Como está a estrutura de defesa do Vale para enfrentar futuras situações de enchentes - Geral - Jornal de Santa Catarina

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Prevenção08/09/2018 | 07h00Atualizada em 08/09/2018 | 07h00

Como está a estrutura de defesa do Vale para enfrentar futuras situações de enchentes

Levantamento da NSC Comunicação mostra como estão os sistemas de prevenção caso as chuvas tragam novos transtornos à comunidade da região

Como está a estrutura de defesa do Vale para enfrentar futuras situações de enchentes Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Chove forte no Alto Vale do Itajaí. Em Blumenau, a última medição aponta o Rio Itajaí-Açu com quase 10 metros e Rio do Sul já registra casas invadidas pela água. Em Lontras, o radar indica novas chuvas para a região, o que aumenta a preocupação dos técnicos das defesas civis municipais. Para amenizar os impactos no Médio Vale, o Estado fecha as comportas das barragens de Taió e Ituporanga, ocorre tudo como esperado.

A situação narrada acima é hipotética. O sistema de prevenção às cheias em Santa Catarina possui falhas que persistem sem solução, mantendo presente o questionamento sobre a capacidade do Vale do Itajaí de enfrentar desastres naturais causados pela água.

Um dos problemas está em José Boiteux, onde há um histórico conflito entre índios e o governo – que se estende há quatro décadas – traz uma série de empecilhos para colocar a estrutura em operação. Detalhe: a única barragem em estado precário é justamente aquela que mais traz impactos aos blumenauenses, onde os equipamentos foram depredados, furtados ou por conta da falta de manutenção não funcionam. 

Embora tenha evoluído na prevenção aos impactos das cheias, hoje o ponto cego desses sistemas no Vale está justamente em José Boiteux. Não há garantia de operação e o governo do Estado admite preocupação caso haja necessidade de trabalhar no local, se houvesse necessidade, até mesma de forma imediata. Até o ano passado, o problema era a divergência entre a gestão pública e a comunidade Laklãnõ-Xokleng, o que foi atenuado após reuniões que ocorreram a partir de junho. Na ocasião, houve a primeira liberação para a entrada de profissionais da Defesa Civil avaliarem a estrutura e também um acordo entre as partes.

O problema estava no maquinário. Dois motores e o painel de comando sumiram – até hoje não se sabe o que ocorreu. Para abrir e fechar as comportas, foi preciso contratar uma unidade hidráulica móvel e levá-la até a barragem. Entre empecilhos e negociações, um ano e três meses depois pouco foi feito e se hoje fosse necessário, essa mesma logística precisaria se repetir.

Avaliação da barragem será feita pela Defesa Civil
É só na semana que vem, 15 meses depois da liberação da barragem por parte dos indígenas, que a Defesa Civil do Estado irá fazer uma avaliação na estrutura para saber o que é preciso para colocá-la novamente em operação. É o que diz o secretário João Batista Cordeiro Júnior.

 Barragem de José Boiteux é liberada após reunião com comunidade indígena
Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

– Estamos em fase de avaliação. Semana que vem (os técnicos da Defesa Civil) farão uma avaliação das estruturas, de equipamentos, ver a situação e orçamentar. Se houver possibilidade de operação, precisamos avaliar com a Funai. Houve depredação e precisa-se tomar uma atitude para possibilitar a operação quando essas situações ocorrerem – explica.

Não há restrição de acesso, diz comunidade indígena
O representante da comunidade indígena, Brasílio Priprá reforça que há problemas nos equipamentos da barragem, mas que desde que houve a conversa com o Estado, não há qualquer restrição para a entrada no local.

– A comunidade não impede de operar. Tá liberado. Não depende de nós, depende do cuidado do Estado, que é o responsável – afirma Brasílio.

Desde 1852, quando a primeira enchente foi registrada pelos colonizadores, Blumenau sofreu com 94 cheias. Dessas, 31 ocorreram no nono e décimo mês do ano, sendo que setembro é o recordista, com 18. Somados, os dois meses representam 33% das enchentes enfrentadas pela cidade, o que atrelado à condição para aumento nas chuvas, traz alerta à região. Conforme dados do Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia do Rio Itajaí-Açu (Ceops), os dois meses historicamente registram volume de chuva superior a 150 milímetros – como se em cada metro quadrado do município, durante o mês, chovesse o equivalente a 150 litros. O índice é superior a abril, maio e junho, meses em que a média de precipitação – conforme dados do Ceops desde 1981 – vai de 101,7 a 107,4 milímetros.

Cigerd reforça atendimento de emergência
Se de um lado a barragem de José Boiteux é uma pedra no sapato, pelo menos no que diz respeito à organização de operações e mão de obra há evolução. Desde fevereiro deste ano, Blumenau e região contam com um Centro Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cigerd), que atua na ação dos órgãos da estrutura do governo estadual na região, centralizando nele os tomadores de decisões desses órgãos setoriais, para facilitar a comunicação e a integração entre as agências envolvidas na gestão de desastres. 

 Blumenau - SC - Brasil - 03092018 - Cheias, prevenção, super edição, Ponte de Ferro Blumenau.
Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Se houvesse uma enchente hoje, como destacado no início da reportagem, seria ele que unificaria as ações. Para o coordenador regional de Defesa Civil Estadual, Jackson Dirceu Laurindo, a estrutura possibilita manter a comunicação em tempo real com o Cigerd estadual localizado na sede da Defesa Civil do Estado, recebendo e repassando informações para gestão de crises ou desastres.

– A ativação dos Cigerds regionais atualmente é feita pelo órgão estadual, que monitora a evolução dos eventos adversos em todo o território do Estado, identificando situações com potenciais de evolução, para situações de crise ou desastres – explica.

Laurindo afirma que os sistemas de monitoramento e as ações de prevenção e de resposta a desastres evoluíram nos últimos anos. Principalmente se comparadas às estruturas e recursos existentes há 10 anos, quando foi registrado o maior desastre de origem natural em Santa Catarina.

– A gestão de riscos e desastres é um processo em desenvolvimento contínuo e tenho absoluta certeza que estamos no caminho certo. É um trajeto grande e já avançamos bastante – finaliza de forma positiva.

 Nove estações do Ceops possuem problemas
Criado após os problemas ocasionados pelas grandes cheias de 1983 e 1984, o Centro de Operação do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí (Ceops) surgiu com a necessidade de desenvolver ações para amenizar os impactos de fenômenos climáticos. Atualmente, a instituição conta com uma equipe de dois meteorologistas, dois engenheiros e um técnico, que desempenham as funções de previsões do tempo, por meio de modelos matemáticos da atmosfera, monitoramento das chuvas e projeções do nível do Rio Itajaí-Açu, que corta todo Vale do Itajaí.

O dois são feitos pela verificação das informações transmitidas de hora em hora pelas 17 estações telemétricas instaladas no Médio e Alto Vale do Itajaí, alguns destes espaços também são compartilhados com a Agência Nacional das Águas (ANA). Porém, segundo o Ceops, nove destas estações não operam normalmente.

– Não conseguimos identificar alguns problemas e em outros será necessário reparo, até mesmo desmontar a estação para verificar. Em alguns casos é um trabalho complexo, que demanda pessoal e recursos, que hoje o Centro não dispõe em sua totalidade – afirma o coordenador do Ceops, Dirceu Severo.

Severo diz que até metade do ano passado o sistema funcionava em sua totalidade, com manutenção preventiva e corretiva. Para a manutenção dos serviços é fundamental o repasse de recursos externos. Segundo o secretário executivo da Associação dos Municípios do Médio Vale do Itajaí (AMMVI), José Rafael Corrêa, até o final de 2016, a associação fazia um repasse mensal. Valor este que garantia o pleno funcionamento das estações.

Após o término desta parceria com a Ammvi, o governo do Estado firmou convênio para transferência de recursos financeiros ao órgão. Os valores estão à disposição e foram utilizados na compra de equipamentos e uma parte será empregada para os reparos.

– Estamos fazendo edital para contratação de uma empresa para este trabalho. Mas o valor disponível é insuficiente para fazer tudo que é necessário. Por isso vamos elencar prioridades. Em nove delas vamos deixar 100% funcionando, mas vão faltar alguns reparos nas demais estações – diz Corrêa sobre a utilização dos recursos do governo do Estado.

Para o reitor da Furb, João Natel, instituição que mantém o Ceops, os recursos repassados pelo Estado são suficientes para manter o trabalho, mas não garantem uma evolução.

– Para avançar seria necessário a inserção do Centro como parte do sistema integrado de Defesa Civil – pontua o reitor.

“Setembro terá irregularidade de chuva”

Leandro Puchalski
Meteorologista da NSC Comunicação

Setembro deverá ter um comportamento de irregular ao longo do período. Os primeiros dias foram de chuva que chegaram a acumular volumes próximos à média histórica do mês. Tivemos a formação de um ciclone bem no Sul do Brasil, trazendo uma sequência de três dias instáveis. No entanto, agora, ao longo da primeira quinzena, a previsão é de baixos volumes de chuva na maior parte das cidades.

Tirando o Litoral e áreas próximas, como o Vale do Itajaí, que poderão ter um chuvisco e chuva fraca na semana que vem, boa parte de SC terá tempo seco. Mais próximo da segunda quinzena, deveremos ter outro período com uma chuva melhor distribuída por todas as regiões. Muito provavelmente uma frente fria deverá causar a instabilidade. Não há previsão de volumes tão altos quanto nos primeiros dias do mês.

Nos últimos dias de agosto tivemos mais uma reunião do fórum climático catarinense, onde meteorologistas de Santa Catarina fazem a previsão climática de consenso válida para os próximos três meses. A previsão destaca que, durante a primavera há um indicativo de desenvolvimento de um novo El Niño. Este é um fenômeno climático de grande escala que muda o comportamento padrão do clima em alguns pontos do planeta.

Para Santa Catarina, em tese, o El Niño provoca aumento dos volumes de chuva. No entanto, lembro que não necessariamente. No caso específico do período de setembro a novembro, a previsão é que tenhamos chuva dentro do padrão da época do ano. Porém, com um detalhe importante: irregularidade na distribuição pelas regiões do Estado durante os meses. A irregularidade no período é um detalhe bem importante. Quer dizer que temos boas condições de termos momentos de chuva, às vezes fortes, intercalados por dias consecutivos de sol.

 
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