Fabrício Cardoso: "Manifesto em favor da meia soquete" - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Crônica05/06/2017 | 20h04Atualizada em 05/06/2017 | 20h05

Fabrício Cardoso: "Manifesto em favor da meia soquete"

Estávamos num bar, fazendo que se faz neste lugar: teorias imersas em álcool. Lá pelas tantas, apesar do vozerio das mesas vizinhas, ouvi uma amiga dizer:

- Não me interesso por homens que usam sapato com meia soquete.

Discretamente, apalpei as canelas por debaixo da mesa e senti o algodão fofo. A partir dali, não por interesse sexual na amiga, mas pelo respeito aos códigos da boa vestimenta, cravei o pé no chão, para que a gravidade fizesse a calça esconder meus segredos. Enfrentei apertos mas não fui ao banheiro, temendo que, ao alternar os passos no trajeto, o branco se projetasse, para ruína da minha reputação.

Daquela noite enervante dos anos 90 em diante, praticamente aposentei... os sapatos. Tenho um par, para casamentos, formaturas e ocasiões formais do trabalho. De resto, sou um usuário compulsivo de All Star. Parti para a defensiva, pois.

Sou um cara meio descuidado ao me vestir, não por falta de vaidade ou desdém pretensioso, de quem se acha elevado demais para se ocupar disto. Pelo contrário, considero um exercício de extrema sensibilidade. Exige senso estético e amor por si mesmo. Lembro do Pepe Mujica, o presidente mais pobre do mundo, que ia às reuniões de cúpula com meia furada e sapato puído, com a sola ameaçando descolar. Os românticos urravam com o desprendimento do político, mas, conversando com um uruguaio, soube que aquilo de certa forma os ressentia.

- Um homem naquela posição não se veste para si. Veste-se para o País.

O cuidado com isto, portanto, vai além de uma expressão de amor próprio. Simboliza certo respeito pelo outro. Por que então eu vacilo nesta área?  Falta-me informação. Não fosse o privilégio de ter uma mulher elegante há 16 anos, faria feio por aí. Tanto que, quando me arrisco comprando peças sem a supervisão dela, normalmente fracasso. O erro mais recente é uma calça de veludo amarela, que não consigo combinar com nada. Guardarei para um show do Restart, quando e se a banda voltar.

Bem, fiz este exame de habilidades porque soube de uma tendência às meias coloridas. ¿O que antes era sinônimo de exotismo e até um pouco cafona, hoje ganhou status de modernidade e muita personalidade¿, dizia a reportagem no jornal da firma. O problema é que fiquei zonzo com a profusão de cores e formas geométricas das tais meias.

Travei.

Só relaxei um pouco ao ler outra frase: ¿Para quebrar a insegurança de ousar no acessório, comece com modelos mais discretos, com detalhes menores e bolinhas ou em tons mais básicos, como bege com listras, ou sóbrios, como preto com marrom ou azul-marinho com vermelho.¿

Do alto da minha incapacidade de vestir a calça de veludo amarela, estou acuado. Ok, sou um tiozinho sem maior personalidade, mas tenho minhas pretensões, oras. Uma delas é não virar alvo de reprimenda em mesa de bar.
O governo balança, o pessoal toma as ruas pedido Diretas Já, a violência e o desemprego nos asfixiam, e todas estas pequenas coisas nos impedem de enxergar o perigo do avanço das meias coloridas.

Busquemos refúgio nas entranhas de uma meia soquete.

 
 

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