"Marjorie Prime" é uma reflexão envolvente sobre nosso confronto com o tempo - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

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Coluna de Cinema16/11/2017 | 15h14Atualizada em 16/11/2017 | 15h14

"Marjorie Prime" é uma reflexão envolvente sobre nosso confronto com o tempo

Ficção científica dirigida por Michael Almereyda traça uma intimidade que raros filmes conseguem ao suavizar a perda sem que o luto seja desafiador

"Marjorie Prime" é uma reflexão envolvente sobre nosso confronto com o tempo Reprodução/Reprodução
O ator Jon Hamm em cena do filme Foto: Reprodução / Reprodução
Andrey Lehnemann
Andrey Lehnemann

clickfilmes@yahoo.com.br

Se você pudesse enclausurar uma única memória sobre uma relação, qual seria? De que época? Quem seria? Há imagens que gostamos de individualizá-las, acredito. Uma foto ou uma recordação que guardamos só para nós. Não divulgamos aos quatro cantos cibernéticos, tampouco fazemos questão de notá-la todos os dias. É seguro o suficiente saber que essa memória só é nossa. Está lá e podemos vê-la, de vez em quando. Como se fosse a primeira vez.

O filme de Michael Almereyda (do excelente O Experimento de Milgram), Marjorie Prime, traça uma intimidade que raros filmes conseguem ao suavizar a perda sem que o luto seja desafiador. São quatro personagens que dividem as memórias conosco: Jon, Tess, Walter e Marjorie. O fio da narrativa nos sugere um serviço que oferece recriações holográficas de parentes falecidos, mas a mensagem acumula o mais importante: o que realmente nos faz humanos. Num determinado momento do longa-metragem, Tess pergunta para sua mãe, no diálogo mais lindo do longa-metragem:

– Você sente alguma coisa?
– Eu gostaria de saber mais.
– Por quê?
– Isso me torna melhor. Mais humana.
– Você quer ser mais humana?
– Sim.
– E o que o ser humano é?
– Imprevisível!
– Sério? Acho que somos previsíveis. Eu me sinto muito previsível.
– Entendo.
– O quê?
– Que você queria ser mais humana também.

Na visão do cineasta, a única coisa que nos guia é a morte. É o único elo entre todos nós. E, claro, as lembranças do que passamos em vida. Um escritor disse certa vez que a memória de uma pessoa só se esvai completamente quando o último a lembrar dela também morre. E qual é a nossa percepção sobre as pessoas com as quais dividimos a vida? Queremos que essas lembranças sejam exclusivas, correto? Que as imperfeições estejam lá, mas as imperfeições que nós queremos que estejam lá. A idealização que faz com que ofusquemos os problemas, embora saibamos que eles existem. E é belíssimo o momento que o personagem de Tim Robbins descreve a morte de sua esposa para um holograma, como se ele estivesse conversando com ela pela última vez e tentando compreender o que a levou a fazer aquilo.

A citação de William James presente na narrativa é definidora, portanto. Ela diz que a memória que você puxa de algum momento da vida é sempre a última vez que você se lembrou dela. Nunca é a fonte original. É como a cópia de uma cópia. E, por isto, a memória se torna inexata, com o tempo. Assim, até uma memória muito forte pode se tornar incerta, já que está sempre no processo de dissolução. Uma discussão sobre um sorvete ser de pistache ou baunilha se torna pessoal.

Desta forma, a recriação de cenários, a ilusão que o roteiro evidencia sobre o tempo e a maneira como nós gostaríamos de guiá-lo é inesquecível. Já que, ao fim, o que sobra são apenas lembranças do que já fomos. Uma coesão narrativa formidável e que coloca Marjorie Prime como uma das ficções científicas mais inteligentes dos últimos anos.

Assista ao trailer:

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