Entre a serenidade e a revolta: como Dilma recebeu a decisão do Senado  - Política e Economia - Santa

Impeachment31/08/2016 | 19h26Atualizada em 31/08/2016 | 20h57

Entre a serenidade e a revolta: como Dilma recebeu a decisão do Senado 

Ex-presidente acompanhou a votação ao lado de seu padrinho político, Lula, de quem recebeu o primeiro abraço após a confirmação de sua cassação 

Entre a serenidade e a revolta: como Dilma recebeu a decisão do Senado  Evaristo Sa/AFP
Foto: Evaristo Sa / AFP
Fábio Schaffner e enviado especial a Brasília

fabio.schaffner@zerohora.com.br

Foi em um abraço afetuoso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que Dilma Rousseff encontrou consolo tão logo o painel eletrônico do Senado exibiu os 61 votos favoráveis a sua deposição. Ela estava tranquila. Não chorou, tampouco vociferou contra os algozes. Sem demonstrar rancor, apenas agradeceu o carinho e solidariedade afiançados pelo seleto grupo que assistia com ela, na biblioteca do Palácio do Alvorada, a votação final do impeachment.

O tom mudou duas horas mais tarde, quando surgiu em passos firmes no salão de mármore da residência oficial para fazer um pronunciamento à nação. Vestindo um traje vermelho e cercada de aliados, logo nas primeiras frases Dilma fez um ataque contundente aos parlamentarem que a consideraram culpada por crime de responsabilidade.

— Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar — disparou.

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Cada uma das 976 palavras do discurso foi minuciosamente escolhida por Dilma. Pela manhã, após os exercícios de rotina, ela se dedicou aos últimos detalhes do texto. Alguns ministros fizeram sugestões, mas a principal influência veio de Lula, que a orientou a ser enfática e combativa. Dilma atribuiu sua cassação a um suposto conluio entre políticos que tentam escapar da Justiça e aos perdedores das últimas eleições. Diante de uma multidão de jornalistas e ativistas de movimentos sociais, prenunciou uma onda conservadora e reacionária que estaria em curso no país, contra a qual convocou uma insurgência.

— Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer — avisou.

Dilma foi oficialmente deposta do cargo às 15h05min, quando assinou a notificação levada por Vicentinho Alves (PR-TO), primeiro-secretário do Senado. Após o veredito, ela havia deixado a biblioteca e seguido até a Sala dos Estados, onde mais de cem pessoas, entre parlamentares, dirigentes partidários e militantes sociais e sindicais a aguardavam. Recebida com palmas e um coro de "me representa" e "Fica Dilma", mais uma vez agradeceu o apoio. Sem almoçar, beliscou apenas alguns bolinhos de bacalhau servidos pela copa do Palácio.

Quando determinou à segurança que liberasse a entrada dos jornalistas, já demonstrava cansaço. À frente das câmeras, porém, demonstrou vigor. Embora tenha gaguejado algumas vezes, manteve a voz firme enquanto reiterava a inocência e criticava os adversários, em meio a citações do poeta russo Vladimir Maiakovski e do antropólogo Darcy Ribeiro.

Ao final do discurso, Dilma foi novamente inundada por abraços. Voltou para os aposentos oficiais, onde se despediu de Lula. Na condição de ex-presidente, ela terá 30 dias para desabitar o Alvorada. No domingo, planeja viajar a Porto Alegre, mas não em definitivo, embora a maior parte dos pertences pessoais já tenha sido despachada para a Capital.

Dilma não fez planos para o futuro. Por ora, ela só quer ficar perto da filha Paula e dos netos Gabriel e Guilherme, depois viajar e, quem sabe, escrever um livro, dando sua versão do "mar agitado da história", expressão do poema E então, que quereis?, com o qual encerrou seu pronunciamento ao país.




* Zero Hora

 

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