Udo Döhler: 'O oportunismo político tem que ser banido' - Política e Economia - Santa

Entrevistas23/09/2016 | 08h01

Udo Döhler: 'O oportunismo político tem que ser banido'

Ele tenta a reeleição citando zelo na gestão e apontando condições melhores nas finanças para eventual novo mandato

Udo Döhler: 'O oportunismo político tem que ser banido' Rodrigo Philipps/Agencia RBS
O empresário concorreu às eleições pela primeira vez em 2012, quando foi vitorioso Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

Mais uma vez usando a expressão “mãos limpas”, Udo Döhler (PMDB) tenta fazer uma candidatura governista ser a vitoriosa em Joinville. Em 2008 e 2012 – esta última com a vitória do peemedebista – a oposição foi vitoriosa no maior colégio eleitoral de Santa Catarina.

A estratégia da campanha de Udo, também exibida nesta entrevista, responsabiliza a crise econômica pelas dificuldades encontradas durante o mandato, como o descumprimento dos 300 quilômetros de asfalto e da construção da ponte do Adhemar Garcia – a ampliação de vagas no ensino infantil é apontada como a opção escolhida em vez de obras de infraestrutura. O governo anterior também foi alvo de queixas.

– Nós, em 2012, tínhamos consciência de que encontraríamos as finanças abaladas, só que o abalo era muito maior do que imaginávamos – alegou Udo, repetindo lamentação iniciada desde o início do governo.

Em uma diferença para 2012, desta vez o empresário de 73 anos não conta com o principal cabo eleitoral daquela eleição, Luiz Henrique da Silveira, homenageado com exibição de vídeo na abertura da propaganda de TV. Em outra mudança, o partido do vice Rodrigo Coelho, o PSB, preferiu outra aliança e o companheiro de chapa passou a ser Nelson Henrique Coelho, ex-comandante do maior batalhão da PM de Joinville.

Confira a série de entrevistas com os candidatos a prefeito de Joinville em 2016

A Notícia – Não houve equívoco em propor os 300 quilômetros de asfalto e a ponte de Adhemar Garcia?
Udo Döhler – Não houve nenhum equívoco. Nós, em 2012, tínhamos consciência de que encontraríamos as finanças abaladas, só que o abalo era muito maior do que imaginávamos. Quando chegamos em janeiro, não encontramos a provisão para pagar os salários de dezembro e tivemos que parcelar o pagamento. Ficamos meio sem contratar a compra de um prego sequer. Mas chegamos ao final de 2013 com o reescalonamento das dívidas equacionado. Daí em 2014, vem a crise, que se aprofunda em 2015. Em 2016, continua presente. Em meados de 2015, nos disseram que não conseguiríamos pagar os salários a partir do final daquele ano. Adotamos um plano de contingenciamento de despesas que equivalia à folha de um mês de salário. Daí pagamos o salário de dezembro, o 13º e veio a advertência de que não pagaríamos o salário de março. Daí veio março e pagamos e vamos pagar os salários até o final do ano, corrigidos pela inflação. Mas tivemos que priorizar. O mais importante era pagar os salários. Na hora em que você deixa de pagar, você está tirando mais de dez mil pessoas da área da saúde e da educação. Essa crise que está aí era imprevisível, ninguém poderia prevê-la em 2012. Em ambas as metas (asfalto e ponte), não me arrependo de nenhuma delas. No caso da ponte, tinha recursos assegurados pelo Banco do Brasil, com
R$ 120 milhões. Só que a fonte secou. Só que nesse intervalo, saneamos nossas finanças, recuperamos o nosso crédito e a nossa capacidade de endividamento, tanto é que o Fonplata nos procurou, não fomos nós que procuramos o Fonplata. Quando chegamos aqui, só tinha um parque, o Parque da Cidade. Concluímos o Zoobotânico, o Mirante do Boa Vista, o Porta do Mar e o Parque São Francisco. Diante de tudo isso e sabendo que o Banco do Brasil deixou de ter o recurso para a ponte, o Fonplata tomou a iniciativa de financiar a ponte, com US$ 40 milhões. Fomos ao Temer, ainda na condição de presidente interino, e dissemos que não queríamos empréstimos, apenas dois avais: o do BID, com US$ 70 milhões, e o Fonplata. O Temer como presidente efetivo não vai hesitar em dar os avais. A ponte vai sair, tanto que o Fonplata vai financiar inclusive o projeto da ponte.
 
AN - E a pavimentação? 
Udo – Se olhar só para uma reforma, investimos R$ 2,4 milhões no CAIC Francisco. Ora, se nós deixássemos de dobrar as nossas vagas nas creches, que eram 10 mil e hoje são próximas de 20 mil, o que nos obrigou a contratar 450 funcionários, se pegássemos esse dinheiro e jogássemos no asfalto, nós teríamos avançado na pavimentação. Mas é uma questão de opção: ou você pavimenta a rua, os buracos já desapareceram, mas o pó e a lama continua, ou nós deixaríamos essas crianças sem a assistência da educação infantil. Portanto, não me arrependo de nenhuma dessas duas metas. E não foram metas eleitoreiras ou inexequíveis. Se nós não tivéssemos mergulhado na crise, onde 70% dos municípios já não pagam regularmente os salários, nós teríamos cumprido toda a meta de governo. Com o que está em execução, alcançamos 82%.
 
AN –Se a situação da Prefeitura de hoje é melhor, por que não tem nenhuma meta de pavimentação?
Udo – Nós não colocamos no plano de governo que iríamos dobrar as vagas nas creches. Nós reduzimos em um terço os cargos comissionados, cortamos 212 postos. Não existe mais o nível de supervisor. Não sei porque existe tanta resistência em desinformar a população em não dizer que não existe esse nível. Na outra ponta, contratamos 450 pessoas só para a educação infantil e não me arrependo. Pagaríamos um preço muito caro por deixar 10 mil crianças nas ruas. A verdade é que essa crise trouxe muito mais do que isso: não conseguimos dizer à população que nós temos aqui a gestão plena da saúde.
 
AN – Temos a gestão plena há tempos.
Udo – Mas não conseguimos dizer, o que nos obriga a atender a todos que nos procuram. No Hospital São José, 25% dos atendimentos são de pessoas de fora. Conversamos com o ministro da Saúde e ele pergunta por que estamos reclamando, “nós pagamos pelas consultas”. Só que pagam oito reais por consulta. E nós compramos essa mesma consulta por R$ 60. Quem paga essa conta? O munícipe, por meio da fonte 100 (recursos próprios). Isso é um equívoco sem tamanho, esse dinheiro poderia ser usado na infraestrutua.
 
AN – Mas como vai mudar isso?
Udo – Vamos empoderar a população. Isso já faz parte da proposta do Join.Valle. Vale também para a segurança. Quando isso acontecer, eu vou conseguir pressionar o governo do Estado e o governo federal porque Joinville é a cidade mais importante do Estado. O cidadão tem que saber o que está acontecendo.  Não adianta dizer que a Prefeitura é transparente, precisa ser visível. E isso vamos fazer, para que se possa mostar que o oportunismo político tem que ser banido da vida pública.
 
AN – Como isso vai impactar na saúde e na educação?
Udo – Na hora em que a população cobra, as coisas avançam. A cobrança da população fez com que tivéssemos avanços invejáveis na saúde e na educação. Avançamos no Ideb devido à cobrança da população. E na hora em que você deixar a população cobrar com mais intensidade, as coisas começam a acontecer.
 
AN – Como fazer para reduzir a fila das consultas, exames e cirurgias?
Udo – Ali nos fizemos um avanço sem precedentes. Chegamos aqui com 174 mil pessoas na fila e hoje caiu pela metade. Só que isso não significa que você não tenha que ligar com sua capacidade de atendimento. Joinville oferece 30 mil consultas especializadas por mês, o que dá um represamento de 2,3 meses, o que é invejável em termos de País. Você tinha fila de espera na mamografia e agora faz na hora. Isso ajudou a elevar nosso gasto com saúde, que chegou a 41%. Hoje, temos aqui o Hospital São José e o Estado vai que assumir parte desse ônus.
 
AN – Vários prefeitos de Joinville disseram isso.
Udo – Nós estamos cobrando. A gente tem feito a cobrança de forma racional, cuidadosa, sem atropelo.  A nossa cobrança para que o Estado participe mais na saúde vai ficar mais contundente. E já está ficando. Em 2013, na distribuição dos 236 medicamentos, faltavam 40 a 50, isso era notório. Hoje, faltam quatro, cinco, sete medicamentos. Daí a imprensa vai lá e diz o seguinte que estão faltando 30 medicamentos. Mas tem ali medicamentos que o Estado tem que fornecer, como na alta complexidade.
 
AN – A Prefeitura vai acionar a Justiça?
Udo – Sem dúvida.
 
AN – Quais obras de mobilidade são necessárias além da ponte?
Udo – A expansão industrial agora vai ocorrer na zona Sul. As grandes plantas industriais estão com os dias contados, vamos ter plantas menores, distribuídas pela cidade, como as ferramentarias, que estão pelos bairros e não incomodam ninguém. O nosso modelo industrial vai mudar, vamos para a biotecnologia, para a saúde, vamos fabricar órteses, próteses, medicamentos, micro robôs. Nós vamos aumentar significativamente a receita do ISS, com menos dependência do ICMS.
 
AN – Mas quais obras são necessárias?
Udo – A necessidade primeira é da mobilidade. Sem isso, você não consegue ir na escola, no trabalho, no posto de saúde. Vamos avançar nos modais existentes, como o ônibus. Temos R$ 104 milhões para corredores, os ônibus vão andar com mais velocidade, você dobra o número de passageiros e isso leva a reduzir a passagem. Com isso, podemos eliminar o transporte individual improvisado. Isso avança, mas é transitório. Depois, temos os outros modais. Não faz sentido imaginar que só os binários e alargamentos de ruas vão resolver. Isso é paliativo. Acontece que, infelizmente, as propostas são construídas para quatro ou oito anos. A solução para nós é concluir o contorno rodoviário Leste, incluindo a Beira-mangue, termos a ponte. Temos o contorno Oeste (paralelo à BR-101, no Vila Nova), que será bancado pelo pedágio. Isso leva mais de oito anos. Se nós nos recusarmos a aceitar que em 2045 Joinville vai ter mais de um milhão de habitantes, aí nós não avançamos.
 
AN – Se a crise continuar, tem mais onde cortar?
Udo – Sim, tem. Nós cortamos um terço de nossa frota de automóveis. Podemos socializar ainda mais o uso da frota. Desde meados de julho, nossos licenciamentos ambientais estão digitalizados. Nós tínhamos filas de um, dois, três anos. Hoje, a fila é zero, não tem fila. Nós levamos o meio ambiente para dentro da administração direta. Construímos também um modelo que previne protelamentos. Antes, passava por cinco áreas, uma de cada vez. Agora, com a digitalização, todas são acionadas simultaneamente. Todos terão que despachar, dizer sim ou não. Você passa a enxergar onde parou. Isso elimina o uso do carro, uma série de processos, isso facilita a vida de todo mundo. E no momento em que se leva um ano para liberar um empreendimento, é um ano sem imposto. O Projeto Legal de Joinville está sendo copiado por capitais.
 
AN – Vai ter licitação do transporte?
Udo – Sim.  A questão está judicializada, não reconhecemos o acordo feito pelo governo anterior na questão da dívida (defasagem da tarifa em relação à planilha), estamos recorrendo, mas vamos fazer a licitação. E com os investimentos em corredores, a passagem vai baratear, na hora que você dobra o número de usuários, você reduz a tarifa em um terço.

AN – Além da ampliação da Guarda Municipal, o que mais dá para fazer na segurança?
Udo – Sempre vamos cobrar mais efetivo. A gente, ao criar a guarda, tirou o traficante de frente à escola. Também não dá para aceitar que o efetivo de Florianópolis seja tão superior ao de Joinville.

AN – O que será prioridade em caso de segundo mandato?
Udo –  Vamos partir para a economia criativa, para uma cidade inteligente, investir em startups, a matriz tributária não vai mudar. Temos que buscar aumentar a receita própria por meio do ISS. Outra questão é a segurança, onde vamos triplicar a Guarda Municipal.

Udo Döhler
Partido: PMDB
Vice: Nelson Henrique Coelho
Coligação: Juntos no Rumo Certo (PMDB/PV/PCdoB/PTdoB/PSC/PTC/PROS/PTB).
Mote da campanha: Udo tem apontado a herança do antecessor e a crise econômica como motivos das dificuldades enfrentadas pela Prefeitura – que ainda assim teria cumprido a maioria das metas apresentadas em 2012, segundo ele. O peemedebista vê a Prefeitura hoje em melhores condições para eventual segundo mandato.

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