Para ficar de olho: os filmes da temporada que são apostas em 2018 - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Coluna de Cinema26/10/2017 | 14h00Atualizada em 26/10/2017 | 14h02

Para ficar de olho: os filmes da temporada que são apostas em 2018

Crítico de cinema, Andrey Lehnemann, escreve sobre "Let It Fall", "The Bachelors" e "AlphaGo", obras inéditas no país

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

   

AlphaGo
O documentário "AlphaGo" mostra o embate entre humanos e a tecnologia criada para ser invencível.Foto: Divulgação / Divulgação

Todo final de ano, as distribuidoras começam a se mover. É hora de divulgar suas obras, pois as associações de críticos de cinema, jornalistas e artistas começam a projetar os melhores filmes do ano. A chance de filmes menores receberem mais falatório e poder chegar em outros centros se torna maior, igualmente. E grandes trabalhos acabam sendo lançados justamente nesta época para fazer com que sejam lembrados. A associação de críticos de cinema que pertenço (a OFCS – Online Film Critics Society) não é diferente. Ano após ano recebemos os FYC (Para Considerar), DVDs e materiais publicitários que servem como um lembrete para não deixar aquela obra de fora das listas finais. Nas próximas semanas, portanto, começarei a escrever sobre longas-metragens que recebo para consideração e que fazem jus (ou não) à temporada.

AlphaGo

Em uma de suas obras-primas, Notas do Subsolo, Dostoievski escreveu que, em breve, a humanidade iria quer nascer da ideia, de algum modo. Antecipar o destino sabido de todos: o crescimento gradual. Pois bem. Em 2017, um novo algoritmo da Google DeepMind já começou a criar pensamentos tecnológicos do zero. Isso mesmo. Uma máquina que aprende com o seu próprio sistema a ser invencível, sem interferência humana. Era o conceito AlphaGo Zero, que passa a ter uma nova finalidade: acelerar o conhecimento humano em anos com possibilidades que a nossa mente ainda não fosse capaz de imaginar.

Pouco antes da nova versão, a AlphaGo já havia derrotado os grandes mestres do xadrez oriental, que é chamado de Go. Uma das vitórias mais emblemáticas do sistema foi contra o jovem campeão mundial Lee Sedol, que é citado como o "Federer do Go", com 18 títulos mundiais e considerado um dos maiores gênios que o jogo já possuiu. O documentário AlphaGo acompanha exatamente essa série de desafios entre o sistema e Sedol, onde observamos o algoritmo ultrapassando os limites do comportamento humano do jogador.

Uma das coisas que torna fascinante o trabalho de Greg Kohs é exatamente o fator humano delineado no seu documentário. Estabelecendo uma linearidade para a sua obra, é esperado que o primeiro jogo entre o Alpha e Sedol dê o esperado: a máquina derrotará o homem. Porém, o diretor estabelece mais do que isso, ao evidenciar as diferenças entre cada um e como a vitória acontece. A aflição do jogador ao não poder encarar seu adversário, não poder "entrar" na cabeça dele e analisar cada jogada sendo feita em menos de 1,5 minutos deixa o humano cada vez mais nervoso e pensativo. Não há adversários do outro lado. É a racionalidade contra a emoção. É passar a jogar contra seu pior adversário: você mesmo.

O desafio não é necessariamente uma novidade, tendo em vista a polêmica vitória do Deep Blue no passado, mas as possibilidades que o AlphaGo fornece tanto nas telas quanto fora delas assombra. Enquanto nós temos as nossas limitações, o computador pode ultrapassá-las de uma maneira que só podemos sonhar. O documentário AlphaGo acaba sendo o tipo de filme que pode lhe deixar encantado e alarmado, ao mesmo tempo.

The Bachelors

O novo filme do roteirista e diretor Kurt Voelker é basicamente um feel good movie sobre companheirismo e solidão. Como lidar com a perda? Esse é o gancho que move a família do personagem de J.K. Simmons a se mudar de cidade e tentar novos ares numa escola particular, onde pai e filho podem tentar recomeçar e esquecer a morte da mãe, que faleceu há 61 dias. Não é apenas o luto que interessa ao cineasta, mas também a faísca que faz com que consigamos lidar com a nossa solidão. O momento que encontramos alguém para dividir nossas cicatrizes e ter novas expectativas com relação ao futuro.

Todos os personagens de The Bachelors, de alguma forma, buscam uma forma de sentir. A menina que corta o braço, o pai tentando esquecer a esposa, a forma como os sentimentos são extravazados que funciona diferente para cada um. "Como você está realmente?, é perguntado. Embora simples, a indagação sintetiza basicamente a estrada que cada uma daquelas pessoas percorre.

Let It Fall: Los Angeles 1982 – 1992

Sem dúvida nenhuma, uma das filmagens mais conhecidas é o espancamento de Rodney King pela polícia norte-americana, durante uma "averiguação de rotina". Um dos entrevistados do documentário Let It Fall: Los Angeles 1982 – 1992 chega a taxar assustadoramente o evento de um procedimento padrão da patrulha da região. Os números levantados pelo diretor John Ridley colaboram para fazer com que o filme soe ainda mais revoltante: desde o começo dos anos 80, a cada 16 mortes por estrangulamento em abordagens policiais, 12 deles eram contra negros.

É assim que Ridley "legitimiza" a última saída encontrada por uma população irritada com tantas pancadas e injustiças durante os anos, quando os riots começam a aparecer depois dos policiais que bateram em King serem soltos. O processo de discriminação racial da polícia norte-americano não é algo insurgido brevemente ou pontual. É algo que veio se alastrando pelos anos. É uma prática apoiada e relativizada pelo próprio sistema judiciário. "As veias e artérias de alguns homens negros, quando aplicado o golpe de estrangulamento, não abrem tão depressa quanto a de pessoas normais", declara o chefe Daryl Gates atestando seu racismo tirano.

Similar as estruturas de LA 92 e OJ Made in America, que procuram exatamente compreender o que nos trouxe até os momentos estudados no documentário, Let It Fall é mais um atestado da violência racista que assola não apenas os EUA, mas o mundo.

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