Filme brasileiro "Gabriel e a Montanha" é uma celebração à natureza humana e suas falhas - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Coluna de Cinema02/11/2017 | 14h00Atualizada em 02/11/2017 | 14h00

Filme brasileiro "Gabriel e a Montanha" é uma celebração à natureza humana e suas falhas

Confira a entrevista com o diretor do longa Fellipe Barbosa

Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

   

Filme brasileiro Gabriel e a Montanha
Foto: Pagu Pictures / Divulgação

Sem vida, Gabriel olha para nós. Sob uma pedra, o cadáver do explorador carioca que embarcou numa jornada para conhecer a África e estudar civilizações economicamente desfavorecidas parece em repouso. Como se estivesse sonhando com os olhos abertos, esbugalhados, como se nos encarasse com julgamento. Mas é nós que temos a oportunidade de fazer isso, no filme de Fellipe Barbosa: julgá-lo.

Gabriel Buchmann foi um economista carioca que partiu numa jornada pelo coração da África a fim de analisar de perto a pobreza e preparar seu doutorado na área. Por vários meses, o brasileiro viveu com o mínimo que precisou, absorvendo os costumes do povo, morando em suas casas, experimentando suas comidas e buscando conhecimento sobre suas particularidades. É assim que observamos um calçado sendo acabado na pedra, um coelho sendo morto ou as canecas para tomar banho e água: com naturalidade.

Neste sentido, o design de produção de Gabriel e a Montanha já mereceria palmas por evidenciar as casas de madeiras surradas pelo tempo, ainda que isso não pareça importante para ninguém ao redor. Inserindo-nos de imediato naquele mundo, Barbosa nos imerge como se já estivéssemos lá desde o início com Gabriel e que tudo aquilo já é íntimo para o espectador também. É belo que a arte pareça nos trazer para o espectro que o compartilhamento que Gabriel tem é o mesmo que o nosso. Nós também queremos dividir nossa cultura com cada personagem do filme.

Afastando-se de qualquer culto em relação ao protagonista, Barbosa indica praticamente dois personagens distintos na narrativa: o Gabriel real e o Gabriel aventureiro. O primeiro só é visto quando a namorada, Cris, encontra-o pela primeira vez na África. É notável o diálogo que os dois têm, num ônibus, sobre as raízes de cada um, por exemplo, onde o diretor aponta as contradições do personagem – de origem elitizada, o brasileiro quer fugir de suas origens, ao mesmo tempo que tenta a compreensão de outras. "Estou muito roots", ele escreve para a família, no primeiro ato do longa-metragem. Esse é o real desejo de Gabriel: encontrar-se. Mesmo que, para isto, ele tente ser alguém que ele não é. O ódio ao ser tratado como turista na frente da namorada é um espelho muito mais revelador do que qualquer palavra que Gabriel diga no decorrer do filme.

Aliás, Caroline Abras é brilhante ao retratar Cristina como o intermédio de Gabriel e sua origem, ao mesmo tempo que não fica presa a ser apenas alguém com o propósito de fazê-lo se sentir bem. De personalidade forte, ela busca sempre o que é melhor para ela. Se isso significar um possível afastamento de Gabriel? É algo para se lidar. O momento que Gabriel pergunta para ela se ele não é o bastante para fazer com que ela se mude para Los Angeles e Cristina responde imediatamente que não, é ótimo.

Afinal, não existe uma forma correta de viver ou de se relacionar – podemos raciocinar. Cada um de nós reflete um apanhado de escolhas. Ao se desvencilhar do guia do Monte Mulanje, o pico mais alto do Malawi, Gabriel fez a sua. Morreu como viveu: tentando se passar por alguém que não era realmente. Com suas falhas. Com sua humanidade.

Confira a entrevista com o diretor do filme, Fellipe Barbosa:

Existem duas versões de Gabriel no longa. Um com a namorada, outro sem ela. Com ela, ele parece mais humano. Mais falho. Isso foi uma intenção de desviar de atmosfera messiânica que esses filmes geralmente tem?

"Excelente pergunta. Sim, é muito em função desse passo a passo que nós damos para a história, esta elipse. Quando conhecemos o Gabriel, ele tem alguma pureza, sem influencias. Ele está convivendo, compartilhando, buscando algo. Quando a Cris embarca na história, ela traz o passado dele à tona. Ela traz o que o Gabriel, de certa forma, quer fugir: sua condição burguesa. Mesmo que ele não fosse burguês. E ele era brilhante. Ele não era da zona sul, mas da norte. Foi primeiro lugar geral da PUC. E ainda assim ele estava fugindo de algo. São essas contradições que nos definem. Quem somos nós? A pobreza é relativa? Estou fugindo um pouco da pergunta, mas acho que, sim, a Cris o acorda para a realidade de onde ele vem. Tanto que ela fala pra ele: "tira essa roupa de masai, pois quero ver o Gabriel que eu conheço". Essa coisa meio que na Natureza Selvagem me interessou muito.

Algumas pessoas estão notando similaridade com a história do escritor Jon Krakauer, Na Natureza Selvagem.

Se veio, ela foi mais pelo livro. Krakauer é um grande autor. Acho que No Ar Rarefeito, que fala sobre a tragédia no Monte Everest, ainda é mais influente. Porque o Chris McCandless (Na Natureza Selvagem), ele é alguém que queria se distanciar da civilização. Ele queria cortar o contato por completo, isolando-se. Já o Gabriel, ele precisa da civilização para se encontrar. E ele ainda mantém contato com a família. Escreve cartas, relata a experiência, a busca dele é outra. Um está numa busca interior, o outro, exterior. Nós só percebemos essas influências na sala de edição, sabe? Tive um pouco de Herzog e Kiarostami, neste hibridismo entre documentário e ficção, também.

Seu protagonista pode ser recebido de uma forma não tão amável pelo público, pois ele não é um "mocinho" no clássico da palavra. Ele é cheio de paradoxos.

Sim. E isso que me interessa. Algo humano. Mas não é algo consciente. Você não chega e pensa: ok, vou criar um anti-herói (ou um herói), que, cá entre nós, é a mesma coisa. É o passo a passo do relato, do dispositivo, que lhe faz chegar aonde você chega. A resistência pode dizer mais sobre nós do que sobre realmente ele. Nós estamos num momento de sectarismo. Extremos. Cínico. O Gabriel é bastante otimista, mas contraditório. Como alguém pode ser altruísta e egoísta? Arrogante e humilde? Isso foi falado até com a mãe dele na época, era uma preocupação que tínhamos, de não betificá-lo. Não há nada mais chato que santo, o Gabriel falava. E ele amava a história do São Francisco de Assis. São essas pequenas incongruências que dão o tom. A própria mídia foi messiânica, neste sentido, já que você citou a palavra no começo. E nós buscamos evitar o determinismo.

Tu conhecia o Gabriel real, certo? Depois do filme finalizado, quanto tu descobriu do Gabriel no caminho para fazer este filme? Ou ele era o mesmo homem?

Sem dúvidas, ele era o mesmo. Nós convivemos dos 7 até aos 19 anos. Depois, eu fui estudar cinema nos EUA. Quando voltei, em 2008, ele estava partindo para a jornada dele. Quando ele era jovem, ele era mais introvertido, paciente; ao falar com os que o conheceram mais tarde, eles foram unânimes sobre como ele era participativo. Mas era o mesmo Gabriel que conheci. Ele tinha essa pulsão pela vida que acaba o expondo e deixando mais próximo da morte. É difícil algo mais paradoxal.

De onde veio o cântico africano que pontua o filme? Ele é bem doloroso.

A música, você diz? Foi um trabalho incrível do Arthuyr Gillette. Ele era o marido de uma grande amiga da minha esposa. E convidei ele, quando estava na pós-produção, na França. Ele fazia parte de uma banda chamada Moriarty, que é o mesmo nome do protagonista de On the Road, o que achei uma coincidência maravilhosa. Ele próprio morou na África e convidou o Harry para fazer o canto. Queria algo que fosse próximo da música de Barry Lindon, que parece uma marcha fúnebre, e, claro, algo similar a um canto gregoriano, pois era muito presente na minha vida e do Gabriel, já que todo dia tínhamos missas com esses cantos na juventude. Se tu observar a partitura, ela chega a fazer uma cruz. Já o canto da montanha tem a questão da subida, de alcançar algo, a busca pelo divino, pelo absoluto. É meio que a história do Gabriel no seu sentido primordial.

Embora filmes Como Nossos Pais, Entre Irmãs e Pendular tenham boa aceitação crítica, o público ainda destoa. Ainda existe uma predileção por comédias, como o sucesso de Gentili com Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola. Você acha que isso vai mudar num futuro próximo?

Não tenho bola de cristal. (risos). Mas, é, estamos vivendo um período glorioso de produção cinematográfica. Claro que não tem lugar para todos, mas você aumenta a possibilidade acertar. Fazer cinema é muito difícil. E tenho esperança que a Ancine e outros órgãos invistam mais em políticas públicas de distribuição. Esse é o nosso maior problema. Precisamos de algo mais consistente. A cadeira de exibidores é muito conservadora e medrosa. Falta educação, cultura e capacitação. Uma maior capacitação de exibidores e distribuidores. Mais cinéfilos ditando o mercado. Hoje, as coisas funcionam por uma planilha de Excel. É mais fácil colocar um filme de Hollywood sabendo o quanto ele pode retornar do que tomar para si a publicidade e divulgar um bom filme brasileiro, como acontece na França. Lá, o programador ama cinema.

Qual tu acha a principal diferença do diretor de Casa Grande para Gabriel e a Montanha?

Boa pergunta. Acho que tenho mais fé, agora. Fé no coletivo verdadeiro, nas pessoas. Eu tinha muito controle quando fiz Casa Grande, do que eu queria fazer. E é curioso que quando lancei o filme, eu perdi este controle sobre a sua proposta. Algumas coisas, eu realmente queria dizer; a maioria, não. A arte é assim. Não é questão de passar mensagem, os efeitos se produzem. Agora, em Gabriel, eu me sinto mais à vontade de perder o controle. O set é o único lugar que passo por isso. Deixo tudo fluir. 

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