Da ginga da capoeira ao incomum uso do violino, o Dazaranha é um caso singular de empatia com SC - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Lembranças22/09/2016 | 06h40Atualizada em 23/09/2016 | 08h44

Da ginga da capoeira ao incomum uso do violino, o Dazaranha é um caso singular de empatia com SC

Banda é a única catarinense a  ter um disco de ouro no currículo

Da ginga da capoeira ao incomum uso do violino, o Dazaranha é um caso singular de empatia com SC CR2 Fotografia/Divulgação
Banda é a única catarinense a ter um disco de ouro no currículo Foto: CR2 Fotografia / Divulgação

O Dazaranha ocupa um pódio solitário na música catarinense. Nenhuma outra banda tem um disco de ouro no currículo – a placa dourada veio com as 50 mil cópias vendidas de Tribo da Lua. Dezoito anos depois, nenhum grupo do Estado chegou perto de repetir o feito. Mesmo se tornando referência, o legado desta placa dourada hoje se resume ao próprio Dazaranha – não houve nada parecido com um movimento musical mais amplo surgindo a partir da banda, a não ser grupos de estilos musicais distintos que viam no Daza um exemplo da possibilidade de viver de música.

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O grupo de Florianópolis ficou famoso em Santa Catarina e também fora, principalmente no final dos anos 1990, pela mistura quase sincrética de influências, ritmos e instrumentos – da ginga da capoeira ao uso incomum do violino; da proclamação do mané beat a um estilo inclassificável; das letras impregnadas pela cultura local a um caso singular de empatia com o público.

– Quando ouvi Dazaranha notei que estava me envolvendo com algo diferente, que parecia estar em outro idioma. Eu, andarilho do rock, me surpreendi e me apaixonei muito – afirma o guitarrista Luiz Carlini, ex-Tutti Frutti e responsável pela produção de Tribo da Lua.

O trabalho conta com participações de Baixinho (Novos Baianos) e canja de Jorge Ben Jor, tornando-se em 11 faixas o mais emblemático álbum do rock catarinense.

O Dazaranha, que chegara a fazer shows pelo cachê de R$ 10, havia cruzado algumas fronteiras da música profissional e se firmava como referência no Estado. O próximo passo natural era trabalhar o disco Brasil afora. Hit para isso já existia: Vagabundo Confesso, composta por Nestor Capoeira e recriada por Moriel, se firmava como carro-chefe da banda.

– A gente estava fazendo 120 shows por ano. Para uma banda catarinense não é fácil. Mas botava a cara, ia atrás e cutucava o dia inteiro. Uma banda vive de shows, não de discos. E era uma época em que o rock ainda estava bombando. Tinha uma cena bacana no Brasil – descreve Zeca Carvalho, empresário da banda entre 1994 e 1999.

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Foi por causa dessa cena que muitos músicos do Sudeste passaram por Florianópolis com suas bandas e acabaram levando na bagagem as fitas e discos do Dazaranha. Uma delas foi o Barão Vermelho, do líder e vocalista Roberto Frejat, que certa vez, por e-mail, descreveu a sonoridade do grupo como "uma bela mistura do rock com a sua regionalidade".

Embora o Dazaranha não tivesse a intenção de deixar a cidade, o empresário e o produtor na época afirmam que os esforços eram pra torná-lo uma atração nacional. Preparando-se para isso, o grupo passa a fazer cada vez mais shows fora do Sul e colecionando admiradores. O grande estrondo, porém, nunca veio. Em 1999, Zeca sai da banda; em entrevista por telefone, Luiz Carlini diz que "o business envolve muita coisa", mas a arte estava feita. Cinco anos depois, em 2004, o Dazaranha lança mais um disco pela gravadora Atração: Nossa Barulheira, com pré-produção de Carlini e vencedor do Prêmio Claro de Música Independente em 2006. Fez menos barulho que seu antecessor, e a banda se afasta da ideia de "estourar". 

Em compensação, em uma cidade cheia de melindres culturais como Florianópolis, eles são uma das poucas certezas: de show gratuito no Terminal de Integração do Centro (Ticen) a apresentações noturnas na Life Club, público não falta. De acordo com o Musical Map: Cities of the World – um guia visual e interativo do serviço de streaming Spotify de como as pessoas ouvem música em diferentes cidades ao redor do mundo –, as três músicas mais ouvidas na Capital catarinense são do Daza: Céu Azul, Tribo da Lua e Rastaman.

E durante o verão, quando chegam a levar mais gente que o norte-americano Donavon Frankenheiter ao Riozinho do Campeche, ninguém levanta a mão para discutir o sucesso do Dazaranha.

Vagabundo Confesso é eterno

Embora a maioria das músicas tenha sido composta por integrantes do grupo, os mais famosos versos entoados pelo público são de autoria do carioca Nestor Capoeira – o que significa que o Vagabundo Confesso, elevado a uma espécie de hino da vida no litoral de Santa Catarina, está mais para Copacabana do que para Praia Mole. Nas mãos do guitarrista e compositor Moriel Costa, a canção original, uma ladainha de capoeira, foi complementada com o canto conhecido como puxada de rede, ganhando ritmo e melodia.

– O Moriel foi parceiro dessa canção, foi ele quem lapidou e deu arranjo, transformando aquilo em uma música. Embora ele não assine, para mim ele é coautor – destaca Luiz Carlini.

O hit ganhou diversas regravações de artistas brasileiros, entre eles Dora Vergueiro, Katia Nascimento e Ratto.

 

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