Andrey Lehnemann: Filme Larfiagem, de Gabi Bresola, é uma ode às ruas e à malandragem - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Crítica26/06/2017 | 16h50Atualizada em 26/06/2017 | 18h58

Andrey Lehnemann: Filme Larfiagem, de Gabi Bresola, é uma ode às ruas e à malandragem

Colunista de cinema do DC comenta o curta catarinense premiado no FAM

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

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"A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues todos os lugares-comuns. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade."

[João do Rio, A Alma Encantadora das Ruas, 1908]

Assim como Lima Barreto explorava a insensatez humana, a hipocrisia social e o caráter turvo brasileiro, o grande malandro carioca, João do Rio, pseudônimo de João Paulo Barreto, sempre se interessou pelas almas das ruas. Quem fazia parte do grande carnaval brasileiro? Quais eram os rostos dos moradores da rua, dos indigentes, das faces esquecidas do Brasil colonial? Quem fazia parte da malandragem? Nascido na Rua do Hospício, que por si só já seria um trocadilho maravilhoso, a obra de João sempre foi sociológica. Um retrato de interesse acerca de pescadores, pessoas simples, apropriando-se de suas linguagens e gestos.

No cinema, o documentário é o mais próximo que o caráter real, das ruas, tem para se aproximar do povo. Quando a linguagem se torna cúmplice de região e contexto, costumes e povo. Tão encantada quanto os escritores positivistas do século XIX, Gabi Bresola alimenta seu documentário Larfiagem exatamente com essa observação poderosa da malandragem, proveniente de uma região que o catarinense de regiões litorâneas possui pouco contato. Rodado em Herval D'Oeste, Larfiagem reproduz um dialeto próprio entre moradores que passavam os dias aos redores dos trilhos do trem, engraxando sapatos, carregando bagagens e se aproveitando de turistas mais abonados. O dialeto próprio, inventado por uma meia dúzia de garotos, colocava letras a mais em palavras para que outras pessoas não fossem capaz de saber o que eles aprontavam: nas ruas, nas escolas e em suas casas.

Veja o trailer:

Larfiagem | trailer from Ombu on Vimeo.

Com uma temática simples, Bresola constrói sua narrativa de uma maneira que o público possa perceber não quem são as pessoas que falam conosco, mas o que elas representam. Assim, a humanização delas advém num outro tipo de proposta, orientando-nos pelas expressões de uma pequena cidade de Santa Catarina que não falava alemão ou francês, tampouco era irrepreensível no português, mas se considerava poliglota na malandrice. É hilário, por exemplo, um depoimento de um (agora) professor pegando um aluno tentando colar na prova com a linguagem que aquele havia popularizado. Da mesma forma, a diretora é sábia em evidenciar os jovens de antes com os adultos do agora, mostrando que aquelas pessoas continuam ali, nos arredores do trem, falando com nostalgia do passado, e sabendo que de alguma forma algo deles continua existindo na história de Herval D'Oeste.

Bresola, ainda, é inteligente em nos colocar na perspectiva de turistas, como se estivéssemos chegando e partindo pelos trilhos do trem. Deste modo, a confusão quando ouvimos as primeiras palavras do dialeto sugere algo extremamente palpável. Além disso, a ida e a chegada da estação espelha exatamente o caráter observatório do documentário, que faz com que nos sintamos próximos daquelas pessoas por apenas alguns minutos, antes que tenhamos que voltar ao nosso caminho. Nós continuamos, eles ficam.

Humanamente rico, Larfiagem é isso: uma ode ao que a capital considera invisível. Um ode às ruas. As mesmas que um dia João do Rio imortalizou.

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