Estratégia de fatiar processo foi desenhada por três semanas, a pedido de Dilma  - Política e Economia - Santa

Política01/09/2016 | 20h10Atualizada em 01/09/2016 | 20h23

Estratégia de fatiar processo foi desenhada por três semanas, a pedido de Dilma 

Decisão causou polêmica entre parlamentares e recursos no Supremo Tribunal Federal

Estratégia de fatiar processo foi desenhada por três semanas, a pedido de Dilma  Jane de Araújo/Agência Senado/Divulgação
Presidente do Senado, Renan Calheiros, segurando o livro da Constituição no plenário Foto: Jane de Araújo / Agência Senado/Divulgação

Há três semanas, o ex-ministro José Eduardo Cardozo levou a uma reunião com senadores contrários ao impeachment um pedido direto de Dilma Rousseff: caso a perda de mandato fosse aprovada, o que já era considerado inevitável, ela gostaria de manter a habilitação para funções públicas. 

Não queria carregar essa marca em sua biografia. Advogado e conselheiro da presidente, Cardozo esmiuçou com a ajuda de auxiliares o caminho para fatiar em duas partes a votação. De início, a ideia desagradou parlamentares do próprio PT, céticos em relação à viabilidade jurídica e ao sucesso da manobra.

— Se querem cassar uma inocente, que carreguem o peso dessa injustiça — argumentou um senador.

— É um pedido da presidente — insistiu Cardozo.

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Prevaleceu o desejo de Dilma, àquela altura declarada ré pelos votos de 59 dos 81 senadores, cinco acima do exigido em lei para cassá-la. A solicitação foi tratada como uma espécie de "último desejo". 

Com pareceres jurídicos em mãos, Cardozo explicou que seria apresentado um destaque de bancada. À frente da sessão de julgamento, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, teria de aceitar o pedido por se tratar de uma questão de procedimento, sem entrar no mérito.

Maturada a estratégia, tratou-se de levá-la ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Aliados de Dilma, como Kátia Abreu (PMDB-TO), Armando Monteiro (PTB-PE) e Lídice da Mata (PSB-BA), sondaram colegas indecisos ou que votariam a favor do impeachment sem muita convicção. Sentiram que havia chance de êxito. Ao contrário do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma não era considerada uma "ameaça" em futuras eleições.

— A situação sensibilizou muita gente que sabia que a presidente seria condenada mesmo não tendo cometido crime — afirma Paulo Paim (PT-RS).

A articulação encorpou a partir de sexta-feira, dia em que Renan brigou com petistas no plenário. Depois de Gleisi Hoffmann (PT-PR) afirmar que o Senado "não tinha moral" para julgar a então presidente afastada, o peemedebista alardeou ter procurado o STF para favorecer a congressista, cujo marido, o ex-ministro Paulo Bernardo, foi alvo de uma operação da Polícia Federal.

Na mesma noite, Renan ofereceu um jantar a Lindbergh Farias (PT-RJ) e Jorge Viana (PT-AC), no qual adentraram a madrugada selando a paz a goles de vinho. No sábado, já circulava nos bastidores a possibilidade de se fatiar a votação. 

A pé de ouvido, Renan considerava "válido" preservar Dilma da inabilitação. Adiantou inclusive a intenção de cabalar votos. Em troca, manteria o trânsito entre os opositores de Michel Temer.

Ciente dos comentários e já disposto a aceitar o pleito, Lewandowski preparou de antemão uma longa argumentação jurídica. Consumado o impeachment, com posição favorável de Renan, veio a segunda votação, na qual o presidente do Senado pediu a palavra. Teatral, com dedo em riste e uma Constituição na mão, justificou a própria ambiguidade:

— No Nordeste, costumam dizer uma coisa que não concordo: além da queda, o coice. Não podemos deixar de julgar, nós temos de julgar, mas não podemos ser maus e desumanos, por isso, o meu voto é contrário à inabilitação.

A fala foi encarada como uma senha, em especial dentro do PMDB. Entre votos contrários e abstenções, 12 dos 19 senadores do partido do novo presidente da República aliviaram Dilma. O resultado surpreendeu PSDB, DEM e o Planalto. Todos sabiam da manobra, mas não imaginavam que haveria votos para aprová-la, muitos menos esperavam o empenho de Renan.

Irritados com a postura do PMDB, os tucanos convocaram reunião de emergência ainda na quarta-feira. Aloysio Nunes (PSDB-SP) cogitou entregar a liderança do governo em sinal de protesto. Mais calmo, desistiu. 

Na fala durante a reunião ministerial, Temer demonstrou sua contrariedade com a defecção na base. De malas prontas para acompanhar o presidente em uma viagem à China, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, foi orientado a permanecer em Brasília e serenar a coalizão governista.

 

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