto no Km 68 da BR-470, a poucos quilômetros de casa. Àquela altura, ainda não sabia que a manifestação contra o preço do diesel se tornaria um dos movimentos populares de maior impacto no Brasil.

Claudiomir trabalha como caminhoneiro há 22 anos. Dirige um caminhão truck como funcionário de uma transportadora, mas também sofre as agruras de milhões de caminhoneiros, antes lembradas somente em épocas de São Cristóvão, mas que agora foram capazes de paralisar o transporte de quase todo tipo de mercadoria no país. As queixas não envolvem somente o preço do diesel.

Até a tarde desta sexta-feira, eram pelo menos oito bloqueios no trecho da BR-470 no Vale do Itajaí e ao menos 12 somando rodovias estaduais. No de Indaial, eram mais de 550 caminhões até esta sexta-feira. Ao longo da semana, os protestos enfrentaram a resistência do governo, de alguns setores prejudicados pelo desabastecimento, como os de alimentos e combustíveis. Por outro lado, tiveram a adesão de motoristas de aplicativos, táxis, motoboys, além de empresas de transporte e da população, que doou alimentos.

Custo pesa no bolso
Os movimentos rechaçam qualquer ligação a sindicatos, reforçam o discurso de movimento popular e evitam críticas a políticos ou partidos específicos. Os manifestantes focam em temas como a alta carga tributária e os custos para quem trabalha nas rodovias.

Muitas das motivações dos protestos podem ser explicadas pela matemática e pelo impacto no padrão de vida da categoria. Em meio a refeições servidas aos colegas na concentração do protesto, de boné e camiseta amarela, Claudiomir conta que costuma fazer viagens para São Paulo e consegue fazer no máximo 10 fretes desse por mês. Uma viagem rende cerca de R$ 2,2 mil. Mas R$ 1,4 mil ficam pelo caminho somente com o diesel. Se for carreta, o combustível responde por quase R$ 2 mil do frete.

Além disso, tem o pedágio. Segundo Claudiomir, apesar de ser lei, poucas empresas oferecem o chamado vale-pedágio e o custo para passar na cabine fica por conta do caminhoneiro. Um trecho para São Paulo custa em média R$ 150 para caminhões menores, ou R$ 300 para carretas.

A falta de pontos de parada para caminhoneiros em postos de combustíveis e em rodovias com pedágios são questionados.
– Você normalmente já sai abastecido e não consegue parar. Aí, o jeito é parar na beira da estrada, correndo o risco de ser multado pela polícia ou roubado por algum marginal – conta.

Dificuldades comuns
Claudiomir trabalha com caminhão desde os 21 anos, tem quatro filhos e tenta ficar pelo menos dois dias por semana em casa com a família. Para outros caminhoneiros como Jorge Alberto de Souza, 51 anos, o tempo longe de casa costuma ser ainda maior. Ele faz viagens de 20 a 25 dias de carreta até o Norte do Brasil. Para ele, o diesel também consome mais da metade do valor bruto do frete. Quando volta para casa, no fim do mês, diz que sobra cada vez menos, como acontece com os outros caminhoneiros.

– Fomos tirando do padrão de vida de nossas famílias, mas chegou a um ponto que nem isso mais resolve. O caminhoneiro era uma figura próspera na sociedade, hoje está entre os inadimplentes – conta Júlio Cesar Nunes Leite, um dos integrantes do bloqueio de Indaial.

Em um universo em que a maioria dos profissionais trabalha uma vida inteira atrás do volante, Sidnei de Souza Gonçalves é exceção. Trabalhava em uma mecânica, mas há um ano e meio passou à vida de caminhoneiro. Transporta geladeiras em cidades do Vale do Itajaí. Escapa de obstáculos como pedágios, distância de casa e necessidade de pontos de parada.

– A gente trabalha para se manter porque não consegue vencer os custos. Às vezes, paga para trabalhar – lamenta.

Para não ficar tão longe da família, alguns viajam com ela ao lado na boleia. É o caso de Fábio Cássio Marques da Silva, 34 anos. Ele aproveitou a folga da esposa no trabalho e viajou de Pernambuco para Santa Catarina com ela e o filho de 11 meses. Nos trajetos feitos nesses 12 anos como caminhoneiro, sente a alta de pontos de apoio em postos de gasolina. Um contexto que o faz apoiar a manifestação, onde está parado desde terça-feira.

– É um absurdo cobrarem até R$ 10 como chegam a cobrar para se tomar um banho. Está certa a manifestação. É bom que melhore para todo mundo.

Alimentos servem como demonstração de apoio popular
A paralisação dos caminhoneiros no Vale do Itajaí conta com o apoio popular.  No posto de bloqueio no Km 68 da BR-470, em Indaial, os manifestantes recebem alimentos que contribuem para a continuidade do movimento. O professor de Educação Física Natalino Doose, que mora em Timbó, é um dos apoiadores que levou mantimentos aos caminhoneiros na manhã de sexta-feira.

construtor Osvaldo de Souza, de Blumenau entregando alimentos para os manifestantes
Osvaldo de Souza, de Blumenau, tem contribuído desde terça-feira com os manifestantes ao levar marmitasFoto: Adriano Lins / Jornal de Santa Catarina

– Estamos trazendo alimentos, pois compartilhamos com eles esta causa. Inclusive estamos vendo o que eles estão precisando e vamos continuar a ajudar – relatou o professor.

O construtor Osvaldo de Souza, de Blumenau, tem contribuído desde terça-feira com alimentos para os manifestantes. Ele acredita que dessa forma é possível mostrar que não somente os caminhoneiros, mas toda a população está na luta.

– Trouxe compras e hoje (sexta-feira) marmita para os manifestantes. Agradeço a eles por estarem aqui mostrando a realidade dos brasileiros. Não é somente pelo diesel, mas sim por toda a carga tributária no país – conta Souza, que tem mobilizado outros empresários para ajudar os caminhoneiros.

De acordo com as empresas associadas à Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), a situação tem se agravado com o passar dos dias, com o número maior de veículos com alimentos parados nos principais pontos das rodovias. Toda a cadeia produtiva foi afetada. No bloqueio em Indaial, alguns caminhões possuem carga com alimentos perecíveis, que tem sido acondicionadas em temperatura adequada para não estragar o produto. O caminhoneiro Arilson Ribeiro transporta uma carga de laticínios, avaliada em R$ 25 mil. Ele tem mantido o produto na refrigeração. Pelo menos até quando tiver combustível.

– Esse material retornará para a empresa. Depois deve ser comercializado a preço baixo, pois o comércio que receberia não vai mais aceitar – conta.

Faltam itens nas prateleiras de Blumenau
Mesmo após o governo ter anunciado um acordo com algumas lideranças da categoria na noite de quinta-feira, a paralisação continuou sexta-feira nas estradas que cortam o Vale do Itajaí. Além de combustível e outros serviços que estão sendo afetados com a mobilização, o desabastecimento de alimentos, principalmente os perecíveis é sentido nos estabelecimentos que comercializam esses produtos em Blumenau e região.

Na Central de Abastecimento (Ceasa) de Blumenau, cerca de 70% dos boxes já está sem alimento. O local que abastece muitos mercados da região está com um volume muito pequeno de hortifrúti, que, segundo o vice-presidente da Associação dos Boxistas da Ceasa de Blumenau, César Felippi, não deve durar mais um dia:

– O que temos aqui é que foi estocado, mas não vamos perder produto. Vamos apoiar a greve, pois algo tem que ser feito para acabar com essa corrupção. Essas condições que estão dando pra gente trabalhar não dá para continuar. Temos que pagar nossos impostos e ter um retorno também.

::: Acompanhe no Santa a situação da greve dos caminhoneiros no Vale do Itajaí

 

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