"Falar portunhol é tão natural quanto respirar", diz poeta uruguaio Fabián Severo - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Literatura13/10/2016 | 12h23Atualizada em 13/10/2016 | 12h26

"Falar portunhol é tão natural quanto respirar", diz poeta uruguaio Fabián Severo

Uma das atrações do FLIC - Festival Literário Internacional Catarinense, escritor fala sobre a vida na fronteira e o uso da língua que mistura português e espanhol

"Falar portunhol é tão natural quanto respirar", diz poeta uruguaio Fabián Severo paola Scagliotti/Divulgação
Uma das atrações do FLIC - Festival Literário Internacional Catarinense, escritor fala sobre a vida na fronteira Foto: paola Scagliotti / Divulgação

Imagine ler um livro em portunhol? É na mistura entre as línguas tão parecidas, mas ao mesmo tempo tão diferentes, que o escritor, poeta e professor uruguaio Fabián Severo escreve seus livros.

— Quando me perguntam por que escrevo em portunhol, respondo que é minha língua materna, da mesma maneira que Manoel de Barros escreve em português porque é sua língua materna. Por que deveria escrever em outra língua? — diz o escritor, autor de Noite nu Norte - Poemas en Portuñol (2010), Noite nu Norte. Noche en el Norte - Poesía de la frontera (2011), Viento de Nadie (2013), NósOtros (2014) e Viralata (2015), esta última uma novela em espanhol que trata sobre a fronteira uruguaia-brasileira.

Severo é um dos participantes do FLIC - Festival Literário Internacional Catarinense, que vai até domingo na Pedra Branca, em Palhoça. Nesta sexta-feira, ele participa da mesa Irreverência na literatura latino-americana com o colega uruguaio Gustavo Espinosa, os argentinos Carlos Ríos e Ana Porrúa e os brasileiros Antonio Carlos Gonçalves dos Santos e Marlon Aseff na moderação.

Por e-mail, o escritor conversou com o DC sobre o portunhol e a fronteira. Leia a entrevista:

O portunhol é negligenciado, tratado muitas vezes como piada, inclusive. O que ele significa para quem vive em cidades de fronteira? Como funciona essa mistura no dia a dia?
São os sons que escutava quando estava na barriga da minha mãe e os que escutei nos meus primeiros anos de vida. O portunhol é a língua que falam meus pais, meus avós, meus vizinhos¿ É a língua do meu universo. Meus afetos, minhas recordações, meus pensamentos estão em portunhol. Para as pessoas que não conhecem a fronteira, que acreditam no discurso homogeneizador dos estados, pode ser difícil compreender o que acontece quando os limites se misturam. Qual é a diferença? Nenhuma. O mesmo ar, as mesmas pedras embaixo dos pés, o mesmo desenho das nuvens. A única diferença é que em alguma capital, algum escritório, uns senhores com traje e gravata decidiram que aqui termina um país e ali começa outro. Mas nós, os fronteiriços, os que andam sem passaporte, os que vão de um país ao outro sem se dar conta, não temos tempo para estar teorizando sobre limites nem linguística, porque temos que viver, cozinhar, lavar os pratos, trocar fraldas. Para nós, a fronteira é nosso universo e falar portunhol é tão natural quanto respirar.

E em que momento você decidiu começar a escrever em portunhol? O que te motivou?
Nasci em Artigas, fronteira com Quaraí. Quando me mudei para Montevidéu, comecei a sentir saudades das minhas ruas, senti saudades de meus vizinhos, me faltavam os sons da fronteira. Comecei a me lembrar, mas minhas lembranças também vinham em portunhol. A tristeza não acabava e eu comecei a escrever. Mas minha literatura também vem misturada. Para poder encontrar meu refúgio na literatura, preciso combinar as canções de meus dois países.

Como você percebe sua própria identidade?
Sou fronteiriço e uruguaio e brasileiro. Sou e não sou. Mudança constante. Às vezes, falo em espanhol e às vezes em português. Preparo a janta sempre com arroz, e no inverno sempre tem feijoada. No Carnaval, danço o samba enredo e no inverno escuto milongas. Sou indefinido. Tampouco quero que me definam. A fronteira é um problema? Não. Na verdade é um problema para quem quer nos transformar em consumidores homogêneos, para que eles possam vender a sua sucata universal. Mas as pessoas não podem nos separar nem colocar uma aduana no coração. Somos fronteiriços. Somos dois países lacrimejando, pernas falando várias línguas, sangue passeando entremeado. Nossas palavras não sabem geografia. Somos um país tropical mas com frio, onde não sabemos que tipo de terra pisamos, e o rio é agridoce. Nós não somos uma definição, somos uma nuvem de pessoas.       

O que você espera da FLIC? Já veio a Florianópolis alguma vez?
É minha primeira vez em Florianópolis. Tenho muita expectativa porque ali reencontrarei meus amigos Marlon Aseff, Liane Chipollino, Duda Hamilton, entre outros, e conhecerei alguns escritores brasileiros. Também tenho prazer de compartilhar a mesa com Gustavo Espinosa, um dos escritores mais importantes do Uruguai.

Leia um poema de Fabián Severo:

Treis
Noum sei como será nas terra sivilisada
mas ein Artigas
viven los que tienen apeyido.
Los Se Ninguéim
como eu
semo da frontera
neim daquí neim dalí
no es noso u suelo que pisamo
neim a lingua que falemo.

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