Andrey Lehnemann: "Okja" é sobre amadurecimento e os riscos da indústria alimentícia - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Cinema06/07/2017 | 14h00Atualizada em 06/07/2017 | 14h00

Andrey Lehnemann: "Okja" é sobre amadurecimento e os riscos da indústria alimentícia

Filme critica ao sistema das grandes corporações e narra as autodescobertas da jovem Mihka

Andrey Lehnemann: "Okja" é sobre amadurecimento e os riscos da indústria alimentícia Netflix/Divulgação
Foto: Netflix / Divulgação
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

Millôr Fernandes dizia que você chega na maturidade apenas quando você começa a pagar mais do que você recebe. Apesar da visão irônica do escritor, a chegada na maturidade foi um dos assuntos de alguns dos melhores filmes americanos de 2017. Quando você começa a se autodescobrir, seus desejos e, claro, como o mundo que o cerca lhe recebe. Okja, talvez, seja um filme mais clássico, neste sentido, ainda que nosso primeiro contato seja a perspectiva da ingenuidade se deparando com ameaças do mundo exterior e o capitalismo desumano ditando as regras.

A figura de Mikha é o nosso caminho por esse mundo, na narrativa de Joon-ho Bong. Enquanto ouvimos promessas vazias de Mirando numa palestra sobre o futuro que ela deseja para a indústria alimentícia, a garota representa a sensibilidade da obra. Na chegada em Seul, ela é a única que olha para cima e para trás. O resto continua seguindo em frente. Quando descobre que seu avô deu seu porco em troca de ouro, ela corre. Mas o quadro reflete muito bem a posição de Mikha já naquele momento: não adianta correr. As estradas fazem você correr em círculos.

Bong não parece tampouco julgar o familiar de Mikha. Ele é um homem antigo, triste, deixado naquele estado pela sociedade. Decrépito. A comunhão com os animais já não importa mais para sua vida. Enquanto a precariedade da morada no campo serve de contraste com a belíssima natureza que cerca avô e neta, o design de produção ressalta exatamente esse aspecto mais sóbrio da cidade, que, tomada pelo desenvolvimento, abdicou completamente do que é natural ou humano. Tudo se tornou digital e cinza. O que é diferente, torna-se incrível e admirável. Grupos tirando selfies com um animal enjaulado aponta perfeitamente para essa faceta, ao mesmo tempo que demonstra a barbaridade em nome de um marketing de consumo e desnecessariamente cruel.

Desenvolvimento tem a ver com o progresso humano, não o progresso tecnológico ou com diferentes formas de gerar alimentos para nós, segundo a visão de Bong. Neste aspecto, Mikha se lançando contra uma porta de vidro que, treme, antes de sucumbir ao seu esforço garante a mensagem de luta contra o sistema, que ele pretende passar.

Similar a outro filme que carrega na essência um valor sentimental para a protagonista como forma de marketing para grandes conglomerados, Okja lembra muito um grande filme do ano passado chamado El Olivo, que, igualmente, ganha profundidade nos olhos de uma jovem que trabalha em uma granja de frangos e cuida do avô, que parou de falar há anos, após os filhos venderem uma antiga oliveira herança de família. Ambos falam sobre confraternização e amadurecimento. E é exatamente essa leveza parecida das obras que flerta com os perigos das grandes corporações, que continuam se aproveitado de pessoas mais humildes.

Enriquecendo-se deste debate, Okja se torna um dos exemplares mais interessantes do ano ao se concentrar primordialmente no que nos faz humanos. Não deixando de expor o quanto podemos falar hipocritamente sobre amor enquanto nos saciamos com a carne do amigo de uma garotinha que mora nas montanhas.

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