Dignidade ao Masc: Josué Mattos assume a gestão do principal museu de artes de Santa Catarina - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Artes Visuais12/04/2017 | 03h00Atualizada em 12/04/2017 | 16h04

Dignidade ao Masc: Josué Mattos assume a gestão do principal museu de artes de Santa Catarina

Com mestrados em Paris e experiência nos circuitos brasileiro e francês, curador assume a gestão do segundo museu mais antigo do Brasil

Dignidade ao Masc: Josué Mattos assume a gestão do principal museu de artes de Santa Catarina Felipe Carneiro/Agencia RBS
Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Templo de linguagem simbólica ("arte existe porque a vida não basta", lembra o poeta Ferreira Gullar), o museu vai além do preenchimento de paredes e é essa uma das bandeiras que o novo administrador do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc), Josué Mattos, levanta. Segundo mais antigo do país e com um patrimônio de cerca de 1,8 mil obras avaliadas em milhões de reais, o Masc conta com o frescor de Mattos para apagar incêndios. Um fogo que ninguém sabe onde e como começou, mas que se metaforiza em traças, falta de curadoria, de conselho consultivo, de projeto educativo de continuidade e que pouca dignidade oferece aos artistas que ali expõem.

Nascido em Criciúma, Mattos teve a primeira formação em artes na Fundação Cultural da cidade natal. De lá, aos 15 anos, mudou-se para São Paulo e, alguns anos mais tarde, para Paris, onde viveu por 10 anos e graduou-se em História da Arte e Arqueologia na Université Paris X Nanterre, universidade pela qual defendeu mestrado em História da Arte Contemporânea. Em 2009, concluiu o mestrado em Práticas Curatoriais pela Sorbonne. 

Tem uma trajetória brilhante para um jovem prestes a completar 35 anos, com trabalhos como curador independente no Brasil e no exterior. Oficialmente, desde o dia 1º de abril, ele — com o respaldo da classe artística que sugeriu seu nome — e a curadora Édina de Marco têm a missão de elaborar um programa, com interdependência entre todos os departamentos da instituição e foco na profissionalização do setor. 

Em entrevista ao DC, ele falou sobre sua trajetória, projetos para a gestão e abstrações sobre as razões de ser de um museu. Leia a seguir:

Falta dignidade aos museus do Brasil

"O Brasil entrou numa dinâmica absolutamente retrógrada em relação ao processo museológico. Não tem dinheiro, e o que tem vem do sistema de edital, que não fornece nenhuma dignidade ao artista. E para a profissionalização do setor, isso é descabido. Uma figura que resolve trabalhar com linguagem no Brasil deve ser no mínimo preservada, porque linguagem é o que nos salva hoje, nesse mundo que está completamente atordoado. O Masc padece desse mal, mas não é o único."

Museu catarinense ou um museu nacional

"Acho que existe uma tentativa de resgatar o valor histórico do Masc dentro do quadro nacional. Que não é necessariamente a narrativa que mobiliza recentes polêmicas, a saber: é um museu de Santa Catarina para os catarinenses. O Masc tem um valor histórico no âmbito nacional. Ele é o segundo museu mais antigo do Brasil. Apresentá-lo como museu nacional não exclui a ideia de que seja catarinense. Aqui nós tempos Volpis e Tarsilas movendo-se pelos corredores. E temos artistas daqui de grande importância. Mas esse é um museu nacional, e ele precisaria discutir com o país."

Questões emergenciais

"Eu não sei direito ainda que fogo estamos apagando, mas certamente estamos cuidando disso. Tem fogo, tem traça, tem cupim. E nem é de se esperar o contrário. E nem é devido a ninguém. É devido à macroestrutura. É o que Lacan chama de 'o outro', uma figura que você nem sabe o que é. Não dá para apontar, dizer 'o problema é desse ou daquele'. É um museu que não tem verba. Cupim se mata comprando um produto que custa dinheiro. E se não tem verba? Isso é num plano simbólico.

"Agora, num plano emergencial, queremos transformar o educativo num núcleo do Masc. E o educativo não existe sem programa curatorial. O programa curatorial tem condições de pensar muito além do que hoje querem da gente, que é o preenchimento das paredes de um museu."

Mundo ideal para o Masc

"Preencher lacunas do acervo, revisar o acervo, elaborar e construir um núcleo curatorial que possa pesquisar essa coleção e fazê-la circular, estabelecer relações com todo o sistema de ensino do Estado. E no campo das relações internacionais, criar algum tipo de política de empréstimo de obras, porque só assim um museu ganha notoriedade. Você já deve ter visto numa coletiva: 'esta obra pertence ao MoMA', por exemplo."

 Turismo e arte

"Em primeiro lugar, é porque o plano de mídia desses museus é equivalente a qualquer outro estabelecimento corporativo. Veja, por exemplo, o que tem acontecido em São Paulo nos últimos 10 anos, as grandes exposições na Pinacoteca, com filas que dobram o quarteirão. O Centro Cultural Banco do Brasil fez um relatório de retorno de mídia espontânea que equivaleria a 10% do valor investido nas exposições. Ou seja, se eles investiram R$ 10 milhões em exposições, tiveram um retorno de R$ 100 milhões.

"Um secretário de cultura de São Paulo, certa vez pensando atacar o seu principal rival, o secretário de cultura do Rio, disse: 'Apesar de sermos uma cidade suja e feia, somos a capital do turismo'. Ou seja, uma figura que realmente se interesse pelo turismo de qualidade não é atraído apenas por praia e sol, e nós vivemos esse mito. Todo nosso turismo é investido em praia e sol."

O público versus os especialistas

"Para o público, entender que temos que conservar um trabalho de 1940 deve dar a ele alguma noção de que há um trabalho além do preenchimento de parede e que é muito importante. Por exemplo, não temos um museólogo hoje. Temos hoje talvez um patrimônio de milhões. E não tem um técnico que saiba dizer se estamos com algum problema grave que comprometa a integridade de uma obra valiosíssima no mercado e componente do patrimônio imaterial do Estado. E isso é muito grave. E talvez o público não especializado não precise saber, mas com a profissionalização do setor, vai começar a se dar conta."

Editais para exposições

"O sistema de editais existe praticamente só no Brasil. É um sistema que vem apagando incêndio e é democrático entre muitas aspas porque se vale de um sistema de seleção que é muito questionado, iniciado no século 17 na França. Acho bem legal, por outro lado, é abrir um chamamento público para recebimento de projetos em tempo integral. E com isso fornecer dignidade e transparência aos artistas. Dizer, por exemplo, 'recebemos de abril e dezembro, para fechamento da pauta de 2018, tantos projetos, e foi possível estudá-los devidamente com uma equipe de curadores'. Não tem nenhum formato ainda definido. Então, provavelmente, nos curvaremos ao sistema viciado de editais e tentar nas entrelinhas rever o sistema seletivo"

Missão de um museu

"Existe linguagem simbólica no mundo. E o museu é o lugar onde essa linguagem é conservada. Sobretudo, onde é oxigenada e fermentada no tempo presente. Porque ela está inscrita no seu contexto. É a reação do público com a obra que promove essa fermentação. Não há como pensar nenhum tipo de projeto de cidadania, sem pensar a fermentação do sujeito com o simbólico, e aqui é o templo para isso."

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