"Negro não é uma classe, é um povo, são pessoas", diz Mano Brown, que faz show nesta sexta em Floripa - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Entrevista24/03/2017 | 03h15Atualizada em 24/03/2017 | 03h15

"Negro não é uma classe, é um povo, são pessoas", diz Mano Brown, que faz show nesta sexta em Floripa

Maior nome do rap nacional, o líder dos Racionais MC´s conversou com o DC sobre a nova periferia, futuro dos Racionais, feminismo e a condição do negro no Brasil

"Negro não é uma classe, é um povo, são pessoas", diz Mano Brown, que faz show nesta sexta em Floripa Klaus Mitteldorf/Divulgação
Brown acaba de lançar o disco solo, Boogie Naipe, em que revisita os bailes funk dos anos 70 e 80 Foto: Klaus Mitteldorf / Divulgação

Em entrevista ao DC por telefone, Mano Brown, líder do principal grupo de rap do Brasil, Racionais MC´s, falou dos desafios da periferia, chamou atenção para a necessidade de diálogo entre os movimentos radicais e contou que está preparando o show de lançamento de seu disco solo, o ótimo Boogie Naipe, previsto para 12 de maio em São Paulo, mas sem previsão de vir a Santa Catarina por enquanto. Os Racionais MC´s se apresenta nesta sexta em Florianópolis. 

Por décadas você negou entrevistas aos veículos tradicionais de comunicação. Agora está falando comigo. O que mudou?
O mundo mudou. Ponto. 

Fala um pouco mais. É a maturidade?
Não é maturidade. Eu não mudei. O mundo mudou. A mentalidade da periferia mudou, a informação tem que chegar, quem não comunica se estrumbica. E por aí vai... Ditado não falta. 

Nestes 28 anos de grupo, o que você percebe de evolução na condição do negro no Brasil e qual é o grande desafio de hoje?
São muitos anos de defasagem, não dá para corrigir 400 e poucos anos de atraso em 28 anos, mas é óbvio que teve avanços. O pessoal hoje ostenta o orgulho de ser negro. O primeiro e o principal passo é a pessoa se orgulhar do que é, saber de onde vem, pra onde vai, porque está como está, o que pode melhorar. Isso é uma coisa que realmente a gente percebe que mudou. O povo negro hoje se entende como negro. Ostenta a cor da pele, as suas origens, os seus cabelos. Antes no Brasil, as pessoas tinham uma baixa autoestima. Hoje percebo uma autoestima elevada. O começo de toda revolução é a autoestima elevada. Agora, em termos materiais, ainda tem muito a evoluir. Estamos em batalha. 

Para onde aponta essa batalha?
A gente (Os Racionais) sempre colocou o negro no lugar em que ele deveria estar, como gente pensante, ser humano, não como classe. Hoje a coisa está muito mais individual. As pessoas discordam radicalmente. Pessoas inteligentes, de lado a lado, discordam entre si. Então você tem que interagir e entender quem discorda de você. Esse é o mundo hoje. A periferia e o negro querem quebrar conceitos antigos, e o rap, às vezes, quer preservar. Isso não é uma crítica, é um posicionamento. O rap é um movimento de comunicação de massa. Se você tem um discurso arcaico, você vai influenciar seu povo de modo arcaico. Negro não é uma classe, é um povo, são pessoas. Os negros não querem ser vistos como classe. As pessoas têm gostos diferentes: um gosta de mulher negra, o outro gosta de loira. Entre os negros, isso não seria diferente. O negro procura a identidade dele o tempo todo. Não é igual a todos os outros como os brancos preferem ver: ah, o negro é isso e aquilo. 

Março é o mês da mulher e temos visto a intensidade do movimento feminista. Mas o rap ainda carrega a cultura do machismo.
Bem menos do que o resto do Brasil. É um dos movimentos que mais evoluiu nessa parte. O número de mulheres que está crescendo na carreira, por mérito, é muito grande. No mundo de hoje, não cabe mais machismo, ignorância, xenofobia, homofobia. 

Me refiro às letras. Ainda há aquelas que tratam a mulher com o velho estereótipo. O Criolo acabou de relançar o primeiro disco, corrigindo letras que tinham tom machista.
O próprio Racionais também reviu muitos conceitos. Agora o que foi falado, foi. Foi errado? Foi, mas já foi feito. Agora é correção, é outra época, é evoluir. Temos que acompanhar a necessidade do povo. O que o povo precisa? Justiça, menos preconceito, menos ignorância. A gente tem que ser útil. Se o rap quiser continuar sendo útil, ele tem que rever todos esses conceitos. E acho que isso já está sendo feito. 

Em 2016, viralizou um vídeo durante um show dos Racionais, em que você fala "vocês não entenderam nada". Você se referia o impeachment da Dilma? Você acha que a periferia não fez o seu papel naquele momento?
Durante o governo Lula, tivemos muita evolução no quesito básico de sobrevivência: alimentação, vestuário, bens de utilidade de família. O povo conseguiu sentir o gosto de uma vida melhor, conseguiu interagir com o mundo moderno ou o quê o mundo moderno oferece: motocicleta, micro-ondas, máquina de lavar. Durante um tempo, teve quem achasse que o povo era burro de querer essas coisas. Eu nunca achei isso. Eu respeito todo tipo de inteligência, isso é inteligência de sobrevivência. Quando na segunda parte do governo Dilma, o Brasil precisou dar um passo atrás para ajustes, o povo sentiu e não quis perder o que conquistou. Uma geração mais antiga talvez pudesse lembrar como já foi muito pior. Mas essa geração nova não entendeu. As pessoas passaram a se comportar como uma classe média antiga, sendo que se trata de uma classe média recente, que acabou de conquistar certos direitos. A periferia passou a pensar como pensam os ricos. 

Tuas letras costumam ser longas e intensas. A sensação que temos é de que você está sempre escrevendo. Como é o seu processo de composição?
Quando me deixam em paz, eu escrevo música. Mas hoje parece que só fazer música não é suficiente.  As pessoas querem muito mais de mim do que música.

 Tipo o quê?
O sangue, a alma... 

Você tem muitas letras escritas que ainda não viraram música?
Tem várias letras prontas que ainda não são músicas, tem muletas, tem músicas que ainda não lancei. Tem uma música nesse disco aí (Boogie Naipe)  que estava pronta há 10 anos. Esse negócio de ser Mano Brown não é fácil. Você fala que você vai fazer música, a pessoa acha que você não vai fazer nada. Quando eu estou fazendo música, eu estou trabalhando. Mas o brasileiro, na média, não considera o músico um trabalhador. Depois que sai, parece tudo muito importante. Se eu não me esconder, eu não consigo fazer. Porque é muita cobrança. As pessoas querem saber se eu sou humilde. Brasileiro tem esse lance de querer a humildade máxima do outro, meio católico. 

Mas você já chegou num lugar de muito reconhecimento, não?
Com muita luta, sim. E quase tudo o que eu faço, o resultado vem depois de anos. A maioria dos meus trabalhos foi muito criticada no início e reconhecido do meio para frente. Às vezes, um delay de quatro anos. Então as pessoas reclamavam: por que demora tanto para lançar um disco? porque ninguém entendeu o disco que saiu. Quando a pessoa não entende, ela não gosta. Mas se o cara não entendeu, também é porque você não se fez entender. A responsabilidade é minha. Não dá para cobrar do povo, porque o povo é a maioria e ele te esmaga.

Rappers que estão estourados, Criolo, Emicida, Projota, sempre citam você e os Racionais como mestres.
Eu sou mais velho, eu participei do começo. Não exatamente do começo, mas de uma parte logo após o início. Naquela época, três anos equivaleria a 13 anos hoje, porque as coisas demoravam para chegar. Eu sou um dinossauro. Esses caras que estão fazendo sucesso hoje, eles eram crianças naquela época. É lógico que não tinha só eu. Então eu fico lisonjeado de ser citado por gente inteligente como Emicida, Criolo, Rael, Projota, Dexter.

Quando eu falo Florianópolis que memória vem à mente?
Um povo receptivo, uma natureza maravilhosa. As estradas, as casas, a colonização diferenciada, a arquitetura diferente. A  praia, é lógico. O sonho de todo paulista é se aposentar e ir pra Floripa.  

Os Racionais têm algum ritual antes de subir ao palco?
Procuramos estar de bom humor, a gente leva música pro camarim para se inspirar. Hoje em dia não são só os quatro. A gente se apresenta com umas 10 pessoas, é um grupo de amigos. Trinta minutos antes do show, a gente procura ficar só nós para acertar os detalhes. Um show é como futebol, cada jogo é um jogo. Nosso show tem muito improviso, muita coisas de momento. Eu gosto de me envolver com a cidade, saber as características locais. 

 As músicas que vocês levam para o camarim são músicas dos Racionais?
Não. Os Racionais não ouvem música dos Racionais. É quase proibido ouvir as próprias músicas. Se alguém resolve colocar, a gente manda tirar, porque não tem a ver. A gente gosta de ouvir outras pessoas que inspiram a gente, funk dos anos 70 e 80, James Brown, para dar aquela levantada na estima.

Quando vocês lançaram Cores e Valores, de certa forma, foi um alívio para os fãs, porque havia uma sensação que o Racionais iria acabar. O  Racionais Mcs não vai acabar nunca?
Essa lenda que os Racionais vai acabar existe há 28 anos.Esse fatalismo, eu acho que é muito de brasileiro. É uma curiosidade meio mórbida. Não vai acabar. Ninguém nunca sinalizou que vai acabar. Isso está no subconsciente das pessoas. É que no Brasil tanta coisa dá errado, né? Tantos grupos se separam, pouquíssimos permanecem unido. Mas a gente mantém viva a amizade. A gente aqui é irmão.

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