Morre o filósofo polonês Zygmunt Bauman, aos 91 anos - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Obituário09/01/2017 | 15h22Atualizada em 12/01/2017 | 14h57

Morre o filósofo polonês Zygmunt Bauman, aos 91 anos

Escritor desenvolveu o conceito de modernidade líquida

Morre o filósofo polonês Zygmunt Bauman, aos 91 anos Fernando Schüler/Divulgação
Foto: Fernando Schüler / Divulgação

Importante filósofo e teórico contemporâneo, o polonês Zygmunt Bauman morreu aos 91 anos, em Leeds, na Inglaterra, segundo informou a imprensa da Polônia nesta segunda-feira. A causa da morte ainda não foi informada.

Bauman tem uma extensa bibliografia com reflexões sobre a sociedade e as mudanças do mundo atual. Sua principal teoria, a da "liquidez" das relações sociais abriu um vasto campo de estudos para as mais diferentes áreas, como a filosofia, a cultura, o relacionamento humano – com muito foco no individualismo e a efemeridade das relações – e até mesmo a revolução que as mídias digitais trouxeram para a sociedade moderna. Sua obra mais conhecida é Modernidade Líquida (2000), mas o autor também desdobrou o tema em uma série de outros livros como Vida Líquida e Amor Líquido.

Nascido em 19 de novembro de 1925, em Poznan, Bauman serviu na Segunda Guerra Mundial e tem uma extensa biografia com reflexões sobre a sociedade e as mudanças do mundo atual.

O sociólogo visitou o Brasil em setembro de 2015. Em uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o polonês deu uma entrevista de 40 minutos ao programa Observatório da Imprensa, do apresentador Alberto Dines, na TV Brasil. Na conversa, Bauman definiu o Brasil como um "milagre inacabado", em alusão às políticas públicas de combate a desigualdades sociais no país.

"Representantes de 66 governos do mundo vieram para o Rio de Janeiro para se consultarem, para aprenderem sobre a experiência de retirar 22 milhões de pessoas da pobreza. Ninguém mais repetiu esse milagre, só o Brasil. Desejo que continuem isso, mas também agora algumas deficiências estão vindo à tona", disse Bauman a Dines.

O sociólogo tinha viagem marcada para Porto Alegre em 2011, para uma conferência no Fronteiras do Pensamento. Bauman, no entanto, cancelou o encontro, alegando problemas de saúde em sua família. Para estar presente de algum modo no evento, o sociólogo foi entrevistado pelo professor Fernando Schüler, em sua residência, na Inglaterra. Registrada em vídeo, a entrevista foi exibida antes da palestra de Edgar Morin no Fronteiras.

– A imagem que guardo de Bauman é de um homem melancólico, mas também de um sábio. Ele me recebeu de maneira muita afetiva. Ficamos uma tarde inteira conversando. Ele me mostrou sua casa, sua biblioteca, me serviu um café da tarde generoso. Por outro lado, estava muito deprimido por conta da morte recente de sua mulher. Lembro de ele ter dito que já havia escrito tudo o que queria escrever, e que então só esperava o tempo passar – recorda Fernando Schüler.

O livros de Bauman, em que o autor trabalha seu olhar crítico sobre as sociedade contemporânea, alcançaram grande sucesso no mercado editorial. Só no Brasil, 35 de seus títulos foram traduzidos.

– Curiosamente, Bauman se tornou um fenômeno da sociedade de consumo que ele tanto criticava. Acredito que ele veria isso com humor. Tinha essa característica de saber rir de si mesmo – avalia Schüler. – Era um autor que escrevia muito bem, mas de maneira simples, o que fez dele um best-seller.

Para Schüler, Bauman sempre se manteve fiel a uma corrente de pensamento crítica ao mundo contemporânea:

– Bauman era um crítico da invasão da vida privada na vida pública. Lamentava o abandono dos grandes debates dos meios de comunicação para uma comunicação que enfocava cada vez mais o trivial, o banal, como nos reality shows. O narcisismo das redes sociais também era algo que o chocava muito. Ele não compreendia, e tampouco tentava compreender, o mundo das mídias sociais. Quando o perguntei se o mundo líquido não era também positivo, sendo um mundo de maior liberdade, distante das obrigações do mundo sólido, ele ficou em silêncio. Não me respondeu.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA
Bauman publicou mais de 40 livros,a maioria lançados no Brasil. Aqui seguem cinco títulos para conhecer sua obra:

O Mal-Estar da Pós-Modernidade
Livro no qual Bauman ensaia abordagens que sistematizaria em seu mais conhecido Modernidade Líquida, anos mais tarde. Partindo de O Mal-Estar na Civilização, de Freud, Bauman argumenta que,em um mundo em que a velocidade das transformações é por demais acelerada, a instabilidade resultante produz terror e insegurança,fonte do mal-estar contemporâneo.

Globalização: As Consequências Humanas
Quando ¿globalização¿recém se tornara ¿palavrada moda¿, Bauman publicou este estudo no qual analisa suas consequências sociais. Para ele, os resultados da globalização eram desiguais,às vezes opostos, como a apologia da mobilidade de capitais em uma sociedade em que a movimentação humana é cada vez mais restrita.

Modernidade Líquida
Conceito por muito tempo em formação, ¿pós-modernidade¿ foi definido com sutis variações de acordo com cada pensador. Neste livro, Bauman condensa a sua definição: pós-modernidade seria a ¿modernidade líquida¿, em que as relações, certezas, instituições, se tornam fluidas e instáveis. O conceito seria desdobrado em uma série de livros posteriores.

Vidas Desperdiçadas
Bauman analisa o lixo. Se o mundo contemporâneo valoriza a criação e cada criação gerará um refugo, também aumentará a produção de lixo. A partir daí, Bauman aborda processos de construção da ordem, o da economia e o da globalização, e seus¿refugos humanos¿. Em Vida para Consumo, Bauman abordou outro aspecto disso,ao pensar na vida como produto.

Comunidade
Ao analisar a noção de comunidade, Bauman discorre sobre o que se ganha e o que se perde pela adesão a ela: segurança e pertencimento em troca de menos autonomia e livre-determinação. E depois estende esse pensamento à realidade atual, em que a informática faz com que a informação sobre uma pessoa viaje sem o controle dela, e a ideia de ¿identidade¿ parece dominar.

 
 

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