"Nos bateram de forma covarde", diz diretor de Pequeno Segredo - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Cinema04/10/2016 | 15h14Atualizada em 05/10/2016 | 13h39

"Nos bateram de forma covarde", diz diretor de Pequeno Segredo

David Schürmann fala sobre a polêmica com "Aquarius" na indicação ao Oscar e garante que é um filme para emocionar

"Nos bateram de forma covarde", diz diretor de Pequeno Segredo Leo Munhoz/Agencia RBS
Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Ainda aos 13 anos, quando a família embarcou num veleiro para fazer sua primeira volta ao mundo, David Schürmann, hoje com 40 anos, já mostrava paixão pelo cinema e filmava a ousada aventura de seus pais e irmãos. Depois de 20 anos de carreira como documentarista e de uma pequena experiência com ficção no terror experimental Desaparecidos (2011), ele chega ao auge com a indicação de Pequeno Segredo para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2017.

O filme é sua primeira grande imersão na ficção, muito embora seja autobiográfico ao contar a história de Kat Schürmann, filha adotiva da família catarinense que morreu aos 14 anos devido a complicações decorrentes do HIV. 

Em entrevista, o diretor abriu o coração sobre a polêmica com Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho que também concorria à vaga ao Oscar. Confira a entrevista completa abaixo:

A polêmica com Aquarius gerou expectativa no público, afinal. Como tem sido todo esse processo?

Tudo começou quando fizemos uma projeção secreta em Berlim no começo do ano, para pessoas da indústria. Ao final, saíram dizendo que era um filme para o Oscar. Decidimos então inscrever.

Eu assisti à exibição Aquarius em Cannes, com o Kléber Mendonça e a Sonia Braga. Mas puxa, a categoria de filmes estrangeiros tem votantes de mais idade, são 250 no primeiro filtro, e achei que o nosso tinha mais chance por pontos muito simples: é uma história tecnicamente boa, é uma história real, envolve as pessoas e é a história do diretor. E inscrevemos como os outros fizeram.

Acho que teve um momentum Aquarius, e eu entendo a razão. É um filme muito bem executado. Mas tem mais uma cara de Cannes, embora não tenha ganhado nenhum prêmio lá. 

E tem uma realidade que as pessoas não entendem: crítico não é quem dá o prêmio. Quem dá o prêmio são os votantes. Tivemos uma lista de nove votando e foi uma corrida próxima entre os dois filmes. Era um ou outro. Isso mostra que nosso filme tem algo a dizer. Ganhamos a oportunidade de representar o Brasil.

Todos nós da indústria sabemos que se não fosse Aquarius, o filme eleito levaria paulada de todos os lados. Principalmente dos críticos de cinema, que estavam muito alinhados com Aquarius porque Kléber também foi crítico e isso ninguém fala. Ele foi crítico de cinema durante 10 anos. Não desmerecendo ele ou o filme, mas ele faz parte de uma turma. Todos nós produtores sabemos.

O mais interessante é que três semanas antes fizemos cabines de imprensa e em São Paulo apareceram apenas três jornalistas. E depois foi uma loucura, "o filme que ninguém conhece". Mas nós chamamos a imprensa. E então, de um dia para o outro, todos queriam ver o filme.

Aí optamos por segurar um pouco. Porque todos estavam raivosos. Virou um Fla-Flu, uma coisa política e a única coisa que Pequeno Segredo não tem é política. Fala de amor incondicional. É um projeto que começou há seis anos, antes disso tudo.

E acho que muito inteligentemente a turma do Aquarius, que já começou com as placas em Cannes, usou a polêmica para trazer mais gente. Não ganhou o prêmio, mas segurou a placa. Apanhamos no começo. Teve uma cineasta que bateu muito, até de forma covarde, porque ela não tinha nem assistido.

Recentemente, fizemos novas cabines no Rio, São Paulo e em Florianópolis - no Rio foram 50 pessoas. E aí as criticas foram mais ponderadas. Peço que as pessoas abram o coração e assistam pela qualidade artística.

Agora as coisas tomaram uma proporção interessante. Vou confessar que toda a polêmica foi excelente. Bateram, bateram, teve crítico que rasgou nosso filme em pedacinhos mas, ao mesmo tempo, colocou em evidência estratosférica.

Essa polêmica  estimulou um grande debate, e as pessoas estão curiosas. Se pudesse ser diferente, ótimo. Mas a indústria cinematográfica se uniu depois de apanharmos de forma covarde, e produtores e diretores começaram a defender. É equivocado o cinema brasileiro brigar entre si. Infelizmente, foi dessa forma. 

De documentários a ficção - fale da sua trajetória e da ideia de contar no cinema a história da sua família?

Desparecidos foi um filme intermediário para entrar no mundo de ficção e dar o passo maior que sempre foi Pequeno Segredo. No momento em que eu quis migrar de documentário para ficção, me inspirei em histórias de diretores como o José Padilha, que sempre fez documentários e depois dirigiu Tropa de Elite. Vi que era uma história que ele conhecia muito bem.

Pequeno Segredo é a história da minha família, principalmente da Kat e meus pais. Sempre quis contar a história dela, inicialmente como documentário. É um filme cujo aspecto artístico é forte. Eu gostaria que milhões de pessoas assistissem. Não somente alguns críticos, mas todo o público. E que essa história reverberasse, fizesse pensar e que as pessoas saíssem do cinema falando não apenas como um filminho bonito e legal.

A história da Kat foi um segredo de família por muitos anos. Quando minha mão decidiu contar a história em livro, eu comecei a pensar no filme. Tem roteiro diferente. Não é linear, como uma cinebiografia, mas sim com três histórias paralelas e que depois se colidem no meio.

O começo do filme é arrastado e há críticas quanto a uma tentativa fraca de entrelaçar as histórias. É proposital?

É proposital. Vai de um tempo para outro e depois avança em grande velocidade. Se você não está embasado e entendendo o que cada história é, chega lá na frente e fica perdido. Eu não acho que é lento, acho que tem um ritmo. Gostaria que as pessoas fizessem essa jornada.

É uma história dramática. Não melodramática, mas delicada. Foi alquimia mesmo. Quando começava a ficar melodramática, eu parava. Um dos grandes pontos fortes é que mostramos a tragédia de uma forma bela. Mostrar a dor com beleza é muito difícil. E o filme é plasticamente bonito. A Mariana Goulart, incrivelmente parecida com Kat, é uma menina linda que interpreta alguém que tem por dentro uma doença avassaladora. Eu vivenciei isso.

Acho que um dos grandes ganhos – agora que as pessoas estão deixando de lado o rancor pela polêmica com Aquarius – é ver o filme como ele é. É uma fábula, mas que ao mesmo tempo é um soco no estômago saber o que essa menina viveu. Não se sai deprimido do filme, mas mexido.

Por que vocês abrem mão de mostrar a dificuldade que foi viajar com a Kat — o enfrentamento com os médicos, que não recomendavam — e que fica bem claro no livro?

É preciso escolher quais histórias contar. Se eu colocasse só a batalha da Heloísa e da Kat, seria um filme institucional, em que Heloísa seria a única heroína. Mas existem varias heroínas. E eu não queria um filme sobre doença. Isso sim é clichê. Quero falar sobre essas vidas e como elas foram conectadas.

A doença não é o protagonista, mas a relação dessas pessoas, que são mais fortes. Coloco a doença como antagonista a ser descoberta no final. As mortes são todas mostradas de uma forma poética. A história já é forte, evidenciar a tragédia seria transformar num grande melodrama.

Tem um monte de crítica por termos tomado o lugar de Aquarius, e não temos culpa disso, de ter feito um filme que achamos que é bom. O pessoal perdeu a objetividade. E quando a poeira baixou, começaram a ver o filme e as críticas internacionais vieram com outro tom. É um filme que tem outra proposta, não é o que a gente tem mandado para o Oscar nos últimos anos.

Crítico do DC Andrey Lehnemann sobre Aquarius e Pequeno Segredo:
Pequeno Segredo é um filme de boas intenções, mas falha em executá-las
Filme Aquarius é uma obra-prima 

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