Tradição germânica do Pelznickel segue viva em Guabiruba, no Vale do Itajaí - Lazer e Cultura - Jornal de Santa Catarina

Versão mobile

 

Natal assustador22/12/2017 | 11h06Atualizada em 22/12/2017 | 11h06

Tradição germânica do Pelznickel segue viva em Guabiruba, no Vale do Itajaí

Cidade se mobiliza no Natal para manter viva a herança do Papai Noel do mato

Tradição germânica do Pelznickel segue viva em Guabiruba, no Vale do Itajaí Patrick Rodrigues/Jornal de Santa Catarina
Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

Eles têm chifres, são feitos de galhos e barba-de-velho e, claro, causam medo. Em Guabiruba, os monstros tomam as ruas nesta época do ano no tradicional Pelznickel. Todos com um objetivo em comum: cobrar o bom comportamento das crianças em troca dos presentes do Papai Noel. A celebração natalina, herdada dos colonizadores germânicos, permanece viva na cidade com pouco mais de 20 mil habitantes no Vale do Itajaí.

Além de uma brincadeira capaz de assustar até gente grande, os desfiles são um atrativo para toda a comunidade, que aguarda com ansiedade a chegada dos ajudantes do Papai Noel. Segundo a lenda, o Pelznickel ("pelz", em alemão, é pelagem, e "Nickel", o diminutivo de Nicolau) aparece somente em dois momentos do ano: no dia de São Nicolau, em 6 de dezembro, e na véspera do Natal, dia 24. No restante, ele mora na floresta, no meio do matagal.

Os olhos marejados de Ivan Fischer, presidente da Sociedade do Pelznickel, ao falar sobre o tema, refletem o afeto que os moradores de Guabiruba têm com o personagem. Por um tempo, ele e Fabiano Siegel eram os únicos a representar o Papai Noel do mato – como também é conhecido o personagem – na rua onde moravam. Foi em 2005 que eles decidiram convidar conhecidos a manter a tradição e criaram a sociedade.

– Ou organiza ou acaba, nós pensamos. Então, começamos a convidar as pessoas, e tudo começou. Hoje temos um estatuto, CNPJ e as pessoas foram voltando a ter o hábito. No início, eram apenas seis integrantes, mas começamos a passar em mais ruas e as pessoas se motivaram a participar – afirma Fabiano Siegel.

Doze anos após a criação da Sociedade do Pelznickel, que preserva e mantém esta cultura centenária trazida pelos imigrantes europeus, 73 pessoas integram o grupo – 25 membros se vestem com as roupas feitas por eles e assustam as crianças, mas só as que não se comportaram bem. Há gerações, a tradição é passada de pai para filho. Transformados em monstros, pais assustavam os pequenos, e hoje são eles que saem às ruas.

– Muitos meninos de 14, 15 e 16 anos querem entrar na sociedade. E isso não é uma brincadeira, aqui eles aprendem que é algo sério. É um teatro ao vivo que acontece aqui dentro. O meu filho, por exemplo, estreou no desfile de Natal da cidade. Eles aprendem e mantém essa cultura viva – conta o pai orgulhoso Ivan Fischer, que cita desconhecer a tradição fora de Guabiruba.

Os filhos gêmeos de Fabiano Siegel também passearam pelas ruas de Guabiruba como ajudantes de São Nicolau, que seria a inspiração para o Papai Noel que todo mundo costuma conhecer:

– Com três para quatro anos, os dois foram de Pelznickel no desfile da cidade. As pessoas achavam a maior graça, só que eles ficaram bravos porque todo mundo ria deles e não ficavam com medo – conta Fabiano, que começou a desfilar com 12 anos, mas até os 11 ainda tinha medo do Papai Noel do mato.

Tradição do Pelznickel, em Guabiruba. Desfile do dia de São Nicolau.
Foto: Patrick Rodrigues / Jornal de Santa Catarina

COSTUME É MANTIDO POR GERAÇÕES NA CIDADE

A tradição passa por gerações e o modo de fazer as roupas é peculiar. Cada membro da Sociedade do Pelznickel cria a própria roupa – alguns com folhas, outros com roupas e barba-de-velho – como aprendeu a fazer com o pai e com o avô. Pouco se sabe a respeito da origem do Pelznickel, só que ela é feita desde a chegada dos imigrantes à cidade e mantida por costume pelos moradores de Guabiruba.

Além do Papai Noel do mato, outros personagens fazem parte desta encenação natalina, um teatro vivo, como diz o presidente. A sobrinha de Fabiano, Aline Taís Siegel, hoje com 23 anos, por exemplo, começou a participar da programação quando tinha 13 anos. Isso foi pouco depois de perder o receio de conviver com o temido Pelznickel.

– Tinha muito medo. Meu tio sempre se vestiu e eu sabia que era ele e, mesmo assim, eu tinha medo. Quando ele me convidou para ser Christkindl (Menino Jesus) eu aceitei, claro. Hoje eu converso com os menores sobre a obediência, a escola e digo que vou bater um papo com o Pelznickel, exatamente como faziam comigo na infância – relembra.

Os personagens
Conheça os principais nomes do Natal de Guabiruba:

Pelznickel (Papai Noel do Mato)
No entardecer dos dias 6 e 24 de dezembro ele sai das matas e invade as ruas da Guabiruba para dar uma lição nas crianças que não se comportaram bem durante o ano. Cobertos de folhas, barba de velho ou trapos de roupas escuras, com chifres e máscaras assustadoras e carregando correntes, chicotes ou varas, eles ajudam o Papai Noel na tarefa de entregar presentes.

São Nicolau
Há várias lendas sobre o personagem, uma é que dele saiu a imagem do Papai Noel de hoje e outra que nos tempos difíceis da Europa ele ajudava os pobres e, enquanto entregava presentes para as crianças boazinhas, os moribundos cobravam a obediência delas.

Christkindl (Menino Jesus)
São Nicolau era casamenteiro e em troca pelo serviço do casório pedia para que, no Natal, as mulheres saíssem para ajudar as pessoas mais necessitadas vestidas de branco. Elas simbolizam a pureza e representam o próprio Menino Jesus.

Farmhand (Colonos)
O Opa (avô) e a Oma (avó) cuidam da casa, e são amigos dos Pelznickel.

Sackmann (Homem do saco)
Ele passava nas ruas com roupas velhas e um saco nas costas para pegar as crianças que andavam sozinhas principalmente à noite, e prendia elas dentro do saco. 

 

Siga Santa no Twitter

  • santacombr

    santacombr

    SantaUniversidades do Vale do Itajaí suspendem aulas por causa da greve dos caminhoneiros https://t.co/fuis4ILw3l #LeiaNoSantahá 9 horas Retweet
  • santacombr

    santacombr

    SantaSupermercados de Blumenau e região são impactados pela paralisação dos caminhoneiros https://t.co/MDglIHbQA7 #LeiaNoSantahá 9 horas Retweet
Jornal de Santa Catarina
Busca