"Não tem uma obra na cidade que não seja do governo federal", diz Carlito Merss - Política e Economia - Santa

Fala, candidato14/09/2016 | 22h49Atualizada em 14/09/2016 | 22h49

"Não tem uma obra na cidade que não seja do governo federal", diz Carlito Merss

"Não tem uma obra na cidade que não seja do governo federal", diz Carlito Merss Diorgenes Pandini/Agencia RBS
Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS
upiara boschi
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O Diário Catarinense entrevistou os seis candidatos à prefeitura de Joinville. Confira abaixo a entrevista com o candidato Carlito Merss (PT):

Você acredita que a cidade precisa de elevados?

Todos os ex-prefeitos eram contra. Até 20 anos atrás tinha um que foi prefeito que era contra o asfalto, a favor de que toda a cidade tivesse calçamento. Você chega em Floripa e tem viaduto batendo em viaduto. Aqui não temos três elevados. Pelo menos esses, tem outras regiões. Mas nesses eu estou absolutamente convencido (Ottokar Doerffel x Marquês de Olinha, Tuiti x Santos Dumont, Paulo Schroeder x Boehmwerald).

Tebaldi dizia que gastava 23% em saúde O senhor passou gastando 34%. O Udo fala em 40%. Qual o problema da saúde, não tem solução?

Tem, uma saída para desafogar as filhas é construir mais uma UPA. Isto nós fomos convencidos, ministério concordou, conselho municipal concordou e tínhamos conseguido já o dinheiro. É a polêmica da cidade hoje, lá na Vila Nova. Você não tem outra forma de reduzir as filas. Fazer atendimento de prevenção e ampliando lá os agentes comunitários. Postos, onde funcionar, funcionar de verdade. Quando eu assumi, tinha a UPA do Costa e Silva, depois o do Itaum. Banquei, fiz um esforço maluco para ter o Aventureiro. A cidade tendo na Zona Leste, Norte, zona Sul, e fazendo na zona Oeste, tá pronto, se cobre. Acontece que isto também tem um custo. Quanto mais você fazer a prevenção, menos gente vai se instalar. Apesar de que é uma luta contra a corrente. Ninguém está preocupado com a saúde, estão preocupados com a doença. Com a crise, pelo menos 34 mil joinvilenses perderam os planos de saúde das empresas. Isto bate no posto. 

Sustentar o São José não é muito para Joinville?

É um debate que a cidade tem que fazer. Quando assumi o governo, só consegui colocar dois diretores lá porque me comprometi a repassar mensalmente R$ 500 mil do caixa da prefeitura para o hospital ir cobrindo, senão nem diretor eu teria lá. Hoje, eles estão dando um jeito, não estão aceitando nem internação para não dizer que tem fila. 

O atual prefeito chegou a ser alvo de uma comissão processante por conta da saúde. Como o senhor avalia esse processo?

Não entro no mérito. É papel dos vereadores. Já que ele pautou no começo agora da campanha a tal da dívida. Misturar dívida de longo prazo, de projetos, se ele inaugurou duas, três obras. Que eram obras minhas porque ele não fez nenhuma obra dele. Deixei 12 CEIs, 12 creches prontas com dinheiro, terreno, licitação prontas, algumas com obras já iniciadas. Dessas 12 ele fez oito, tem quatro praticamente abandonadas. Parte dessa dívida que ele fala é isso. Você tem que falar que recebeu dívida se tem aquela dívida consolidada, curto prazo, com fornecedor, com folha. 

Ele diz que herdou uma dívida de R$ 300 milhões...

R$ 350 milhões. Eu devo ter recebido do Tebaldi perto de R$ 400 milhões. E esse não era o problema. Minha briga com o Tebaldi foi porque se falou em R$ 100 milhões, foi a transição, número que o grupo deles que passou para nós. Lembro que falei em entrevista: "se é verdade isso, não vou governar". Porque não tinha sistema. Minha situação foi muito mais grave. Governei o ano de 2009 sem sistema. Isto é outra discussão. Recebi a prefeitura com 52% de comprometimento em folha. Entreguei após quatro anos com 46%. Essa é a dívida que afoga um prefeito. Por que a maioria nem quer ir mais para a reeleição? A folha está matando.

Aquele momento em que o senhor não conseguiu eleger o presidente da Câmara, compor a maioria... 

Foi ali, a derrota começou ali. Nos dois primeiros anos, sofri sete processos de CPIs. Até pedido de impeachment teve. Sete. Tá tendo um agora. Nesse governo que ele já tem a maioria, o presidente, relator. Tem a dívida. Essa é a dívida que me preocupa. Não sei os números, não quero fazer acusações. Mas, se até já abriu uma CPI, alguma coisa tem ali. O atraso no repasse do Ipreville é gravíssimo. Fala-se em R$ 150 milhões de atraso. Espero que não seja isso, mas é o que os vereadores têm dito lá. 

O senhor conseguiu manter em dia o Ipreville?

Desesperadamente, de forma muito difícil. Tanto é que, a exemplo do Tebaldi, do Luiz Henrique, nos últimos três meses sempre nós aprovávamos um projeto. Para poder pagar 13º, a gente deixava geralmente outubro, novembro e dezembro atrasados. E pagávamos em janeiro, era um compromisso, com o IPTU. Consegui fazer isso direto. Parece que nem isso ele está fazendo. Ele renegocia e não cumpre a renegociação. Essa dívida é grave porque isso é apropriação indébita, igual a empresa não pagar INSS. Desconta do funcionário e não repassa. Essa dívida precisa ser esclarecida, vai arrebentar com 13 mil famílias. 

O que teria feito diferente em relação à Câmara? O presidente na época, Sandro Silva, o apoiou no 2º turno...

Tínhamos feito um acordo público. Três secretarias grandes, mais de 30 cargos fechados, o acordo foi feito na casa do presidente do PPS na época, seu Xuxo. Eu tinha um compromisso com o PMDB, apoiamos a Tânia Eberhardt. O Sandro Silva seria o vice, com um compromisso de todo o governo - PT, PP, os outros partidos, PDT - de que o Sandro, não se elegendo deputado estadual em 2010, seria o nosso candidato a presidente nos dois últimos anos. Acordo que depois acabei fazendo com o Odir Nunes. Pelo menos fazia oposição muito dura, mas leal. Uma oposição leal, não da forma como era. Lembro de cabeça: CPI da Água, CPI da Informática, CPI do Material Escolar. Era CPI de três em três meses. Dava munição para os radialistas me destruir durante três meses. A CPI não dava em nada, criava uma nova. Durante os dois primeiros anos, foi um massacre. 

Sua campanha gerou muita expectativa. Era o grande momento do PT, falava-se que Joinville receberia grande aporte do governo federal. Aconteceu?

Vamos falar de números. Moradia: em 160 anos de cidade nunca houve um plano para pobre. Só no nível 1, de um a três salários, foram quase 2.500. Nunca na história teve financiamento para moradia popular. Chegamos a fazer sorteio na televisão. Em qualquer área que se falar. Na saúde, colocar um PA daquele em funcionamento é muita coisa. Fui, talvez, ingênuo em achar que o nível cultural da população de Joinville entenderia que saneamento é básico. Foi minha marca e vai continuar sendo. Fui ver os números, o quanto se economiza na saúde.

Aquele momento de exuberância econômica passou...

Aí você tem que se adaptar. Todas as obras que estão acontecendo aqui, as 12 creches, todas as escolas, todo o saneamento básico... Ou você acha que a duplicação da Santos Dumont o dinheiro é de onde? Do BNDES via Badesc. Não tem uma obra na cidade que não seja do governo federal. Graças a projetos. Qual a grande preocupação que tenho? A atual gestão não encaminhou um projeto em nenhuma área. Não encaminhou um projeto de saneamento mais, a não ser dar continuidade muito vagarosamente naquele. Na questão do Fonplata terminou os dois parques que a gente deixou pronto. Na educação não encaminhou um projeto novo. Esse é o grande desafio do próximo prefeito. O que vou enfrentar em janeiro? Vou levar um ou dois anos, com o jeito que está essa recessão em Brasília, acha que vai ser fácil aprovar de novo uma UPA dessas? Posso ter divergências de fundo com o Tebaldi e com o Luiz Henrique, principalmente com o Tebaldi. Mas eu encontrei uma gaveta de projetos encaminhados pelo Tebaldi. Nisso ele era corajoso. Ele ia e pedia, mandava projeto. Todo o Fonplata foi dele. O saneamento era tudo projeto dele. Como que uma cidade desse porte não encaminha um balcão de projetos?

Na campanha que o senhor se elegeu, tanto o senhor quanto o Darci prometiam o eixo Norte-Sul. Esta obra ainda é importante?

Ela é viável, existe, está sendo feita na prática. O que é o Eixo Sul? É pegar a Procópio Gomes e fazer um binário com a Urussanga. Se eu tivesse sido menos ingênuo eu separava R$ 1,5 milhão daquela emenda e tinha feito. Desapropriava um terreno junto ao trilho, na rua Florianópolis, resolvia em parte. Teria feito diversas intervenções dessas. De certa forma esse eixo já existe. A parte mais importante seria toda a Santos Dumont duplicada, o resto ele existe.

No seu mandato discutia-se muito o transporte coletivo. Não aconteceu a licitação até hoje...

Deixei absolutamente pronto, criei uma comissão, levamos um ano e meio. Faltava uma audiência pública só para formalizar o que o Ministério Público exigiu. Tudo bonitinho, baseado em Curitiba. Uma empresa contratada que fez a modelagem fechou a discussão. A polêmica ainda era a indenização se as empresas perderem. Em Curitiba a indenização foi R$ 450 milhões. Aqui chegou em R$ 120 milhões se não me engano. As empresas queriam R$ 400 milhões. Eu não entro nesse mérito, o Ministério Público vai decidir. O que existe, numa lei dessas Florianópolis, Tubarão que fez, Curitiba, todas tiveram. O MP vai dizer: "o valor é esse".

Seu governo começou com aumento na passagem e terminou com o reconhecimento da dívida (com as empresas de ônibus). Se arrepende? 

Não. Me arrependo de não ter tido... Eu tive, no final do ano, dei reajuste em dezembro. Chamei o Udo, falei: "Udo, eu acho injusto o que eu passei". O Tebaldi deixou dois anos e três meses sem reajuste. Tinha que dar o reajuste porque estava defasado. Chamei técnicos, três meses analisando a planilha. Sempre fiz o que prometi: tarifa justa, inflação. Dei três aumentos. Para não ter o desgaste do prefeito, chamei ele e falei: "as empresas estão pedindo, vou dar esse reajuste até para você ter um ano...". O que ele fez demagogicamente? Chegou no primeiro dia em janeiro e cancelou aquele reajuste para dar três, quatro meses depois. Só para fazer política. Hoje, Joinville tem a tarifa mais cara do Brasil, R$ 4,50.

O que pretende fazer em relação a isso? Dá para baixar a tarifa?

Acredito que, sem subsídio, não. Do que eu vi nos quatro anos, as planilhas, não. Você teria alguma possibilidade e aí depende do governo federal. É baixar os impostos do diesel. É uma contradição. Temos subsídio para o diesel para barquinho de luxo e não tem para transporte. 

Quais são os grandes legados do seu governo? 

Pautar saneamento básico. Parte da população já entendeu o meu recado. Só isto já me deixa feliz. Tem uma ignorância total sobre esse assunto, mas uma parte da sociedade: "ó, o cara está certo". Estou recebendo o apoio de pessoas que nunca votaram em mim. "Vou votar no senhor porque o senhor era muito sério". 

É uma candidatura de resgate de legado? 

Basicamente. Só ver nossos programas. Vamos começar a mostrar as propostas. Me perguntaram três propostas: em janeiro vou abrir a licitação do transporte coletivo. Faço a última audiência, o transporte coletivo vai ter licitação. Vou fazer a licitação do estacionamento rotativo. Há quatro anos a maior cidade do Estado não tem estacionamento. Cadê a gestão? Como alguém fala em gestão se não consegue fazer uma licitação de estacionamento? Cidades dez vezes menor estão fazendo. E você não vê cobrança das entidades representativas. Cadê CDL, Acij? É só faixa de impeachment.

O fato de o Udo Döhler ter uma vida empresarial ofusca, atrapalha? 

Fábrica tem de dar lucro. É uma diferença básica. Prefeitura não tem de dar lucro, tem de atender à população. Talvez parte desses empresários que eram tão violentos e agressivos contra o governo Carlito... Ficamos uma semana sem o estacionamento rotativo por uma transição necessária da Conurb para o Ittran. Foi o caos, comércio quebrou, lojistas quebraram. Agora estamos há quatro anos e ninguém abre a boca. Tivemos 15 anos atrás 1,3 mil PMs em Joinville. Temos 750 hoje. Cadê as entidades? O governador deve estar adorando. O prefeito coloca no colo dele uma responsabilidade que não é dele criando a Guarda Municipal. Vou rediscutir esse papel. Vi esses dias uma delegada, candidata, "agora eu vou...". Mas ela foi delegada, foi do partido do governador até esses dias. O governador está há um mandato e meio já. O ex-governador era de Joinville. Prefeito não tem que cuidar de segurança, tem que iluminar a cidade.

Nas últimas oito eleições, o senhor foi candidato em sete. Não é um sinal de falta de renovação do PT? 

Mas é de todos. PMDB, tirando o coronel que morreu, quem foi a liderança que o PMDB criou? Ou vai dizer que o Udo é do PMDB? Udo não é do PMDB. Os outros, PSD, Darci... PSDB? PSD é Kennedy e Darci. Não deixam criar nada. O PT está sendo destruído há dez anos, desde 2005 com o papo do mensalão. Foi sistemática a desconstrução do partido. Vereadores eleitos pela sigla se vendendo. É muito difícil manter coerência ideológica. 

O senhor atribui a isso a rejeição que as pesquisas apontam?

As pesquisas estão mostrando a rejeição de todos. Ou acha que tenho mais rejeição que o atual prefeito da cidade? Claro que não. A maior rejeição é ao atual prefeito, eu sou o segundo. E na faixa histórica, de 25 a 30%.

No último Ibope deu 34%... 

Não é verdade. Um número mentiroso. A minha rejeição não passa de 30%. A do Udo é 34 ou 35% hoje. O Ibope na sexta-feira anterior às eleições de 2012 deu Kennedy com 59% e Udo com 41%, né? Belo instituto.  

Qual o papel da esquerda no cenário político joinvilense? 

Temos pequenos agrupamentos de esquerda. Falo esses tipos quebra-ônibus, MPL... 

Qual é o papel deles? 

Quando era com o Carlito, pega o grupo lá que controla o sindicato. A maior oposição (foi de esquerda). Foi lá o Sandro Silva, nos dois primeiros anos, oposição normal puxando o tapete do PMDB. E a esquerda o que era? Vou dar esse exemplo desse grupo que era vereador do PT. Todos os meus reajustes foram acima da inflação. E tive greve de 42 dias. Agressiva, violenta, acampamento na frente da prefeitura. Nos últimos dois anos, nem inflação o prefeito deu. E tá pagando em três vezes. Cadê a oposição?

Esse grupo migrou para o PSOL...

Mas não é PSOL. É um grupo que tomou o PSOL aqui, mas não é a política do PSOL. Política do PSOL é o Camasão. Qualificada... Você pode divergir e tal. Esse é o PSOL. O que tomou conta aqui é outro grupo, um partido que tinha dentro do PT, que tomou o PSOL da cidade. Pergunte ao Camasão o que ele acha desse grupo. É uma esquerda que se acalmou muito nos últimos quatro anos. Isso me incomoda como de esquerda. Vem um grupo desses fazer o que fazia contra mim, uma agressividade. Serviu à direita, claro. Porque arrebentar o governo Carlito serviu a quem? Qual era a opção? Pela direita, como aconteceu.

O senhor citou o Luiz Henrique algumas vezes...

Seus filhotes estão muito preparados. Mauro Mariani hoje atua de forma muito mais agressiva e violenta que o Luiz Henrique. Foi o grande operador do Eduardo Cunha nesse período dos últimos dois anos. Tenho certeza que o Eduardo Cunha será salvo. Mas em acontecendo essa desgraça, se a Globo quiser derrubar o Eduardo segunda-feira. A grande viúva vai ser Mauro Mariani, João Rodrigues, Tebaldi e Peninha.

Como é uma eleição a prefeito de Joinville sem a presença de Luiz Henrique?

Como sem presença? Primeiro programa veio em espírito. Chico Xavier baixou ali e o homem estava no primeiro programa. É assustador, uma coisa assim que perde até a racionalidade.

O PT não cometeu erros ou crimes no mensalão, petrolão? 

No mensalão nós fizemos caixa dois. Fizemos. Igual... A gente achava que não. A gente pensava: "olha a ingenuidade do Zé Dirceu, do Delúbio, da executiva. Ah não, vamos trazer o Marcos Valério porque agora a melhor forma de arrumar dinheiro é via empresas de publicidade porque é mais difícil de fiscalizar". E tem uns tucanos que estão fazendo isso há anos e ninguém pegou. O Azeredo tá fazendo isso, o Aécio. Olha a ingenuidade do PT, não só pega o modelo tucano como trouxe o operador, Marcos Valério. E o resto é a mesma coisa, empreiteira. Vai lá e pede dinheiro. Quem tem dinheiro? Banco e empreiteira. Aí talvez foi, a gente resolveu fazer campanha igual a eles.

Nuvem de palavras do candidato:


Foto: Arte DC / WordClouds
 

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